2011-06-26

"a dança das feridas" ou o modo de nada saber

Declaração

Moro nas sarças. Raramente saio daqui.
Gosto de por aqui ficar.
Há sempre alguém por perto,
alguém que nos diz não vás longe,
Alguém a quem chega a maresia,
a erva, o espectro duma ave  rapina
adejando sobre a leveza da sombra.

Aqui há sempre alguém por perto,
alguém com quem falar
do que nada importa,
alguém que nos abre, isso mesmo,
a porta, alguém que diz fica
e nós ficamos porque sabe bem ficar
a falar do que não importa:
dos moinhos, dos pastores,
dos amoladores, da pescaria,
dos vários tipos de isco
que o peixe exige ao largo das sarças.

Sabe bem ficar neste horizonte
de não pretender entrar.
Sabe bem dizer não
a quem lá no fundo acena.
Aqui sabe muito bem encostar a cabeça
ao ombro das rasuras,
voltar para dentro do cuspo
a desmesura dos gestos,
tricotar a pele dos regressos,
a mesma que endurece
sempre que alguém, lá de longe,
nos promete, isso mesmo, uma conquista.

Aqui sabe bem dizer não
e declinar os convites.
Ficar, isso mesmo, pela solidão.
Como quem fica, isso mesmo, pelos acepipes.

Mas a ti, meu amor,
por ti de tudo me desfaço, me renovo,
por ti  tudo perco e perco-me nesse perder
como quem ganha tudo
o que pode ganhar.
Isso mesmo: o amor
das almas que se encontram
sem nunca terem pretendido encontrar.


Henrique Manuel Bento Fialho; "A Dança da Feridas"

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