2011-06-23

convite

subi as ruas do sangue, dolorosas
e avistareis leões no rasto do Ungido
a presa bebe em nós a água e a sua sombra
come-se a Páscoa na alegria diferida

vinde ao banquete do vinho, não da pedra
onde a doença da morte dorme, recostada
sentai-vos junto do fogo que vos lembre o voo
histórias de perfumes e manhãs de linho

só um vestido nos falta para entrar:
a Deus vai-se despido de roupagens
revista-nos a graça da nudez primeira
a desmesura da abordagem imprevista

comparecei à partilha da Palavra
à memória a que devemos estar presentes
enchei a mesa do dom do corpo entregue
do túmulo vazio o pão do dia rompe

vinde ver o lugar do sangue aberto
o tesouro guardado, indestrutível
ide dizer que o perfume encheu a casa
acordai as alusões esquecidas, as fogueiras

José Augusto Mourão, em: «Dizer Deus – ao (des)abrigo do Nome»
12 de Junho de 2011


retirado daqui

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