2011-07-14

profetas do quotidiano

Santa Teresa fala de pessoas que têm uma vida muito ativa, dispersa numa multiplicidade de empenhos, e que, no entanto, conseguem uma vitalidade espiritual. Há, de facto, um mal-entendido de séculos que opõe, no interior da nossa cultura, para não dizer da nossa própria consciência, a contemplação à ação. Como se a vida ativa necessariamente nos desertificasse, atirando-nos para longe de nós próprios e de Deus. Ora, falando às suas irmãs contemplativas, Santa Teresa critica esta ideia e diz que a exterioridade pode até fecundar a experiência espiritual mais profunda. Mesmo o gesto exterior mais comezinho ou ínfimo, mesmo os gestos sem nenhum relevo como são os da rotina da cozinha (serão mesmo sem relevo?), ainda esses devem ser compreendidos de outra forma, pois o Deus Todo-Poderoso, o Grande Senhor do Universo move-se pela nossa cozinha, entre púcaros, vasilhas e panelas. Fomos habituados a pensar a vida espiritual como uma representação, um enredo que se passa unicamente num espaço nobre e ordenado, um intervalo sobreposto à vida. A existência quotidiana, ínfima, banal, rotineira achamos que não é para Deus, nem a consideramos capaz de ligar-nos a isso que é o sagrado. Contudo, diz-nos Santa Teresa: “Deus move-se entre os tachos”.

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