A Poética do Precário
Ela só pode lidar com as coisas
incompletas. Fascinam-lhe a
incompletude e as sobras,
as coisas abandonadas,
as epístolas de palha.
Por isso, no Evangelho, só quer
aprender a carta de Tiago, por
Lutero esconjurada.
Esconjurada por
Lutero.
Ela é a esconjurada.
Outro dia, quis testar
a lei da gravidade,
coitada.
Saltou em plena rua,
no canteiro no meio
da avenida.
Pensou poder chegar
ao terceiro andar ou
ao terceiro empíreo.
Na verdade, ergueu-se
uns trinta centímetros
do chão, a combalida.
Sequer ainda tem impulsão.
Sequer tem impulsão ainda.
Pulou com a cabeça erguida,
contemplando o céu, assustada,
puta da vida e ansiosa, como quem
fosse mergulhar no azul do mar acima.
Acima, no azul do mar.
Chegou à conclusão que o
Infinito a empurrara para
trás, para trás a empurrara.
Ela era mesmo a esconjurada.
Esconjurada era ela por Lutero.
Mal-amada-pelo-Céu-de-aço
-feito-Inferno. Assim era ela.
Talvez houvesse um jeito de
dar um passo maior um salto
um pouco maior, avançar um
pouco além de Tiago, de Jesus
irmão. Tiago o irmão de Jesus.
Talvez pudesse ler o Evangelho
de Marcos, por ser o mais curto.
Seu fôlego é limitado.
E ela gosta das coisas
curtas. Ela é a esconjurada por
Lutero e mal-amada-pelo-céu
-de-aço-feito-inferno. Assim é
ela. Ela é a sobra. Nada
encantadora.
E o Evangelho de
Marcos é o mais
pobre. A pobreza
lhe cai bem. Ela é
talhada para o
vestido pobre.
Para andar nua ou rasgada,
por Lutero, a esconjurada,
rasgada por Lutero. Eis a
luterana, enfim.
A última das
moicanas.
Quando ela chora,
eu a tranquilizo e
lhe empresto um
trapo. Depois
cobro.
Eu mesmo, outro
esconjurado.
O mesmo outro,
o outro mesmo,
também por Lutero
mal-amado.
Assim, ela gosta de mim,
mesmo quando lhe empresto
meu lenço, já
assoado.
E lhe asseguro que
o Evangelho de Marcos
é o melhor. É o mais curto.
Não subestima os defeitos
dos Apóstolos, o olhar encolerizado
de Jesus contra o formalismo farisaico.
Sentada na calçada, por algumas horas,
ela pode se atracar com esse texto.
Se eu por ali passar, lhe empresto
meu lenço. E ambos puxamos um
fumo e uma salva de palmas a
Lutero que nos esconjurou.
Que esconjurou a ambos.
Ficamos com Marcos.
A ela interessam os defeitos
humanos, a ela interessa a
imperfeição que aos homens
dá contorno em cada situação.
A imperfeição que dá contorno
aos homens todos. Por isso fica
com Marcos. Ficamos. Cuspimos
no resto. Tropeçamos os dois no
mesmo tropeço. Ficamos com o
Evangelho mais curto e com a
carta de Tiago, a epístola de
palha. Somos dois palhaços.
E a imperfeição nos dá
contorno. Andamos por
aí, andando andamos.
Andando por aí como
uma vadia, perambulando e
assoando o nariz no meu lenço
já grudando nos dedos, ela nada
sabe de formalidades, não pode
entendê-las nem atendê-las se
por acaso batem à porta ou a
assaltam à sombra. Chuta uma
ali, uma formalidade, cospe noutra,
sem nem bem se dar conta do que
faz, quase sem querer. Ou delibera
chutá-las, nos seus momentos mais
lúcidos luciféricos anti-luteranos.
Nos seus melhores momentos,
quando seus olhos faíscam e
ateiam fogo ao pó e ao cisco.
Pandora trouxe todas as armas
e armadilhas ao mundo, a filha
da puta. Ela as detecta, tropeçando.
Ela é o avesso de Pandora, a portadora
da confusão, a traiçoeira. Ela é o avesso
d'Aquela: pisa na ratoeira e sai, com um
dedo a menos, mancando, ainda mais bela.
Assim é ela, que emerge da confusão
mancando, que da confusão emerge,
aparentemente sem direcção e sem
dedos, logo logo. Mancamos ambos.
Fidalguia pura. Bizarrice e meiga
tolice. Pura beleza feita de recortes
e retalhos. Arte pobre. Poética do
Precário. Sempre que posso lhe
empresto meu lenço, beijo-lhe
o rosto, as mãos e saio.
incompletas. Fascinam-lhe a
incompletude e as sobras,
as coisas abandonadas,
as epístolas de palha.
Por isso, no Evangelho, só quer
aprender a carta de Tiago, por
Lutero esconjurada.
Esconjurada por
Lutero.
Ela é a esconjurada.
Outro dia, quis testar
a lei da gravidade,
coitada.
Saltou em plena rua,
no canteiro no meio
da avenida.
Pensou poder chegar
ao terceiro andar ou
ao terceiro empíreo.
Na verdade, ergueu-se
uns trinta centímetros
do chão, a combalida.
Sequer ainda tem impulsão.
Sequer tem impulsão ainda.
Pulou com a cabeça erguida,
contemplando o céu, assustada,
puta da vida e ansiosa, como quem
fosse mergulhar no azul do mar acima.
Acima, no azul do mar.
Chegou à conclusão que o
Infinito a empurrara para
trás, para trás a empurrara.
Ela era mesmo a esconjurada.
Esconjurada era ela por Lutero.
Mal-amada-pelo-Céu-de-aço
-feito-Inferno. Assim era ela.
Talvez houvesse um jeito de
dar um passo maior um salto
um pouco maior, avançar um
pouco além de Tiago, de Jesus
irmão. Tiago o irmão de Jesus.
Talvez pudesse ler o Evangelho
de Marcos, por ser o mais curto.
Seu fôlego é limitado.
E ela gosta das coisas
curtas. Ela é a esconjurada por
Lutero e mal-amada-pelo-céu
-de-aço-feito-inferno. Assim é
ela. Ela é a sobra. Nada
encantadora.
E o Evangelho de
Marcos é o mais
pobre. A pobreza
lhe cai bem. Ela é
talhada para o
vestido pobre.
Para andar nua ou rasgada,
por Lutero, a esconjurada,
rasgada por Lutero. Eis a
luterana, enfim.
A última das
moicanas.
Quando ela chora,
eu a tranquilizo e
lhe empresto um
trapo. Depois
cobro.
Eu mesmo, outro
esconjurado.
O mesmo outro,
o outro mesmo,
também por Lutero
mal-amado.
Assim, ela gosta de mim,
mesmo quando lhe empresto
meu lenço, já
assoado.
E lhe asseguro que
o Evangelho de Marcos
é o melhor. É o mais curto.
Não subestima os defeitos
dos Apóstolos, o olhar encolerizado
de Jesus contra o formalismo farisaico.
Sentada na calçada, por algumas horas,
ela pode se atracar com esse texto.
Se eu por ali passar, lhe empresto
meu lenço. E ambos puxamos um
fumo e uma salva de palmas a
Lutero que nos esconjurou.
Que esconjurou a ambos.
Ficamos com Marcos.
A ela interessam os defeitos
humanos, a ela interessa a
imperfeição que aos homens
dá contorno em cada situação.
A imperfeição que dá contorno
aos homens todos. Por isso fica
com Marcos. Ficamos. Cuspimos
no resto. Tropeçamos os dois no
mesmo tropeço. Ficamos com o
Evangelho mais curto e com a
carta de Tiago, a epístola de
palha. Somos dois palhaços.
E a imperfeição nos dá
contorno. Andamos por
aí, andando andamos.
Andando por aí como
uma vadia, perambulando e
assoando o nariz no meu lenço
já grudando nos dedos, ela nada
sabe de formalidades, não pode
entendê-las nem atendê-las se
por acaso batem à porta ou a
assaltam à sombra. Chuta uma
ali, uma formalidade, cospe noutra,
sem nem bem se dar conta do que
faz, quase sem querer. Ou delibera
chutá-las, nos seus momentos mais
lúcidos luciféricos anti-luteranos.
Nos seus melhores momentos,
quando seus olhos faíscam e
ateiam fogo ao pó e ao cisco.
Pandora trouxe todas as armas
e armadilhas ao mundo, a filha
da puta. Ela as detecta, tropeçando.
Ela é o avesso de Pandora, a portadora
da confusão, a traiçoeira. Ela é o avesso
d'Aquela: pisa na ratoeira e sai, com um
dedo a menos, mancando, ainda mais bela.
Assim é ela, que emerge da confusão
mancando, que da confusão emerge,
aparentemente sem direcção e sem
dedos, logo logo. Mancamos ambos.
Fidalguia pura. Bizarrice e meiga
tolice. Pura beleza feita de recortes
e retalhos. Arte pobre. Poética do
Precário. Sempre que posso lhe
empresto meu lenço, beijo-lhe
o rosto, as mãos e saio.
Marcelo Novaes
roubado daqui
já li.
ResponderEliminarE gostei de ter lido.
Muito interessante.
:)
ResponderEliminaraté ao final da semana também cumprirei a minha parte...que Abraão me guie! ;)