2011-06-02

a felicidade possível.

Este silêncio interior que me acompanha nasce do curso lento que conduz o dia a este outro dia. Que posso eu querer mais além deste quarto aberto sobre a planície, com os seus móveis antigos e as suas rendas de croché? Tenho todo o céu na minha frente e este rodopio dos dias parece-me que poderia segui-lo sem cessar, imóvel, rodopiando com eles. Impregno-me da única felicidade de que sou capaz - uma consciência atenta e amigável. Passeio durante todo o dia: da colina desço para Vicência ou então vou mais além pelos campos. Cada ser encontrado, cada cheiro desta rua, tudo me serve de pretexto para amar sem limites. Raparigas que vigiam uma colónia de férias, a corneta dos vendedores de gelados (os seus carros são gôndolas montadas sobre rodas e munidas de varais) os estendais de fruta, melancias vermelhas de pevides negras, uvas translúcidas e pegajosas - outros tantos apoios para quem já não sabe estar só. (1) Mas a flauta estridente e terna das cigarras, a doçura das águas e das estrelas que se descobre nas noites de Setembro, os caminhos perfumados, entre os lentiscos e os juncos, outros tantos sinais de amor para quem é forçado a estar só.(1) Assim passam os dias.

(1) Isto é, toda a gente.

Albert Camus - "O Avesso e o Direito"

Sem comentários:

Enviar um comentário