2011-05-28

não contar só com a ganância do padeiro

Um dos clássicos da economia moderna, Adam Smith, resumia desta maneira pragmática o funcionamento do sistema económico: devemos o nosso pão fresco diário não ao altruísmo do padeiro, mas  à sua ganância.  É graças à ambição do ganho, que os bens de que precisamos chegam às prateleiras dos supermercados. Esse dado é, de resto, comummente aceite e consensualmente aceitável.
O facto que hoje se coloca, sempre com maior urgência, é, porém, de outra natureza. Claro que não perde validade a justa expectativa de que a atividade laboral produza o seu lucro, mas o que se coloca às nossas sociedades é a questão da sua capacidade para resolver, ainda que de modo não completamente perfeito, os desequilíbrios que elas próprias geram e que ameaçam a sua preservação. Ora, este processo de reajuste e maturação do sistema não parece que possa ficar unicamente dependente daquilo que Adam Smith chamou “a ganância do padeiro”.
A difícil situação atual mostra-nos, sem margem para hesitações, como se tornou urgente e vital introduzir alternativas de fundo num campo que é económico e financeiro, mas também é humano e cultural. Nesse sentido, vale a pena olhar para os três pontos propostos recentemente por Tim Jackson, professor da Universidade de Surrey, que nos desafia a redefinirmos o que entendemos por prosperidade.
O primeiro ponto prende-se com a necessidade de nos consciencializarmos todos de que o crescimento económico tem limites. O segundo passa por aceitarmos distribuir os lucros não apenas segundo critérios financeiros, mas também em função de um benefício social e ambiental.O terceiro ponto diz-nos que é preciso mudar a lógica cultural dominante, que identifica prosperidade com enriquecimento material.
Hoje são os próprios economistas a recordar-nos que temos de enriquecer as nossas existências por outros meios e em outras dimensões. Por exemplo, a espiritual.
José Tolentino Mendonça

2011-05-24

cá em casa não é estrangeiro

Hoje vou descobrir-lhe o "Avesso e o direito".

Quando falham as oportunidades de vencer a estupidez

O marido (presumo) solícito, veio trazer a garrafa de água que ficou esquecida no carro. Olhou em redor, e ao ver as dezenas de pessoas que aguardavam no átrio, atirou para o ar:"Isto é só política! É só para a estatística" E saiu, sem resposta. Deduzi que ia esperar sentado no carro.
Elas continuaram a falar dos  chás e tisanas, dos netos, da Nossa Sra de Fátima,  dos beatos recentes, e não tardou que a sexagenária, cujo marido (presumido) tinha feito a avaliação que cito acima, dizia a intervalos, olhando em redor:"Isto é só política! É para a estatística!".
À terceira repetição, inquiri:A senhora também vai receber um certificado? - Vou, respondeu. Alguém fez o trabalho por si, ou frequentou as sessões de formação? Claro que não! Afirmou, convicta.
Então para que está aí a repetir que isto é só política...?
Na sessão, vi que recebeu  certificação do 9º Ano. Um certificado desperdiçado.

2011-05-21

exemplar

O CIDADÃO DESCONHECIDO

A
JS/07/M/378

O ESTADO ERGUEU ESTE MONUMENTO DE MÁRMORE
Pelo Gabinete de Estatísticas foi considerado
Alguém que oficialmente nunca foi alvo de intriga,
E os relatos da sua conduta comprovam por unanimidade
Que, no sentido moderno de uma palavra antiga,
Era um santo, servindo em tudo a Grande Comunidade.
À excepção da guerra, até ao dia em que se reformou
Trabalhou numa fábrica e nunca ninguém o expulsou,
Mas satisfazia os patrões, a Fudge Motors Cia.
Não era, porém, fura-greves nem de ideias remotas,
Pois o seu Sindicato declara que pagava as quotas,
(Os nossos estudos sobre o sindicato garantem a sua idoneidade)
E em Psicologia Social, uma equipa da especialidade
Diz-nos que se dava bem com os colegas e socialmente bebia.
Atesta a Imprensa que diariamente comprava o jornal
E que reagia aos anúncios de um modo normal.
As apólices em seu nome dão-no como precavido
E o seu Boletim diz que, uma vez hospitalizado, saiu restabelecido.
Os Comités da Produção e da Qualidade de Vida são do parecer 
científico
Que aderia perfeitamente às vantagens da Compra a Prestações
E tinha tudo o que necessita um homem nas modernas condições,
Um gira-discos, um rádio, um carro e um frigorífico.
Referem os nossos investigadores da Opinião Pública
Que tinha as opiniões certas para o estado que havia:
Havendo paz, defendia-a; havendo guerra, lá ia.
Casou-se e acrescentou cinco crianças à população,
O que, segundo o nosso eugenista, era o número certo para a sua
geração,
E dizem os nossos professores que nunca interferiu na sua educação.
Seria livre? Feliz? É absurda a questão.
Por certo que saberíamos de alguma contradição.

W. H. AUDEN "Outro Tempo" 
Tradução de Margarida Vale de Gato

Complicadíssima teia

2011-05-20

José Augusto Mourão

A procura da verdade, mesmo em ciência, leva ao anátema e à exclusão: é a máquina da verdade que produz a máquina da inquisição. 


e ela (a violência) anda mesmo por aí

Nestes últimos dias, tenho pensado muito neste texto da Ana Cássia. É bom lê-lo sem complexos,  despido(a) de preconceitos e com objectividade. De que modo somos mulheres: na cama e fora dela. Até que ponto nos submetemos e que escolhas fazemos. E temos alternativas?

A violência e abuso de poder pode ser exercida de modos muito diversos. Em muitas empresas, geralmente dirigidas por homens, uma mulher decidir ter um filho e beneficiar dos direitos inerentes, pode ser um passaporte para a violência psicológica e exclusão. Para muitas mentes masculinas, a emancipação feminina é um tema tabu. Só podem existir na condição de submissão. Se quiserem que fiquem com os sonhos...essa pieguice. Sonhem. Enquanto as fodemos. E jogamos com o termo "sexo consentido"...independentemente da força exercida.

2011-05-18

para o campeão em desperdício de oportunidades

Nunca hei-de entender uma questão essencial no ensino português, e essa questão nem tem que ver propriamente com o ensino. Está mais relacionada com a forma como as pessoas encaram a escola. Fui professor durante 10 anos. Vendi habilitações no ensino secundário e em cursos de formação profissional (níveis III e IV). Repugna-me um discurso tão snobe quanto ignorante relativamente ao ensino técnico-profissional e ao programa Novas Oportunidades. Normalmente ouço dizer que se trata de escapes, formas fáceis de adquirir diplomas, habilitações literárias, meio caminho andado para a incompetência. Ora, pergunto-me sobre o que seja o ensino regular. Devo dizer, e digo-o com a maior honestidade que me é possível, que o melhor aluno que apanhei em 10 anos de docência (era uma aluna) foi, precisamente, num curso técnico-profissional. Ninguém é bom ou mau em função das marcas que veste, mas sim em consequência do esforço e do empenho que demonstra. O problema é precisamente este, começa aqui: em Portugal tudo se avalia pelo estatuto, nada pelo mérito. E o mérito é indiferente aos cursos, ao tipo de ensino, às escolas, está exclusivamente relacionado com a dedicação individual. Quem não entende isto, bem pode continuar convencido de que o investimento em formas alternativas de ensino é desperdício. Estará redondamente equivocado. A prová-lo estão os milhares de incompetentes, inúteis, imbecis, grunhos e basbaques que todos os anos saem das universidades com canudos debaixo do braço. 



Vou, no próximo dia vinte e quatro, receber o meu diploma de certificação do 12º Ano. 
E vou de consciência tranquila porque não fico a dever nada a ninguém por ele. Muito menos um voto.
Por razões que não são para aqui chamadas, aos dezasseis anos interrompi a formação escolar regular. Podia tê-la retomado alguns anos mais tarde, mas o meu projecto de vida e prioridades eram outras.

Há um ano inscrevi-me num Centro de Novas Oportunidades. Integrei uma turma onde era a pessoa mais velha. Em dois meses completei o trabalho a apresentar. O que me consumiu todos os fins-de-semana e muitas horas diárias depois do trabalho.

O que é que aprendi neste processo? Que todo o meu percurso de vida podia e devia ser avaliado. Que todas as leituras, reflexões, diálogos, abertura ao "outro", experiências pessoais e profissionais me deram (e dão) competências. Foram avaliadas por vários profissionais e, sem complexos de qualquer espécie, vou receber a respectiva certificação.




2011-05-14

bom fim-de-semana

dito isto, não vale  a pena determinar se se deve classificar Zenóbia entre as cidades felizes ou entre as infelizes. Não é nestas duas espécies que faz sentido dividir a cidade, mas noutras duas: as que continuam através dos anos e das mutações a dar forma aos desejos e aquelas em que os desejos ou conseguem aniquilar a cidade ou são eles aniquilados.

Italo Calvino "As Cidades Invisíveis" 
(As cidades subtis. 2)

2011-05-10

uma herança para explorar

O vazio verde

Um dia, quando se fizer a história do catolicismo português que nos é agora contemporâneo, há de ver-se, em toda a clareza, que um dos seus atores magistrais foi, afinal, um frade e poeta, quase clandestino, que morreu esta manhã em Lisboa. Chamava-se José Augusto Mourão, e pertencia à Ordem dos Dominicanos. Nasceu em Vila Real em 1947, e construiu uma inscrição absolutamente invulgar na universidade e na cultura portuguesas. Foi professor na Universidade Nova de Lisboa, especializando-se no campo da semiótica, e prestando uma contínua atenção a expressões de vanguarda que transformam os próprios dispositivos da criação (por exemplo, as mutações da literatura na época de cibernética ou as diversas formas de hipertextualidade ou de hiperficção que a nossa alta modernidade tem gerado). Aí deixa uma obra que, sob muitos aspetos, se pode considerar seminal e profética. 

Mas ele transportou também o mesmo espírito de profecia para aquela que é a opera magna da sua existência: a impressionante ponte (apetece escrever a “impossível ponte”) que ele, quase marginalmente, desenha entre o campo da fé e o da razão, entre a liturgia e a poética, entre a regra e o desejo. Por alguma razão, ele nunca foi um criador confortável, nem para o campo católico, nem para os parâmetros da cultura dominante. Os ouvidos crentes só a custo se abriam, porque ele operava com uma gramática inusual e exigente, buscava metáforas vivas, que é como quem diz, novas metáforas. Do mesmo modo, ele nunca obteve a visibilidade que certamente merece da parte da cultura. A sua poesia é, por exemplo, litúrgica, coisa que, em Portugal, é imediatamente catalogada de género menor. E alguns dos seus textos mais fundamentais são homilias: ora, as últimas homilias que a cultura portuguesa ouviu foram as do Padre António Vieira! Talvez um dia se reconheça a originalidade e a marca deste homem e se possa então valorizar o que ele hoje nos deixa em herança. Para já sentimos o grande vazio que a sua morte representa, que, como aponta o título do seu primeiro livro de poemas, somos desafiados a viver como um “Vazio Verde”.
José Augusto Mourão morreu no dia 5 de maio.

José Tolentino Mendonça
In Página 1 


daqui

2011-05-08

convite

28Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. 29*Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. (Lc 24, 26-29)

2011-05-07

abram-se os nossos olhos



O que Deus tem para nos dar já o temos, não há mais que esperar.

O tempo de ser

Para nós, como para outros fugitivos,
Como as inúmeras flores que não sabem contar
E todos os bichos que não precisam de lembrar,
É no presente que estamos vivos.

Tantos que tentam dizer Agora Não,
Tantos que perderam a memória
De dizer Eu Sou, e em havendo ocasião
Se dariam por perdidos na história.

Inclinando-se, por exemplo, com tanta graça a preceito
Ante a bandeira certa num certo lugar
Balbuciando, como velhos pelas escadas a tropeçar,
Sobre o Meu e o Teu ou o Nosso ou o que Lhes diz respeito.


Como se fora o tempo o que costumavam querer
Quando ainda tinha o dom da possessão,
Como se não tivessem razão,
Em já não desejarem pertencer.


Não espanta então que tantos morram de amargura,
Tantos tão sós na hora de morrer;
Ninguém nunca acreditou ou gostou da impostura,
Um outro tempo tem outras vidas que viver.


W. H. Auden, "Outro Tempo" - XXX
Tradução Margarida Vale de Gato

meu corpo

2011-05-05

uma presença que ilumina

vigiar

desafiai o deserto
a fuga mundi
a desistência
 
arrancai ao caos
o canto livre
 
deixai a prisão
que pisa aos pés a vida
em nome da pós-vida
 
entrai no abismo do silêncio
que ilumina
 
esclarecei a distância
entre o poder e as verdades
 
pensai o acontecimento
a excepção, a mudança
 
entrai no Aberto
que a Palavra tece
 
querei o não-querer
que faz o pobre
 
largai a técnica
da autoflagelação
e do cálculo
 
o claro está no escuro
e na limitação passiva
do que nele fulgura
e leva ao Dia
 
meditai na vida
não na morte
 
a Páscoa está na dor
que ressuscita

Frei José Augusto Mourão op

2011-05-04

 Ferrnando Lemos, Lygia Fagundes Telles, s/d, s/l
Fernando Lemos © Colecção Fundação Cupertino de Miranda




 

A CHESTER KALLMAN


Hão-de os olhos chorar solitários
Até à derrota do Meu Querer.

Mas o Meu Querer pode apartar-se,
Que não tem o tacto necessário
Para se defender do Meu Saber,
Mas o Meu Querer pode apartar-se.


Então crescerão juntos os Eus,
Eu sou porque Eu Amo,
Eu não Possuo Eu Sou Amado,
Então crescerão juntos os Eus.


Até à derrota do Meu Querer
Hão-de os Eus chorar solitários.

W.H. Auden "Outro Tempo"
tradução Margarida Vale de Gato

complicamos o que deveria ser tão simples: nascemos para a alegria e o amor. Foi esse o sonho que sonharam para nós.

- Na tua opinião o que é que importa num homem?
- A plenitude maravilhosa que eu sinto ao estar com ele, e isso nas coisas mais fúteis da existência. O sopro de alegria que ele me transmite. É assim  que uma pessoa pode reconhecer a riqueza do amor que um homem encerra.
Ah, a odiosa, a detestável mania daquele tipo! Lá estava ele outra vez a falar-lhe de alegria! Acreditaria ele naquilo? Não haveria para ele outra coisa no mundo? Como encontrar nesta terra mil vezes posta a saque e incendiada pelos homens um recanto qualquer de amor e de paz? Só um canalha podia contentar-se com tais futilidades. Ou um doido afortunado. E todavia Heikal não era  um pulha nem um doido. Queria divertir o povo e ensiná-lo a rir dos tiranos. Era fácil dizê-lo. Mas o povo precisava aprender outras coisas. Taher pensou em todas as coisas que tinha ainda de ensinar ao povo, e a imensidão da tarefa pô-lo de súbito doente de desespero.

Albert Cossery - "A violência e o Escárnio"

2011-05-01

1º de Maio e o sentido de ser cristão

O cristão, membro do Corpo de Cristo, não pode considerar-se, portanto, um ser isolado que se baste a si mesmo, pois participa do bem ou do mal-estar do conjunto:"se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele ou se um membro recebe glória, todos os membros se regozijam com ele" (1Cor 12,26).

A unidade dos homens em Cristo supõe o amor de uns para com os outros como condição indispensável para a vida e saúde do conjunto. E assim se compreende que Jesus, vindo revelar aos homens a misericórdia do Senhor que se dignou fazê-los participantes da mesma natureza divina, não podia deixar de impor-lhes o mandamento novo do amor,. "Amai-vos uns aos outros, disse Jesus na Última Ceia, e que assim como Eu vos amei, vos ameis também uns aos outros".

O amor dos cristãos não é, porém, sentimento, nem pode ser vago desejo de bem-estar alheio. É vida, é doação, é sacrifício.

Por definição, o cristão tem, portanto, deveres para com todos os seus irmãos, para com todos os homens, deveres que dimanam directamente do conceito da vida de Cristo em nós.

Abel Varzim "Entre o ideal e o possível"

hoje e sempre



é de ti, mãe, que aprendo que não há ferida, por mais profunda que seja, que impeça a vida de se abrir ao amor.
Foste mulher e mãe num contexto bem mais duro e difícil do que eu. Mas  sei que não viverei o suficiente para aprender a ver a beleza do mundo e das pessoas como o tu sabias.
Disseram-me no outro dia que eras uma mulher triste. Eu recordo-te como uma mulher transparente. E a mais corajosa que conheci.