2010-10-20

por outro lado...

Mas não aparece ninguém e eu continuo entregue a mim mesmo. Permanentemente obcecado com a dificuldade da situação, perco muita da minha timidez, já não evito ostensivamente aproximar-me da entrada, andar em círculos à volta dela é agora a minha ocupação predilecta, é quase como se agora fosse eu o  inimigo que está de atalaia, à espera da oportunidade ideal para um assalto bem sucedido. Se ao menos eu tivesse alguém em quem pudesse confiar, a quem pudesse entregar o meu posto de sentinela, já podia descer sem preocupações. Chegaria a um entendimento com o meu confidente, para que observasse a situação enquanto eu descia, e durante largo tempo depois de eu descer, me batesse ao alçapão em caso de perigo, mas só nesse caso. Assim fazia tábua rasa sobre mim, não deixava contas por saldar, a não ser, quando muito, com o meu confidente. Porque mesmo que ele não peça nenhuma recompensa, não irá ao menos querer ver a toca? O simples facto de consentir que alguém entrasse em minha casa já seria para mim extremamente doloroso. Construía-a para mim, não para receber visitas, e acho que não ia deixá-lo entrar; mesmo que fosse esse o preço a pagar por ele me possibilitar o regresso à toca, não o deixava entrar.


Franz Kafka - "A Toca"

Sem comentários:

Enviar um comentário