2011-04-21

 No facebook partilha-se este vídeo.  Para além do grotesco, falta de gosto, javardice de toda a cena e discurso, ressalta a expressão "mangas arregaçadas".

Para desenjoar do vídeo...e de outras cenas que fazem o viver diário do  país, fica um extracto delicioso do livro de Albert Cossery. O tema central do livro, é o combate que se faz a um governador despótico e violento, através do escárnio disfarçado de bajulação.



Mestre Abdu, de maquineta em punho, aproximou-se do asno com o olhar nevrótico do artista que ia finalmente atirar-se a obra de monta. Porém, antes de poder dar início ao cometimento, Karim, detendo-o com um gesto, erguera-se do mocho.
- Então que é isso, homem? Já cá estava antes dele. E tenho pressa.
- Vais desculpar-me, Efêndi, disse o barbeiro. Mas é um velho freguês não posso fazê-lo esperar.
- Ele que espere. Repito-te que estou com pressa.
- Este burro tem mais pressa do que tu, meu rapaz, interveio o carroceiro.
- Então porquê? inquiriu Karim. Vai a alguma boda?
-A gente não tem tempo para andar em bodas, replicou o carroceiro, grandiloquente. A gente trabalha.
O burro recomeçou a zurrar, como se sentisse orgulhoso das prerrogativas de que era objecto.
O barbeiro passou-lhe a máquina de barbear pelo lombo, cantarolando-lhe gentilezas em voz baixa. Karim, embora fingindo indignação, começava a ficar irritado com todas aquelas atenções de que o burro era alvo. Que raio seria aquele animal? Um burro governamental, porventura um ministro, deslocando-se ali incógnito para observar in loco o estado de espírito dos seus administrados? Não seria nada de espantar tendo em conta o tratamento excepcional que o barbeiro lhe dava. A situação parecia a Karim uma coisa de doidos; enfiara-se num labirinto e tinha de arranjar maneira de se pirar dali sem muito estrago. Não podia, contudo ir-se embora assim, sem insistir deixando atrás de si tão delicioso torrão de dialéctica a pedir que o fecundassem. Semelhante ocasião talvez não voltasse a surgir durante todo o dia.
Ergueu a ponta da manga do casaco, fingiu consultar o relógio de pulso e voltou à carga, dizendo ao barbeiro:
- Vê lá tu, ó homem de Deus, no que te metes! Eu com encontro marcado com o governador e tu a fazeres passar um burro à minha frente!
- Qual governador? perguntou logo o carroceiro, francamente espantado por ouvir falar de um tal personagem.
- Qual governador?! Homessa! explodiu  Karim. O governador desta cidade, nem mais nem menos!
- Com que então esta cidade é governada! fez o carroceiro. Não me digas isso a mim, meu rapaz, que eu não vou em cantigas.
- Ora aqui está uma prova da nossa degradação! exclamou Karim. É gente como tu que faz de nós um povo de selvagens!
A maluqueira chegava ao cúmulo, mas Karim não conseguia deter o mecanismo que a desencadeara. Um familiar demónio levava-o a enfiar-se ainda mais no visco, para ver até onde iria a tresloucada conversa. Além disso, ainda hesitava em sair do fresco para cair na tórrida atmosfera da avenida e das chatices dum interrogatório de polícia.
- Vou-me embora, acabou ele por dizer, sem grande convicção. Mas não se mexia, à espera não sabia bem de quê, como se daquela situação devesse brotar um clarão fulgurante, capaz de lhe revelar a face secreta da humanidade.
- Espera aí, Efêndi, acudiu o barbeiro, que ia extraindo do burro, com a máquina, grandes tufos de pêlos. Estou quase a acabar, a seguir és tu.
- Jamais aceitarei ser servido depois de um burro, respondeu Karim altivamente. Bem me parece que não sabes com quem estás a falar!
O barbeiro reflectiu um instante, com a tosquiadora erguida e as feições atormentadas por uma certa apreensão. Intrigado, perguntou:
- Quem és tu, Efêndi?
- Não vou perder tempo a explicar-to, atirou-lhe Karim com desenvoltura. Trata lá do burro. É a clienetela que mereces!
- Estarás tu por acaso a insultar-me o Jerico? vociferou logo o carroceiro, de carão feroz. Quem julgas tu que és para vires para aqui insultar um trabalhador?
Ali estava esparramado o palavrão: um trabalhador! Na mente daquela deplorável ralé, se o burro tinha direito ao respeito, não era por ser um animal, era por via da sua nobre condição de trabalhador. Durante uns segundos Karim ficou maravilhado com a enorme suculência da réplica, que por fim o compensava do tempo perdido. E, voltando as costas aos dois homens, atirou-se deliberadamente para a fornalha. Quanto à saúde do mundo, bem podia ir descansado.

Albert Cossery "A Violência e o Escárnio"




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