2011-02-27

"olhai os lírios do campo..."

Nahhh! Não é nenhum convite à passividade. Não há vida sem a tensão do risco e do desafio. Nada estará nunca garantido. Sofrimento, morte e ressurreição, marcam a dinâmica da vida.
Temos uma vantagem sobre  os diversos elementos da natureza: não estamos sozinhos nisto e não dependemos unicamente do nosso ser biológico.

imagem, daqui

2011-02-24

o amor - um "saber" onde todos somos mestres e discípulos

Todos podemos fazer do nosso corpo uma lira para com ela cantarmos a tristeza de o havermos perdido, mas todos podemos igualmente fazer do nosso corpo uma lira e com ela cantarmos a alegria de termos um corpo vibrátil como um instrumento musical. Não pendurarei o corpo da pessoa amada num ramo de uma árvore esperando que o vento lhe dilacere a carne e me deixe o seu esqueleto para eu fazer um violoncelo e dos seus membros arcos. Saberei tocar com as minhas mãos a mais irreal de todas as formas, o corpo, esse breve condensado de linfa multicor estremecendo ao som da minha voz, da tua voz, correndo, rindo, dormindo, erguendo os olhos, estendendo a mão para acariciar, empunhando a lâmina fina com que há-de finalmente destruir-se até ficar uma lira pendurada num ramo duma árvore.

Ana Hatherly, "O Mestre"

2011-02-19

combater ou entreter a pobreza...

Instituiu-se o ano de 2010, como o Ano Europeu de Luta Contra a  Pobreza e Exclusão Social. Aqui, questiona-se, e bem, o sentido e o que foi, efectivamente, feito. As oportunidades perdidas, a demissão e desresponsabilização do Estado, pela via das opções e orientações políticas.
Mas onde vai o Estado ( e, neste momento, o Governo em exercício) retirar receitas para mais intervenção Social? Que novos impostos ou quais são passíveis de maiores aumentos, taxar mais os ricos (Banca etc) segundo os critérios da Esquerda...para além dos custos políticos, isso não é uma opção demasiado simplista?
O combate à pobreza tem de ser feito em várias frentes: Políticas e apoios efectivos por parte do Estado, consciencialização e compromisso da Sociedade para o efeito, e o combate firme, através de todos os meios ao dispor, da corrupção e fuga aos impostos.

"eu não sou Deus"

O grande delírio: Sou Deus!

«Em toda a Terra, havia somente uma língua, e empregavam-se as mesmas palavras. Emigrando do oriente, os homens encontraram uma planície na terra de Chinear e nela se fixaram. Disseram uns para os outros: «Vamos fazer tijolos, e cozamo-los ao fogo.» Utilizaram o tijolo em vez da pedra, e o betume serviu-lhes de argamassa. Depois disseram: «Vamos construir uma cidade e uma torre, cujo cimo atinja os céus. Assim, havemos de tornar-nos famosos para evitar que nos dispersemos por toda a superfície da Terra.» O Senhor, porém, desceu, a fim de ver a cidade e a torre que os homens estavam a edificar.
E o Senhor disse: «Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projetos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros.»
E o Senhor dispersou-os dali por toda a superfície da Terra, e suspenderam a construção da cidade.
Por isso, lhe foi dado o nome de Babel, visto ter sido lá que o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da Terra, e foi também dali que o Senhor os dispersou por toda a Terra.» (Génesis 11, 1-9)

Os primeiros onze capítulos do Génesis desenvolvem um grande tema: a nossa necessidade de Deus que está oculta debaixo da ilusão de que nós próprios podemos ser Deus. Foi essa a questão na narrativa de Adão e Eva, foi essa a questão na narrativa da torre de Babel, é essa a questão que se coloca constantemente nas nossas vidas: fingir e acreditar que podemos ser Deus.
É o delírio mais profundo, próximo da loucura, mas ocorre em cada geração, em cada ser humano. Por algum motivo, o ego irracionalmente sussurra a cada um de nós, tal como a serpente segredou a Adão e Eva, “podes ser deus”. E como somos insensatos, acreditamos.
Colocamo-nos no centro do nosso pequeno universo e esquecemos de onde viemos e para onde vamos. Durante certo tempo torna-se uma ilusão impetuosa, até que a realidade começa a impor-se quando chegamos a uma encruzilhada em que os acontecimentos ficam fora do nosso controlo. O despertar é inevitavelmente doloroso e a negação persiste quase sempre para além de toda a razão.
Mas a evidência é muito óbvia para ser negada: eu não sou Deus! Eu preciso do verdadeiro Deus! Sem ele fico em perigo! É o princípio da sabedoria e o princípio da nossa grande peregrinação para o lugar onde realmente pertencemos – o abraço de Deus. Porquê ficar mais um dia na terra da ficção? Caia na real e comece agora mesmo o seu regresso a casa.

Mons. Dennis Clark
In Catholic Exchange
Trad. / adapt.: rm
© SNPC (trad.) | 18.02.11

2011-02-17

a bondade é subtil

Há muitos modos de dizer Deus: quando as lágrimas se soltaram irreprímiveis (invariavelmente, acontece, sempre que tenha de repetir que a minha mãe morreu de cancro da mama aos cinquenta e quatro anos), fez uma pausa no questionário e baixou os olhos.

espera...

FRONTEIRA

Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...

Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.


Tasso da Silveira 

2011-02-13

na aparente simplicidade de escolha, esconde-se a incerteza que liberta


11*Não digas: «Foi o Senhor que me fez pecar»,
porque Ele não faz aquilo que detesta.
12Não digas: «Foi Ele quem me seduziu»,
porque Ele não necessita dos pecadores.
13O Senhor aborrece toda a abominação,
e os que o temem não se entregam a tais coisas.
14Desde o princípio, Ele criou o homem,
e entregou-o ao seu próprio juízo.
15Se quiseres, observarás os mandamentos;
ser-lhes fiel será questão da tua boa vontade.
16Ele pôs diante de ti o fogo e a água;
estende a mão para o que quiseres.


Ben Sira, 15 (11-16)

porque hoje é domingo - les chansons d'amour

2011-02-07

responde o poema

que a mim acabam-se-me as palavras


De que serve a bondade?

1

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

2

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!

Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela (retirado daqui)

pode-se encher uma gaveta


ou optar pela contra-oração.


a "dança" chega ao jardim


Passei ontem a recolher o livro do Henrique. (Henrique, um beijinho de gratidão para ti.)

Ainda só li três poemas de "A Dança das Feridas". (Longe vai o tempo em que devorava livros: com a idade aprendi a saborear as coisas. Também os livros e os poemas.) Transcrevo um deles, que, desde ontem, ressoa em mim como oração.


ALLEN GINSBERG A PETER ORLOVSKY

Às vezes sinto crescer no peito uma melodia épica,
um grito de helénicas vozes.
Noutras ocasiões o ridículo trava-me a correria
e o grito transforma-se numa gargalhada histriónica.
Palpita na mesma o coração,
mas é como se dentro dele houvesse agora
uma dentadura a ser palitada antes da sobremesa.
Suponho que seja entre o grito e a gargalhada
que a metáfora deste bem-querer
melhor defina a patética conclusão:
em matéria de amores somos todos tão estultos
que ainda não nos tocaram à campainha
e já vamos perguntando "quem é?"

2011-02-06

porque hoje é domingo - les chansons d'amour

também digo: "mais palavras para quê?"

Um grande conjunto de pessoas que raramente se encontram porque a vida as foi dispersando, mas que retomam imediatamente a cumplicidade passada, porque, ao contrário de outras arenas, por aqui não passaram cisões geradoras de ódios que tornariam inviável este tipo de convivências.


Não estive lá e lamento. Resta-me agradecer à Joana o relato e o testemunho. Sobretudo, o testemunho.

a Boa Notícia

13«Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e ser pisado pelos homens.
14Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; 15nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa.
16Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu.» (MT 5,13-16)

e aos outros

  

2011-02-04

com vossa prezada licença...que hoje é sexta à noite de uma semana que não tinha mais fim

A delicadeza na cama quando praticada com fé e convicção pode operar milagres numa mulher. (...) Sem delicadeza não há magia, e sem magia, para a maior parte das mulheres, não há prazer.

O texto já é velhinho, mas suponho que a autora pense igual (tenho boas razões para isso). Margarida, faz o número de assumir o papel de porta-voz do desejo feminino. Por mim, meta a viola no saco: juntar magia e prazer é coisa para dar cabo do mais vivo tesão.

2011-02-01

insólito? talvez não!

RTP - O FIO DA MEADA

Por acaso vi esta reportagem (ligo pouco o aparelho). Homens de mãos calejadas, a quem uma mulher pôs a fazer tricot, arraiolos, crochet, "rabo de gata", tecelagem...no café da aldeia. Alivia o stress e até dá para fazer meditação, como dizia, o jovem electricista industrial, que se define com gostos ecléticos para as diferentes artes.
Uma mulher especial...e um grupo de homens à altura. Um documento antropológico e social.