2011-05-18

para o campeão em desperdício de oportunidades

Nunca hei-de entender uma questão essencial no ensino português, e essa questão nem tem que ver propriamente com o ensino. Está mais relacionada com a forma como as pessoas encaram a escola. Fui professor durante 10 anos. Vendi habilitações no ensino secundário e em cursos de formação profissional (níveis III e IV). Repugna-me um discurso tão snobe quanto ignorante relativamente ao ensino técnico-profissional e ao programa Novas Oportunidades. Normalmente ouço dizer que se trata de escapes, formas fáceis de adquirir diplomas, habilitações literárias, meio caminho andado para a incompetência. Ora, pergunto-me sobre o que seja o ensino regular. Devo dizer, e digo-o com a maior honestidade que me é possível, que o melhor aluno que apanhei em 10 anos de docência (era uma aluna) foi, precisamente, num curso técnico-profissional. Ninguém é bom ou mau em função das marcas que veste, mas sim em consequência do esforço e do empenho que demonstra. O problema é precisamente este, começa aqui: em Portugal tudo se avalia pelo estatuto, nada pelo mérito. E o mérito é indiferente aos cursos, ao tipo de ensino, às escolas, está exclusivamente relacionado com a dedicação individual. Quem não entende isto, bem pode continuar convencido de que o investimento em formas alternativas de ensino é desperdício. Estará redondamente equivocado. A prová-lo estão os milhares de incompetentes, inúteis, imbecis, grunhos e basbaques que todos os anos saem das universidades com canudos debaixo do braço. 



Vou, no próximo dia vinte e quatro, receber o meu diploma de certificação do 12º Ano. 
E vou de consciência tranquila porque não fico a dever nada a ninguém por ele. Muito menos um voto.
Por razões que não são para aqui chamadas, aos dezasseis anos interrompi a formação escolar regular. Podia tê-la retomado alguns anos mais tarde, mas o meu projecto de vida e prioridades eram outras.

Há um ano inscrevi-me num Centro de Novas Oportunidades. Integrei uma turma onde era a pessoa mais velha. Em dois meses completei o trabalho a apresentar. O que me consumiu todos os fins-de-semana e muitas horas diárias depois do trabalho.

O que é que aprendi neste processo? Que todo o meu percurso de vida podia e devia ser avaliado. Que todas as leituras, reflexões, diálogos, abertura ao "outro", experiências pessoais e profissionais me deram (e dão) competências. Foram avaliadas por vários profissionais e, sem complexos de qualquer espécie, vou receber a respectiva certificação.




12 comentários:

  1. Maria, eu devia estar calado...

    Acho muito bem que as pessoas sejam avaliadas pelos seus méritos e não pelo seus canudos. Conheço vários casos de pessoas que forma promovidos pelos cursos que tiraram emquanto trabalhavam. Não seria mais natural serem promovidos pela sua produtividade no emprego? Afinal para subir o importante era ter um canudo universitário, fosse ele qual fosse. Nem tinha que ter nada a ver com o seu trabalho.

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  2. Continuando...

    Dentro dessa lógica, não devia haver certificações.
    Casos extremos: todos o profissionais de futebol quando acabam a carreira recebem automaticamente um certificado do 12º ano. Aquilo de dar uns pontapés na bola dá uma grande experiência de vida.

    Outras certificações: Qual é a diferença entre ter o 11º e o 10º ano? Nenhuma!
    Sei muito bem o que os miudos sabem quando acabam o 12º agora. Não é grnde coisa. Não é certamente mais do que se sabia com o antigo sétimo.

    É ridiculo que se descrimine alguém por não ter completado um ano de estudos que na altura nem existia.

    Acontece que muito cabeleireiros com a quarta classe acham agora que para aprender a pentear alguém é preciso queimar primeiro as pestanas. Com se eles o tivessem feito.
    É claro que estas desculpas servem para diminuir a concorrencia.

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  3. Pois...

    Renovo os meus parabéns!
    Sinceros...

    Levaste o curso a sério.
    Esforcaste-te.
    Tens todas as razões para estar orgulhosa.

    Mas...
    E os outros?
    Também levaram aquilo a sério?
    Como foi?
    Não houve uns que só lá foram para receber o canudo?
    Nem os culpo.
    Afinal, são essas as regras do jogo.

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  4. Finalmente:

    Se alguém tem o antigo 7º ano, a diferença para a 12º é ridicula.
    Afinal agora uma licenciatura leva três anos em vez de cinco.

    A certificação só serve para ultrapassar questões formais.

    Se alguém completou o actual 9º ano, como é que uma certificação do 12º pode ser séria?
    Estamos a brincar...

    Conclusão: Deves ter sido a única portuguesa para quem aquilo fez sentido.
    Mas aquilo que mostraste lá, aprendeste noutro lado...

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  5. "Acontece que muito cabeleireiros com a quarta classe acham agora que para aprender a pentear alguém é preciso queimar primeiro as pestanas. Com se eles o tivessem feito."

    Explicação: para tirar o curso de pentear cabelos é preciso ter o 12º ano.

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  6. ó pá, eu tenho que me ir deitar...respondo aos parabéns: Obrigada!

    quanto ao resto: és capaz de melhor!

    mostra, que eu sei que és!

    E não estou orgulhosa coisa nenhuma: o q me levou a obter esta certificação foi uma razão bem prática. Mas também não tenho que ter complexos nenhuns.

    Sabes que a vida não dá a todos as mesmas oportunidades...

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  7. Muitos parabéns, Maria. Um dia destes, cravo-lhe um café à conta disto (ou pago-lhe, o que é igual)
    ;) bjs

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  8. José,

    o motivo de parabéns é conhecer pessoas como o José e relacionar-me com elas.

    Fica combinado o café! [não me lembro quem pagou o outro. ou cada um pagou o seu? ;)]

    bjs

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  9. Olá JdL!...

    Em primeiro lugar muitos parabéns pela certificação certamente merecida! O saber não ocupa lugar e para mais, basta vir a este jardim para se perceber que estamos perante alguém que vale muito mais que um qualquer 12º ano!!!...

    Não me quero alongar muito sobre tudo o resto... É que o problema da certificação entre os Universitários é exactamente o mesmo!... Processo de Bolonha, diz-vos alguma coisa?... Em qualquer lado do mundo desenvolvido 1 pessoa com 5 anos de Universidade mais a respectiva tese é um Master (Mestre). Mas aqui eu e muitos outros formados antes de Bolonha ficámos com o título de Bachelor (Licenciado) que é o que qualquer pessoa no mundo desenvolvido tem em 3 ou até mesmo em alguns casos em apenas 2 anos de Universidade sem qualquer tese... E agora, se quisermos ter um Master temos de voltar 2 anos para a faculdade... E ser coleguinhas dos miúdos que vêm do 3º ano, ie, dos novos Bachelors!!!...

    Boa noite!...

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  10. Obrigada, P.P.

    Hoje é um daqueles dias em que penso assim:"podia ter sido diferente? Podia! Mas assim está óptimo."

    E quanto à certificação continuo a dizer que o meu caso não valida um programa. Mas para quem não vive no alto das suas "torres de marfim" percebe que, com mais falhanços menos falhanços, para muitas pessoas, esta oportunidade pode ter feito alguma diferença.

    Entendo o que dizes. Hoje, à mesa do almoço, falou-se disso. As minhas filhas tiraram duas "longas" licenciaturas de cinco anos.

    Abraço

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