2011-03-19

enquanto não é possível enterrar os mortos

O modo poético

Quando se passam alguns dias
e o vento balança as placas numeradas
na cabeceira das covas e bate
um calor amarelo sobre inscrições e lápides,
e quando se olha os retratos e se consegue
dizer com límpida voz:
ele gostava deste terno branco
e quando se entra na fila das viúvas,
batendo papo e cabo de sombrinha,
é que a poeira misericordiosa recobriu coisa e dor,
deu o retoque final.
Pode-se compreender de novo
que esteve tudo certo, o tempo todo
e dizer sem soberba ou horror:
é em sexo, morte e Deus
que eu penso invariavelmente todo o dia.
É na presença d'Ele que eu me dispo
e muito mais, d'Ele que não é púdico
e não se ofende com as posições do amor.
Quando tudo se recompõe,
é saltitantes que vamos
cuidar de horta e gaiola.
A mala, a cuia, o chapéu
enchem o nosso coração
como uns amados brinquedos reencontrados.
Muito maior que a morte é a vida.
Um poeta sem orgulho é um homem de dores
muito mais é de alegrias.
A seu cripto modo anuncia,
às vezes, quase inaudível
em delicado código:
"Cuidado, entre as gretas do muro
está nascendo a erva..."
Que a fonte da vida é Deus,
há infinitas maneiras de entender.

Adélio Prado in "Bagagem" 

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