2011-03-15

"O dia da Ira"

O país vai como se sabe. E eu numa terça- feira igual a tantas outras não fosse  a aquisição de mais um livro da Adélia Prado. E ser testemunha, entre coisas menos boas, do balbuciar de alívio de um homem que à saída do consultório, repetia ora para mim (perfeita desconhecida) ora para a companheira:"Estou limpo! Estou limpo! só vou voltar daqui a cinco anos. Finalmente... consegui!"

As coisas tristíssimas,
o rolomag , o teste de Cooper,
a mole carne tremente entre as coxas,
vão desaparecer quando soar a trombeta.
Levantaremos como deuses,
com a beleza das coisas que nunca pecaram,
como árvores, como pedras,
exactos e dignos de amor.
Quando o anjo passar,
o furacão ardente do seu vôo
vai secar as feridas,
as secreções desviadas dos seus vasos
e as lágrimas.
As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:
apenas os pés de seus habitantes
reunidos na praça, à espera dos seus nomes.

Adélia Prado


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