2011-05-07

O tempo de ser

Para nós, como para outros fugitivos,
Como as inúmeras flores que não sabem contar
E todos os bichos que não precisam de lembrar,
É no presente que estamos vivos.

Tantos que tentam dizer Agora Não,
Tantos que perderam a memória
De dizer Eu Sou, e em havendo ocasião
Se dariam por perdidos na história.

Inclinando-se, por exemplo, com tanta graça a preceito
Ante a bandeira certa num certo lugar
Balbuciando, como velhos pelas escadas a tropeçar,
Sobre o Meu e o Teu ou o Nosso ou o que Lhes diz respeito.


Como se fora o tempo o que costumavam querer
Quando ainda tinha o dom da possessão,
Como se não tivessem razão,
Em já não desejarem pertencer.


Não espanta então que tantos morram de amargura,
Tantos tão sós na hora de morrer;
Ninguém nunca acreditou ou gostou da impostura,
Um outro tempo tem outras vidas que viver.


W. H. Auden, "Outro Tempo" - XXX
Tradução Margarida Vale de Gato

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