2011-06-30

que o afã de construir não cerre nossos olhos

Quem chega a Tecla, pouco vê da cidade, por detrás dos tapumes de madeira, dos abrigos de serapilheira, dos andaimes, das armações metálicas, das pontes de madeira suspensas por cabos ou seguras por cavaletes, dos escadotes, dos postes. À pergunta: - Porque demora tanto tempo a construção de Tecla? - os habitantes sem deixarem de içar baldes, de soltar fios de prumo, de mover para baixo e para cima longas trinchas, respondem: - Para que não comece a destruição. E inquiridos se temem que assim que se retirarem os andaimes a cidade comece a esboroar-se e a cair aos bocados, acrescentam à pressa, em voz baixa: - Não só a cidade.
E se, insatisfeito com a resposta, alguém aplicar o olho à greta de uma paliçada, vê gruas que elevam outras gruas, andaimes que revestem outros andaimes, traves que escoram outras traves. - Que sentido tem o vosso construir? - pergunta. - Qual é o fim de uma cidade em construção se não uma cidade? Onde está o plano que seguem, o projecto?
- Mostrar-to-emos assim que acabar o dia; agora não podemos interromper-nos - respondem.
O trabalho cessa ao pôr do sol. Desce a noite sobre a obra. É uma noite estrelada. - Eis o projecto - dizem.

Italo Calvino - "As Cidades Invisíveis"
As cidades e o céu. 3

2 comentários:

  1. é um livro belíssimo, que nos faz sonhar outras histórias e outras cidades.

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  2. é sim. e, como muitas das coisas boas da vida, demorei a descobri-lo. É um dos livros que se pode desdobrar em múltiplas leituras.
    A cidade que se oferece aos nossos olhos é sempre passível de uma leitura individual e/ou social num jogo nada apaziguador:

    "POLO - Talvez do mundo só tenha restado um terreno vazio coberto de imundícies, e o jardim suspenso do palácio do Grão Kan. São as nossas pálpebras que os separam, mas não se sabe qual está dentro e qual está fora."

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