2011-03-27

tão bela observação ao arrepio da desumanização legalista reinante

Nada melhor que após um frutuoso entendimento uma das partes acolhe serenamente não desejar nada que pertença à outra parte... Tão belo o amor na hora da consumação da ruptura fraterna.

daqui

catolicidade

Costumo dizer e sentir que Roma fica muito longe como objectivo da minha fé. Alguém que admiro (e nunca vi) e vive a muitos quilómetros de distância, oferece-me a sua amizade sincera. E sinto-me tão perto.

porque hoje é domingo

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento! ...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento ...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

2011-03-26

independentemente da opção, não se elimine é a tensão do que significa viver

Una determinada ética cristiana considera absoluto el valor de la vida por encima de cualquier otro
La eutanasia es un tema incómodo para la ética, quizá por una concepción sacral e idealizada de la vida y por una imagen trágica de la muerte y del miedo a la nada. Y no debiera ser así porque, si bien la vida no es un valle de lágrimas, tampoco es un jardín de delicias, y porque la buena muerte -ese es el significado etimológico de la palabra- es la consecuencia lógica de la propuesta ética del bien vivir y de la calidad de vida, defendida por todas las filosofías morales.

daqui
Gn 12, 1*O SENHOR disse a Abrão: "Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar."

Ocorre, ocasionalmente, escutar algo que não era suposto ouvir. Tal como acontecia tantas vezes na infância. Penso: tenho possibilidade de escolha. Será?











dos muitos modos de iludir a fome

O meu jardim é um antijardim. Estou aqui porque não posso estar noutro lugar. Sigo por uma álea lateral. Numa curva do caminho vejo um gato que corre atrás dum pássaro: é um gato malhado. A cerca de cinco metros de distância de mim ambos estacam de repente. O gato espalma-se contra a relva, bate com a cauda nervosamente enquanto o pássaro está parado diante dele a cerca de um metro. Eu estaco aguardando os acontecimentos. Espero o ataque do gato. O pássaro numa extraordinária demonstração de confiança está parado diante do gato que treme mas não se mexe. Então o pássaro dá uns saltinhos para a direita e para a esquerda. Não levanta voo. Fica ali diante dele provocando-o. Um minuto, dois talvez. O gato continua com o ventre colado à relva fria batendo com a cauda agora mais lentamente. De repente surge outro pássaro. Pára também diante do gato. Por fim como o toureiro depois de dominado o touro o primeiro pássaro volta as costas ao gato exibindo o seu desprezo altivo. Nesse momento avanço para dar um álibi ao gato.

Ana Hatherly - "463 tisanas"

2011-03-22

há ainda olhos que não mentem

- Gostas, sim! vê-se nos teus olhos.
- (...)
- A tua cabeça diz uma coisa, mas o coração diz outra.
- (...)
- Eu sei ler nos olhos. E os teus dizem que gostas dele.

Não resisti a voltar-me para trás e conhecer os olhos e a boca que se exprimiam com tanta convicção.
Três pré-adolescentes (afinal ainda há disso... que se lixe a porra do País mais os políticos que nos cabem em sorte...) esperavam  vez para pagar as guloseimas.


2011-03-19

as partidas da vida

o que dizem os tops

O livro “Jesus de Nazaré – Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição”, de Joseph Ratzinger, encontra-se no 2.º lugar do top Bertrand, é o 2.º mais vendido do El Corte Inglés e está no 4.º lugar na tabela da Fnac.

Conclusões: Jesus é uma presença viva e actuante no séc. XXI. Os cristãos e, sobretudo, os católicos são quem mais lê em Portugal. A Igreja católica não tem razão quando diz que, estão erradicados da sociedade os valores cristãos, e esta está cada vez mais secularizada.

enquanto não é possível enterrar os mortos

O modo poético

Quando se passam alguns dias
e o vento balança as placas numeradas
na cabeceira das covas e bate
um calor amarelo sobre inscrições e lápides,
e quando se olha os retratos e se consegue
dizer com límpida voz:
ele gostava deste terno branco
e quando se entra na fila das viúvas,
batendo papo e cabo de sombrinha,
é que a poeira misericordiosa recobriu coisa e dor,
deu o retoque final.
Pode-se compreender de novo
que esteve tudo certo, o tempo todo
e dizer sem soberba ou horror:
é em sexo, morte e Deus
que eu penso invariavelmente todo o dia.
É na presença d'Ele que eu me dispo
e muito mais, d'Ele que não é púdico
e não se ofende com as posições do amor.
Quando tudo se recompõe,
é saltitantes que vamos
cuidar de horta e gaiola.
A mala, a cuia, o chapéu
enchem o nosso coração
como uns amados brinquedos reencontrados.
Muito maior que a morte é a vida.
Um poeta sem orgulho é um homem de dores
muito mais é de alegrias.
A seu cripto modo anuncia,
às vezes, quase inaudível
em delicado código:
"Cuidado, entre as gretas do muro
está nascendo a erva..."
Que a fonte da vida é Deus,
há infinitas maneiras de entender.

Adélio Prado in "Bagagem" 

2011-03-17

a comunidade não pode anular o indivíduo. Nem o contrário...

Ele [Jesus] utiliza uma linguagem que não é fechada nem de sentido único, mas sempre com uma semântica plural, uma diversidade de sentidos. Isso dá à sua palavra uma riqueza enorme e uma responsabilidade de apropriação, no sentido que cada leitor, cada ouvinte, é chamado também a apropriar-se de uma forma original daquilo que lê e ouve.

daqui

liberdade condicional

Não era a primeira vez que a imagem dos raios de sol a incidir no orvalho depositado nas ervas, me causava espanto. Não era um olhar de ver. Era um olhar de "ser com". Foi com violência que desprendi o olhar e segui em frente. A vontade era ficar, ali, a dissolver-me gota-a-gota.

2011-03-15

"O dia da Ira"

O país vai como se sabe. E eu numa terça- feira igual a tantas outras não fosse  a aquisição de mais um livro da Adélia Prado. E ser testemunha, entre coisas menos boas, do balbuciar de alívio de um homem que à saída do consultório, repetia ora para mim (perfeita desconhecida) ora para a companheira:"Estou limpo! Estou limpo! só vou voltar daqui a cinco anos. Finalmente... consegui!"

As coisas tristíssimas,
o rolomag , o teste de Cooper,
a mole carne tremente entre as coxas,
vão desaparecer quando soar a trombeta.
Levantaremos como deuses,
com a beleza das coisas que nunca pecaram,
como árvores, como pedras,
exactos e dignos de amor.
Quando o anjo passar,
o furacão ardente do seu vôo
vai secar as feridas,
as secreções desviadas dos seus vasos
e as lágrimas.
As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:
apenas os pés de seus habitantes
reunidos na praça, à espera dos seus nomes.

Adélia Prado


2011-03-12

tentações

Em Jesus  manifesta-se um Deus que não se deixa manipular, e um homem que não tem de manipular a Deus nem a outros homens  e tão pouco deixar-se manipular por alguma coisa, se quer alcançar a verdadeira plenitude humana.

e o Japão aqui

tão perto

um desafio com sentido

Do Blogue confessionário, chega-me este desafio. Tem demasiadas regras e formalidades (à boa maneira romana) mas o importante é o conteúdo e o sentido da iniciativa

À luz da figura bíblica de  Abraão encontro uma mensagem que ilumina o percurso que é desafiado a renovar-se todos os dias.

Vou transmitir o testemunho ao Vitor. Por variadas razões. É só ler o último post dele e compreende-se... ;)


 

Regras da quadragésima.com:
  1. Ao receber a “quadragésima.com” o blogger deve reflectir na sua relação com Deus e descobrir uma frase bíblica que a defina
    1.1- só se admitem frases retiradas, com citação, da Bíblia;
    1.2- as frases devem ser o mais curtas possíveis;
  2. Depois de o fazer deve re-escrever num post estas regras, as frases já assinaladas pelos anteriores bloggers (com o respectivo link), e escrever a sua;
  3. No post deve incluir quem deseja convidar (pode e deve manifestá-lo no blog da pessoa convidada);
  4. Não é permitido fazer mais que um convite ao mesmo tempo;
  5. O blogger que, recebendo a “quadragésima.com”, não estiver interessado em aceitá-la, deve indicá-lo ao seu emissário para que este lhe dê seguimento através de outro blogger;
  6. Não podem aceitar mais que uma vez a “quadragésima.com”; se o convite aparecer, mesmo vindo de outra “frente”, devem igualmente informar o emissário do segundo convite;
  7. Baseada nalgumas das principais figuras da liturgia da Quaresma, a “quadragésima.com” realiza-se em 3 frentes: frente “Adão” (I Domingo); frente “Abraão” (II Domingo); frente “David” (IV Domingo); estas frentes funcionarão quase como equipas, para tentar chegar ao maior número de bloggers possível (não se trata de encontrar vencedores, mas empenhados)
  8. A “quadragésima.com” será encerrada na Sexta-feira Santa, dia 22 de Abril, pelas 12.00 horas, hora em que o último blogger receptor deve endereçá-la, já com a sua frase, a este endereço, para publicitarmos todas as frases que definem a nossa relação com Deus nesta Quaresma de 2011.
  9. Os “anónimos” interessados em participar nesta “quadragésima.com”, podem escrever as suas frases no sítio do Confessionário dum Padre, aqui, identificando-se.


E a minha citação/mensagem é:

 
Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. (Jo 10, 10)

2011-03-09

 A Poética do Precário

Ela só pode lidar com as coisas
incompletas. Fascinam-lhe a
incompletude e as sobras,
as coisas abandonadas,
as epístolas de palha.



Por isso, no Evangelho, só quer
aprender a carta de Tiago, por
Lutero esconjurada.
Esconjurada por
Lutero.



Ela é a esconjurada.



Outro dia, quis testar
a lei da gravidade,
coitada.



Saltou em plena rua,
no canteiro no meio
da avenida.



Pensou poder chegar
ao terceiro andar ou
ao terceiro empíreo.



Na verdade, ergueu-se
uns trinta centímetros
do chão, a combalida.



Sequer ainda tem impulsão.
Sequer tem impulsão ainda.



Pulou com a cabeça erguida,
contemplando o céu, assustada,
puta da vida e ansiosa, como quem
fosse mergulhar no azul do mar acima.
Acima, no azul do mar.



Chegou à conclusão que o
Infinito a empurrara para
trás, para trás a empurrara.



Ela era mesmo a esconjurada.
Esconjurada era ela por Lutero.
Mal-amada-pelo-Céu-de-aço
-feito-Inferno. Assim era ela.



Talvez houvesse um jeito de
dar um passo maior um salto
um pouco maior, avançar um
pouco além de Tiago, de Jesus
irmão. Tiago o irmão de Jesus.



Talvez pudesse ler o Evangelho
de Marcos, por ser o mais curto.



Seu fôlego é limitado.
E ela gosta das coisas
curtas. Ela é a esconjurada por
Lutero e mal-amada-pelo-céu
-de-aço-feito-inferno. Assim é
ela. Ela é a sobra. Nada
encantadora.



E o Evangelho de
Marcos é o mais
pobre. A pobreza
lhe cai bem. Ela é
talhada para o
vestido pobre.



Para andar nua ou rasgada,
por Lutero, a esconjurada,
rasgada por Lutero. Eis a
luterana, enfim.
A última das
moicanas.



Quando ela chora,
eu a tranquilizo e
lhe empresto um
trapo. Depois
cobro.



Eu mesmo, outro
esconjurado.



O mesmo outro,
o outro mesmo,
também por Lutero
mal-amado.



Assim, ela gosta de mim,
mesmo quando lhe empresto
meu lenço, já
assoado.



E lhe asseguro que
o Evangelho de Marcos
é o melhor. É o mais curto.



Não subestima os defeitos
dos Apóstolos, o olhar encolerizado
de Jesus contra o formalismo farisaico.



Sentada na calçada, por algumas horas,
ela pode se atracar com esse texto.
Se eu por ali passar, lhe empresto
meu lenço. E ambos puxamos um
fumo e uma salva de palmas a
Lutero que nos esconjurou.
Que esconjurou a ambos.
Ficamos com Marcos.



A ela interessam os defeitos
humanos, a ela interessa a
imperfeição que aos homens
dá contorno em cada situação.



A imperfeição que dá contorno
aos homens todos. Por isso fica
com Marcos. Ficamos. Cuspimos
no resto. Tropeçamos os dois no
mesmo tropeço. Ficamos com o
Evangelho mais curto e com a
carta de Tiago, a epístola de
palha. Somos dois palhaços.



E a imperfeição nos dá
contorno. Andamos por
aí, andando andamos.



Andando por aí como
uma vadia, perambulando e
assoando o nariz no meu lenço
já grudando nos dedos, ela nada
sabe de formalidades, não pode
entendê-las nem atendê-las se
por acaso batem à porta ou a
assaltam à sombra. Chuta uma
ali, uma formalidade, cospe noutra,
sem nem bem se dar conta do que
faz, quase sem querer. Ou delibera
chutá-las, nos seus momentos mais
lúcidos luciféricos anti-luteranos.



Nos seus melhores momentos,
quando seus olhos faíscam e
ateiam fogo ao pó e ao cisco.



Pandora trouxe todas as armas
e armadilhas ao mundo, a filha
da puta. Ela as detecta, tropeçando.



Ela é o avesso de Pandora, a portadora
da confusão, a traiçoeira. Ela é o avesso
d'Aquela: pisa na ratoeira e sai, com um
dedo a menos, mancando, ainda mais bela.



Assim é ela, que emerge da confusão
mancando, que da confusão emerge,
aparentemente sem direcção e sem
dedos, logo logo. Mancamos ambos.



Fidalguia pura. Bizarrice e meiga
tolice. Pura beleza feita de recortes
e retalhos. Arte pobre. Poética do
Precário. Sempre que posso lhe
empresto meu lenço, beijo-lhe
o rosto, as mãos e saio.
 
Marcelo Novaes



roubado daqui



2011-03-05

apontamento

Grande consolação: esquece-se a dor de dentes porque se solta a película da chaga e esta volta a verter...
Em que Deus pensamos quando imaginamos ou propomos que amando menos a um ser humano o amamos mais a Ele?

"uma carta aberta ao Papa - a propósito de um livro, aqui"

2011-03-03


Se, para possuir o que me é dado,
Tudo perdi e eu próprio andei perdido,
Se, para ver o que hoje é realizado,
Cheguei a ser negado e combatido.

Se, para estar agora apaixonado,
Foi necessário andar desiludido,
Alegra-me sentir que fui odiado
Na certeza imortal de ter vencido!

Porque, depois de tantas cicatrizes,
Só se encontra sabor apetecido
Àquilo que nos fez ser infelizes!

E assim cheguei à luz de um pensamento
De que afinal um roseiral florido
Vive de um triste e oculto movimento

António Botto
(1897-1959)

2011-03-01

nada pior para a vida do que a ideia da perfeição

 Porém ao Mestre o que serviram foram os olhos da Discípula num prato, num prato de osso, talvez de marfim. Provavelmente no marfim dos cem vezes trinta e dois dentes da Discípula.
A Discípula trazia os olhos em ofertório. Ou ex-voto. Pô-los no altar do Mestre e ficou contemplando-o incessantemente, porque está claro, não tinha pálpebras, o que é muito perturbante. O Mestre a certa altura já via os olhos da Discípula por toda a parte: por cima das paredes, no meio do lenço de assoar, na ponta da escova de dentes, enfim, em toda a parte. Os olhos dos discípulos são muito indiscretos - não há nada mais perturbante do que a candura. Alguém que nos admira e nos coloca num pedestal é o nosso maior inimigo - a gente nunca tem possibilidade de se apear do plinto e comer amendoins. Ah, os olhos dos discípulos devotos, dedicados, amantes até ao sacrifício, perseguindo-nos até ao complexo de inferioridade, ao tic, à mania da perseguição, à claustrofobia, ao horror da vida em geral! Aquelas pessoas que nos consideram os mais belos, os mais perfeitos, os mais direitos, ou os mais redondos ou os mais bicudos ou os mais quadrados ou o não sei mais o quê e não nos deixam um minuto no quarto minguante!  A gente não consegue fazer-lhes entender que as fases são necessárias e que lá porque de vez em quando a gente diminui um bocado não quer dizer que a lua deixou de ser redonda, é uma questão de a gente pôr um bocado da alma à sombra para arrefecer, não acham?

Ana Hatherly, "O Mestre"

quando uma palavra nos lembra a imensidão da nossa vida...

Li a palavra "plinto". Soou-me completamente estranha.  O dicionário da Priberam diz que, entre outras coisas, é um aparelho de ginástica. Há uma eternidade saltava por cima de um...