2010-12-15

epifania - Deus quer sempre. Nós, bem, nós somos seres muito complexos.

A epifania põe em causa qualquer estratégia do visível: o mais tangível do tangível não se vê. Não querer ver tudo nu, não assistir a tudo, não procurar compreender tudo e tudo "saber" é uma questão de decência. O medo de perder o mundo é o medo do desmembramento: a sensação de que o todo se quebrou, algures. Há saber que envenena e empanturra. Temos de perguntar, isto é, pôr a descoberto o que vamos sendo e que é apelo, mobilidade profunda, esforço de libertação, transfiguração. A resposta do mito é apaziguadora (função calmante da resposta). Não se rompe com a saturação do sentido senão cedendo à intensa e frágil visitação dos afectos: só o amor liberta. A compulsividade das evidências magoa mais do que o jogo do olhar entre o visível e o invisível. A loucura de Deus é ser Emanuel, Nome, Corpo, Dom, justiça - é esse Deus que assoma hoje à porta pelo milagre dos Magos. Entremos no mistério desta festa. Ajoelhemo-nos diante do ícone do Deus invisível.

José Augusto Mourão

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