2010-12-29

a complexidade da natureza humana

Li esta  dolorosa notícia. A Joana dá-lhe, quanto a mim, o contexto correcto. Mas começo mesmo a acreditar que as perplexidades quanto a este tema estão longe de ter um fim.

2010-12-27

Natal

Nasceu.
Foi numa cama de folhelho,
entre lençóis de estopa suja,
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.
E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo,
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos Reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroas de espinhos
mas coroas de baionetas,
postas até ao fundo
do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

Álvaro Feijó

"Trazemos por viver ainda uma infância"

(...)Se olharmos para o enredo natalício, mesmo no modo sóbrio como os Evangelhos o relatam, percebemos que nada é cor-de-rosa. O que os seus atores vão viver é uma história de instabilidade, perturbação e desconcerto. “O que é que nos aconteceu?” – ter-se-ão perguntado repetidas vezes Maria e José, mas também os pastores acordados em sobressalto ou os magos vindos de longe. “O que é que nos aconteceu?”. E não tinham à mão (como nós não temos) tranquilizantes respostas, mas sim um caminho que lhes era proposto na surpresa, na maturação paciente e na confiança. O próprio local onde a cena se desenvolve, um modestíssimo piso térreo que servia de refúgio aos animais, mostra bem a implacável dureza das circunstâncias. Mas doutra maneira como é que esta divina história poderia servir de modelo para todas as histórias humanas?!

O Natal de Jesus, o mistério da sua encarnação, reconfigura radicalmente a condição humana, porque deposita nela inventivas possibilidades. Estamos habituados a ver no inelutável ciclo das estações, primavera, verão, outono, inverno, o modelo da própria vida. Julgamo-nos chegados, cada vez mais chegados, de uma primavera ou de um verão que julgávamos invencíveis ao irremediável obscurecer do outono ou à íngreme solidão da paisagem no inverno. O nascimento humano de Deus inaugura, porém, um esperançoso contraciclo: a nossa vida deixa de explicar-se como uma marcha do nascimento para a morte, para efetivar-se na imagem de um incessante renascer. Contemplando a manjedoura do Deus Menino, qualquer que seja a nossa idade e o peso dos nossos anos, sentimos como real aquele verso de Pedro Homem de Mello: «a minha [a nossa] infância ainda não morreu». De facto, a infância não é uma nostálgica trégua que o nosso passado encerrou, mas o futuro que um modo novo de entender a história nos entreabre. Trazemos por viver ainda uma infância - é o que o Natal nos segreda.

José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias da Madeira

(texto integral aqui)

2010-12-22

ousar dar e saber receber

Íamos, os cinco, nos Restauradores. O dinheiro era pouco e, por isso mesmo, rateado. Fazia frio e éramos felizes. Decidimos, dentro do frio e na nossa felicidade frugal, sentarmo-nos na casa dos sorvetes e comer meia cassata. Antigamente, no tempo do frio, ninguém, em Lisboa, comia gelados, e arrepiávamo-nos quando víamos, nos filmes, miúdos e graúdos a lamber cones de sorvete. Mais tarde, muito mais tarde, em Moscovo, surpreendi o deleite, para mim inaudito, de ver magotes de gente a medir-se com enormes invólucros de plástico repletos de sorvetes de várias cores. Caminhava pelas ruas cheias de neve, na companhia do meu amigo José David Lopes, camarada do Diário de Notícias, e resolvemos beber vodca pelo gargalo de uma garrafa avulsa, acaso como retaliação absurda pela quantidade de pessoas lambedoras de sorvete.
Mas, naquele dia, éramos os cinco e não havia infelicidade que nos tocasse no batente. Sorríamos uns para os outros, e eu estava com aquele orgulho, um pouco tolo, um pouco ufano, do patriarca que nunca se desentende da sua condição. Os nossos três rapazes estavam naquela idade em que a música dos sonhos nunca se esfuma e tudo é permitido e possível. A minha mulher, jovem, serena e vigilante, observava-nos a todos, e eu sentia a pulsão do imperativo que a animava. Um dia, pensei, hei-de escrever sobre este momento, no qual se desprende o íntimo de um coração, e se ignora a metáfora. Não sei se chegou a altura.
Ela e eu tínhamos combinado comprar umas prendas aos filhos, era Natal, e eu recebera um bónus do jornal onde trabalhava. Dava para muito pouco, o bónus, mas sempre dava para alguma coisa. Por outro lado, o nosso filho do meio decidira trabalhar, na quadra de Natal, numa empresa de mudanças, a fim de amealhar trinta contos, o preço de umas botas de bico longo, suas preferidas que eu detestava por as considerar grosseiras. Ele tinha 17 anos e contrariávamos essa ideia tida por nós como disparatada. Por fim, ganhara a sua perseverança, e lá andara, durante um período, a carregar móveis. A mãe, preocupada e inquieta; eu, um pouco orgulhoso.
Chupávamos a cassata, calculados no que fazíamos e exactos no prazer modesto, na felicidade pequena que nos abrangia. Eis senão quando o nosso filho do meio se ergueu, sorriso de ponta a ponta da boca, braços abertos na exuberância afortunada que até hoje se lhe mantém. "Ah!, ganda Gabriel!", exclamou, para outro rapaz que se lhe aproximava, também exuberante e também alegre. "É um amigo meu das mudanças." Abraçaram-se, no júbilo de um reencontro inesperado. O Gabriel meteu a mão no bolso. Procurava o que não descobria ou não tinha. Por fim, extraiu algo pequeno e, pelo seu olhar, fútil. Estendeu um rebuçado.
"Bom Natal!", disse.

Baptista-Bastos, in DN

2010-12-19

es amarga la verdad

Pues amarga la verdad,
Quiero echarla de la boca;
Y si al alma su hiel toca,
Esconderla es necedad.
Sépase, pues libertad
Ha engendrado en mi pereza
La Pobreza.
 
¿Quién hace al tuerto galán
Y prudente al sin consejo?
¿Quién al avariento viejo
Le sirve de Río Jordán?
¿Quién hace de piedras pan,
Sin ser el Dios verdadero
El Dinero.
 
¿Quién con su fiereza espanta
El Cetro y Corona al Rey?
¿Quién, careciendo de ley,
Merece nombre de Santa?
¿Quién con la humildad levanta
A los cielos la cabeza?
La Pobreza.
 
¿Quién los jueces con pasión,
Sin ser ungüento, hace humanos,
Pues untándolos las manos
Los ablanda el corazón?
¿Quién gasta su opilación
Con oro y no con acero?
El Dinero.
 
¿Quién procura que se aleje
Del suelo la gloria vana?
¿Quién siendo toda Cristiana,
Tiene la cara de hereje?
¿Quién hace que al hombre aqueje
El desprecio y la tristeza?
La Pobreza.
 
¿Quién la Montaña derriba
Al Valle; la Hermosa al feo?
¿Quién podrá cuanto el deseo,
Aunque imposible, conciba?
¿Y quién lo de abajo arriba
Vuelve en el mundo ligero?
El Dinero.

Francisco Quevedo

sem imagens

Um passeio matinal pelo jardim traduz-se numa única palavra: paz.

2010-12-18

confessions

será melhor não ter tido ou ter perdido?..."O conhecimento não resulta de um simples contemplar nem apenas de um reflectir, mas de um agir e do analisar o que é criado. Assim, cada grau de conhecimento humano, sensível e racional, é uma actividade da qual participam o saber do homem e as suas experiências" (Sónia Kramer). A minha experiência (coisa pouca...o normal para uma mulher discreta que passou há pouco os cinquenta) portanto, é que o melhor é ter perdido, sem se ter perdido. O que implica que, por vezes, se diga sim e  não. E mais outras (muitas) que não se sabe o que dizer.

nu feminino #2

tua mão
no meu seio
sim não não sim
não é assim
que se mede
um coração


Alice Ruiz

nu feminino


 Sentido
Que fique muito mal explicado
Não faço força pra ser entendido
Quem faz sentido é soldado
Para todos os efeitos meus defeitos não são meus
Que importa o sentido se tudo vibra?
Não importa o sentido
O bramido do meu canto mudo
Comporta bemóis e sustenidos
Convoca ouvidos surdos
Ao silêncio suave
Da melodia sem conteúdo
Está escrito
Quem não quiser ceder ao canto das páginas
feche os olhos
ou tape com cera os ouvidos

Alice Ruiz

2010-12-15

epifania - Deus quer sempre. Nós, bem, nós somos seres muito complexos.

A epifania põe em causa qualquer estratégia do visível: o mais tangível do tangível não se vê. Não querer ver tudo nu, não assistir a tudo, não procurar compreender tudo e tudo "saber" é uma questão de decência. O medo de perder o mundo é o medo do desmembramento: a sensação de que o todo se quebrou, algures. Há saber que envenena e empanturra. Temos de perguntar, isto é, pôr a descoberto o que vamos sendo e que é apelo, mobilidade profunda, esforço de libertação, transfiguração. A resposta do mito é apaziguadora (função calmante da resposta). Não se rompe com a saturação do sentido senão cedendo à intensa e frágil visitação dos afectos: só o amor liberta. A compulsividade das evidências magoa mais do que o jogo do olhar entre o visível e o invisível. A loucura de Deus é ser Emanuel, Nome, Corpo, Dom, justiça - é esse Deus que assoma hoje à porta pelo milagre dos Magos. Entremos no mistério desta festa. Ajoelhemo-nos diante do ícone do Deus invisível.

José Augusto Mourão

2010-12-13

Pluralismo religioso como dom de Deus

  1. O pluralismo religioso é um dom de Deus e revela as riquezas singulares de sua sabedoria infinita e multiforme.
  2. Antes de expressarem uma busca tateante de Deus, as religiões já foram acolhidas por Deus na dinâmica de sua infinita abertura e misericórdia. Não são os sedentos que buscam a água, mas a água que busca os sedentos.
  3. As religiões são “fragmentos” que participam de uma sinfonia cujo horizonte é marcado pela tônica do inacabamento. Não há possibilidade de uma única tradição pretender-se detentora da posse da verdade.
  4. A verdade que anima a caminhada das religiões não é algo que se apropria como uma garantia assegurada, mas um mistério sempre aberto pelo qual as religiões devem deixar-se possuir.
  5. As religiões são marcadas por limites e ambigüidades, mas estão igualmente envolvidas pela maravilhosa liberdade do Espírito, que indica caminhos que são misteriosos e inusitados.
  6. Cada religião é portadora de um enigma que é irredutível e irrevogável, não podendo ser entendida como um marco de espera que encontra o seu acabamento ou remate numa outra tradição religiosa. A riqueza das religiões não é algo que se encontra fora delas, como se o seu valor estivesse na sua capacidade de abrir-se positivamente àquilo que ignoram.
  7. Desconhecer esse enigma ou mistério que envolve cada tradição religiosa é deixar de honrar a sua especificidade única e macular a riqueza intransponível da alteridade.
  8. A defesa de uma assimetria de princípio entre as religiões compromete a dinâmica misteriosa dos dons de um Deus que abraça a diversidade.
  9. A experiência de fé num Deus criador, que está presente e vivo em cada domínio do planeta, implica em reconhecer sua presença viva e acolhedora entre as diversas tradições religiosas.
  10. Deus atua na história através de mediações distintas e diversificadas. Não há razão plausível para concentrar a mediação fundamental da presença salvífica de Deus numa única instância ou “porta”, mas há que perceber outras formas dessa mediação, que podem ser uma pessoa, mas também um livro, um evento, um ensinamento ou uma práxis.
  11. A acolhida do pluralismo de princípio é uma condição essencial para o verdadeiro diálogo interreligioso. Não há como dialogar verdadeiramente com o outro desconhecendo a riqueza e o valor irredutível de sua dignidade religiosa.
  12. Fixar-se numa única tradição religiosa, excluindo-se da provocação criadora da interlocução da alteridade, é deixar escapar bens preciosos  que irradiam na dinâmica reveladora de Deus, sempre em ação na história.
  13. O reconhecimento da presença do Mistério Maior nos outros confere uma nova perspectiva à identidade, facultando a abertura para novas e enriquecedoras dimensões da própria fé.
  14. Longe de enfraquecer a fé, o diálogo verdadeiro abre horizontes novos e fundamentais para a sua afirmação num mundo plural.
  15. A acolhida do pluralismo de princípio requer não apenas o diálogo entre as religiões, mas também a abertura e aprendizado com outras formas de opções espirituais, sejam  religiosas, a-religiosas ou pós-religiosas.
Faustino Teixeira

2010-12-09

certeiro:

Ainda da mesma entrevista:

Entre os padres, conheci muitas personalidades não resolvidas, desequilibradas, cuja escolha de vida levou mais a uma carência do que a um crescimento interior. As problemáticas ligadas à sexualidade, que absolutamente não me parecem diminuir, são só um aspecto da questão que se manifesta muito mais frequentemente em atitudes de autoritarismo e de aridez afectiva, ou na exibição de um “Eu” ideal, o qual não correspondeu ao “Eu” real, em uma espécie de desdobramento esquizofrénico.

Há também pessoas maravilhosas, que são autênticas testemunhas da fé, mas a minha sensação é de que elas souberam enfrentar melhor suas próprias fragilidades, com as quais todos nós devemos acertar as contas ao longo de toda a vida, não graças à instituição, mas graças a um percurso interior próprio.

futuro da Igreja...antes do futuro temos o presente...um presente tão problemático quanto desafiador

"Como leigo, todas as perspectivas que a minha Igreja me colocou à disposição consistiam em "dar uma mão" em actividades projectadas e geridas pelo clero. Não! Não é possível! Se somos todos baptizados, se somos povo sacerdotal, se recebemos o mesmo Espírito numa Igreja-comunhão, é absurdo que à maior parte de nós não seja reconhecida uma identidade, ministérios, carismas"

Christian Albini, nascido em 1973, em Crema, na Itália, é casado e pai de dois filhos. É formado em Ciências Políticas pela Università degli Studi di Milano e licenciado em Ciências Religiosas pelo Istituto di Corso Venezia. É membro da Associação Teológica Italiana. Na diocese de Crema, é membro da presidência do Conselho Pastoral e colabora com a Cáritas, a pastoral familiar e o Centro Diocesano deEspiritualidade. Na comunidade paroquial de San Giacomo, faz parte de um grupo de famílias e atua em um Centro di Ascolto delle Povertà. Autor de livros e artigos sobre temas teológicos, espirituais e filosóficos, Albini fez parte da redação da revista Aggiornamenti Sociali. Hoje, também mantém o blog Sperare per Tutti (sperarepertutti.blog.lastampa.it). É cofundador do Centro Viandanti.


Entrevista, Aqui

o pecado original de Santo Agostinho (grande pensador mas um mau tradutor)

En realidad, San Agustín llegó a esa siniestra idea sobre ti y sobre Dios por saber poco griego, y por haber traducido erróneamente una inocente palabra de San Pablo en la carta a los romanos (5,12), ephautó, que no quiere decir “en él”, como pensaba Agustín, sino “puesto que”, como traducen hoy todos. San Agustín pensó que nosotros seguimos sufriendo porque pecamos “en él” (en Adán, o Eva), es decir, porque heredamos su culpa, pero Pablo quería decir que seguimos sufriendo “puesto que” seguimos “pecando”, es decir, haciendo daño, igual que Adán y Eva. Corregido el malentendido gramatical, nos correspondería corregir el dogma, pero a la Iglesia le cuesta demasiado reconocer errores (es su particular pecado original).

ler o texto completo aqui

2010-12-08

uma ovelhinha do género masculino a caminho de Belém

Perdão, da Barbearia!
Depois de pesquisa exaustiva aqui fica o meu exemplar a concurso:
Pois

Créditos: aqui

(i)maculados

O mundo está abarrotado de palavreado contra o próprio mundo e os outros. É a estratégia para  ignorar as próprias feridas.
É normal que assim seja - queremos, a todo o custo, preservar a imagem que nos impeça de ver a própria fraqueza.
Mas também temos inscrita uma Palavra de eternidade. É nela que importa fixar o olhar.

(imagem - Jean-François Segura)

(i)maculada

Que nada me invada de fuera,
que sólo me escuche yo dentro.
Yo dios
de mi pecho.

(Yo todo: poniente y aurora;
amor, amistad, vida y sueño.
Yo solo
universo).

Pasad, no penséis en mi vida,
dejadme sumido y esbelto.
Yo uno
en mi centro.


Juan Ramon Jimenez

2010-12-07

LOS NADIES - eduardo galeano

"los nadies"

Sueñan las pulgas con comprarse un perro y sueñan los na-
dies con salir de pobres, que algún mágico día llueva de pronto
la buena suerte, que llueva a cántaros la buena suerte; pero la
buena suerte no llueve ayer, ni hoy, ni mañana, ni nunca, ni en
lloviznita cae del cielo la buena suerte, por mucho que los na-
dies la llamen y aunque les pique la mano izquierda, o se le-
vanten con el pie derecho, o empiecen el año cambiando de
escoba.
Los nadies: los hijos de nadie, los dueños de nada.
Los nadies: los ningunos, los ninguneados, corriendo la
Liebre, muriendo la vida, jodidos, rejodidos:
Que no son, aunque sean.
Que no hablan idiomas, sino dialectos.
Que no hacen arte, sino artesanía.
Que no practican cultura, sino folklore.
Que no son seres humanos, sino recursos humanos.
Que no tienen cara, sino brazos.
Que no tienen nombre, sino número.
Que no figuran en la historia universal, sino en la crónica
Roja de la prensa local.
Los nadies, que cuestan menos que la bala que los mata.

Eduardo Galeano

2010-12-03

ainda saberemos escolher a melhor parte?

Hoje, ao fim do dia, uma colega foi colocar um símbolo de Natal em cima da secretária que ocupo. Fiquei a olhar um instante para ele, completamente "ofuscado" pelos diversos dossiers em que estou a trabalhar. E, num relance, fiz a analogia entre a imagem que os meus olhos viam e o significado "HOJE" do Natal. Para mim...e não só. 
Depressa me voltei a concentrar no que estava a fazer, sem deixar de pensar: que maçada! Tanto trabalho para fazer...não dá jeito nenhum o Natal!  (uma atenuante: estou mesmo a precisar de uns dias de férias)


Mas ainda há quem saiba desafiar:

Concretizando: nascer de novo é despirmo-nos dos nossos preconceitos, dos nossos privilégios, das amarras do nosso egoísmo; é aceitar mudar o nosso padrão de vida para menos consumismo e maior responsabilidade no modo como ganhamos e gastamos o nosso dinheiro; é fazer trabalho bem feito e com utilidade social nos nossos diversos locais de trabalho; é dar atenção às relações humanas, cultivá-las e valorizá-las; é cuidar das necessidades do próximo e impulsionar formas organizativas de ajuda aos mais desfavorecidos; é promover e apoiar projectos que conduzam à inclusão e à partilha.

porquê (pergunto eu) se encerrou na Igreja, todo o debate sobre as grandes questões da fé?

..."Se Deus existe, ele é inteiramente diferente do que qualquer teólogo do mundo imagina". Eu acrescento: também inteiramente diferente do que alguns não crentes imaginam por "Deus".

ler a entrevista de onde foi retirada a citação aqui





2010-12-02

Nina Simone/ Feeling Good

Feeling Good

Feeling Good

Birds flying high you know how I feel
Sun in the sky you know how I feel
Breeze driftin' on by you know how I feel

(refrain:)x2
It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good

Fish in the sea you know how I feel
River running free you know how I feel
Blossom on the tree you know how I feel

(refrain)

Dragonfly out in the sun you know what I mean, don't you know
Butterflies all havin' fun you know what I mean
Sleep in peace when day is done
That's what I mean

And this old world is a new world
And a bold world
For me

Stars when you shine you know how I feel
Scent of the pine you know how I feel
Oh freedom is mine
And I know how I feel

(refrain)

não entrar no bailinho

estou a ver, com gosto, que ainda há quem resista.

2010-12-01

sozinhos, não descobriremos quem somos

Sophia de Mello Breyner escreveu: «Em todos os jardins hei de florir…». Acho que a podemos compreender bem, pois quem conhece minimamente o seu próprio coração sabe quanto ele se assemelha a um jardim. Por saber isso é que nos tornamos, claro está, nos primeiros interessados na peculiar arte de jardinagem que é o cuidado do nosso mundo interior. Há uma passagem bíblica, de um dos livros sapienciais, que traduz o que, a esse nível, nos cabe fazer. Diz assim: «Regarei as plantas do meu jardim e saciarei de água os meus canteiros» (Eclo 24,30).

A arte de jardinagem pede de nós três coisas. A primeira delas é o autoconhecimento. É necessário que nos debrucemos sobre o nosso mundo interno, antes de tudo para reconhecê-lo. Lembro-me de uma pergunta de Marguerite Yourcenar: «Quem pode haver tão insensato que se deixe morrer sem ter dado, pelo menos uma volta à sua prisão?». Se isto é verdade, em relação aos nossos limites (à nossa prisão), quanto mais em relação à nossa alma. Vivemos na época da grande mobilidade. A paisagem encheu-se de aeroportos, estações, vias rápidas. Não sei, contudo, se nos tornou mais disponíveis para essa que é a grande viagem: a descida ao íntimo do coração. Às vezes a sensação é que nos tornamos estrangeiros de nós próprios.

A segunda tarefa desta arte de jardinagem é, chamemos-lhe assim, uma solicitude activa. O «Principezinho», o irrequieto alter-ego de Saint-Exupéry, ajuda-nos a concretizar isto de que falamos. É a propósito dos embondeiros. Cito: «No planeta do principezinho, havia como em todos os planetas, ervas boas e ervas daninhas. E por conseguinte boas sementes de ervas boas e más sementes de ervas daninhas. Mas as sementes são invisíveis. Dormem no segredo da terra até que uma delas se lembra de despertar... Se se trata de um rebento de rabanete ou de roseira, podemos deixá-lo crescer à vontade. Mas no caso de se tratar de uma planta daninha, é necessário arrancá-la imediatamente mal formos capazes de a reconhecer. Ora, existiam sementes terríveis no planeta do principezinho... eram as sementes dos embondeiros. O solo do planeta estava infestado delas. Se não arrancarmos o embondeiro a tempo nunca mais nos conseguimos desembaraçar dele. Atravanca o planeta todo».  

A terceira etapa da nossa arte interior é o florescer. Não podemos estar a vida inteira em busca de conhecimento, mesmo se um bom quinhão de teoria não faça mal a ninguém. Nem podemos ficar apenas pela enérgica sacudidela do pó que se amontoa e torna tudo ilegível. Há estações interiores em que só nos falta isto: florir. Também aqui aprendamos dos jardins alguma sabedoria. As flores, por exemplo, não nascem apenas nos canteiros demarcados. Também acontece (e às mais belas) brotarem à beira dos caminhos ou fora de tempo. Numa das inesquecíveis passagens diarísticas de Raul Brandão ele conta o seguinte: ainda hoje recordo «aquela laranjeira que, de velha e tonta, deu flor no inverno em que secou».

José Tolentino Mendonça, daqui

a SIDA mata, irremedialvelmente!

"porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloquentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicídio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituímos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cómodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência."

Caio Fernando Loureiro de Abreu (Santiago, 12 de Setembro de 1948 - Porto Alegre, 25 de Fevereiro de 1996)