2011-03-01

nada pior para a vida do que a ideia da perfeição

 Porém ao Mestre o que serviram foram os olhos da Discípula num prato, num prato de osso, talvez de marfim. Provavelmente no marfim dos cem vezes trinta e dois dentes da Discípula.
A Discípula trazia os olhos em ofertório. Ou ex-voto. Pô-los no altar do Mestre e ficou contemplando-o incessantemente, porque está claro, não tinha pálpebras, o que é muito perturbante. O Mestre a certa altura já via os olhos da Discípula por toda a parte: por cima das paredes, no meio do lenço de assoar, na ponta da escova de dentes, enfim, em toda a parte. Os olhos dos discípulos são muito indiscretos - não há nada mais perturbante do que a candura. Alguém que nos admira e nos coloca num pedestal é o nosso maior inimigo - a gente nunca tem possibilidade de se apear do plinto e comer amendoins. Ah, os olhos dos discípulos devotos, dedicados, amantes até ao sacrifício, perseguindo-nos até ao complexo de inferioridade, ao tic, à mania da perseguição, à claustrofobia, ao horror da vida em geral! Aquelas pessoas que nos consideram os mais belos, os mais perfeitos, os mais direitos, ou os mais redondos ou os mais bicudos ou os mais quadrados ou o não sei mais o quê e não nos deixam um minuto no quarto minguante!  A gente não consegue fazer-lhes entender que as fases são necessárias e que lá porque de vez em quando a gente diminui um bocado não quer dizer que a lua deixou de ser redonda, é uma questão de a gente pôr um bocado da alma à sombra para arrefecer, não acham?

Ana Hatherly, "O Mestre"

Sem comentários:

Enviar um comentário