2011-09-29

descobrimento


Um oceano de músculos verdes
Um ídolo de muitos braços como um polvo
Caos incorruptível que irrompe
E tumulto ordenado.
Bailarino contorcido
Em redor dos navios esticados
Atravessamos fileiras de cavalos
Que sacudiam as crinas nos alísios
O mar tomou-se de repente muito novo e muito antigo
Para mostrar as praias
E um povo
De homens recém-criados ainda cor de barro
Ainda nus ainda deslumbrados



Sophia de Mello Breyner Andresen
 
 
(a foto é do Gabriel. tirou a Maria) 

2011-09-28

qual a escolha certa?

o amor é (...)

"O amor não é um sentimento. É uma capacidade." [a frase é de um filme em que participa a Juliette Binoche. Retive apenas a frase e a Juliette Binoche]
No dicionário Priberam da Língua Portuguesa, capacidade significa (entre outras coisas):espaço interior de um corpo vazio. Vazio para se poder encher da relação com um outro que não eu.

2011-09-26

O sofrimento que nos faz contar

O título do post é retirado de um poema do José Tolentino de Mendonça. Lembrei-me dele a propósito da minha presença (e não só) neste espaço de comunicação. Desde que iniciei o blogue  faço o seguinte jogo mental: "devo?" "não devo!" "devo" "devo" "não devo"...se no início ganhava muitas vezes o "devo", vai ganhando  cada vez mais espaço o contrário.
Interiormente nomeio algumas razões para que assim aconteça. Uma delas é que vou conhecendo melhor "o meio".

O Daniel Oliveira também reflecte mais ou menos sobre isto:

Resumindo: temos uma "ferramenta" de comunicação à nossa disposição. Convém conhecê-la e dominá-la para que não nos domine a nós.


2011-09-24

tal como S. Tomé

(e com sorte ninguém vem ler isto e fica mesmo só para mim) por mais boa vontade, facilidade de expressão, criatividade, transparência, que se empreguem nestas partilhas virtuais, nunca chegarão a traduzir a proximidade que se gera no encontro presencial.

ah, o passado

Ao fim de quatro anos (quando os nomeio desencadeio sinais efusivos de perplexidade) voltei ao bairro onde vivi os dias, durante vinte anos. As reacções que a minha presença provocou, levam a questionar-me: que parte de mim lá deixei e que o espelho não devolve?

2011-09-23

não é um slogan rasca

A crise pode gerar oportunidades:

Durante aquel tiempo recibí alguna propuesta de trabajo para reincorporarme al mundo de la empresa, pero no quise aceptarlas: el nuevo mundo que había descubierto me había atrapado por completo, así que decidí cambiar una maravilla de sueldo y una mierda de trabajo por una maravilla de trabajo y una mierda de sueldo.

aqui

2011-09-15

e quem não sabe desejar?


- Explique-me - repetiu ela. - Porque é que vivemos?
- Não sou um Evangelho - disse eu com algum embaraço.
- Enfim, você sabe porque é que vive. - Abriu os dedos em leque e contemplou-os atentamente: - Eu não sei.
- Há com certeza coisas que você gosta, coisas que deseja...
Ela sorriu:
- Gosto de chocolate e de bicicletas bonitas.
- É melhor que nada.
Olhou de novo os seus dedos; ficara de repente com um olhar triste.
- Quando era pequena, acreditava em Deus, era magnífico; havia qualquer coisa que me era exigida a cada instante; então parecia-me que eu devia de facto existir. Era uma necessidade.
Sorri-lhe com simpatia.
- Creio que o seu problema é imaginar que as suas razões de viver deviam cair do céu já prontas: somos nós que as temos de criar!
- Mas se sabemos que as criamos nós próprios, já não podemos acreditar nelas. Isso não é senão uma maneira de nos iludirmos.
- Porquê? Não se criam de qualquer  maneira, no ar; criam-se pela força de um amor, de um desejo; e então o que se criou ergue-se à nossa frente bem sólido, bem real.

Simone de Beauvoir in "O Sangue dos Outros"

2011-09-11

a lógica contabilística não procede de Deus

O SENHOR disse: «Se encontrar em Sodoma cinquenta justos perdoarei a toda a cidade, por causa deles.» 27Abraão prosseguiu: «Pois que me atrevi a falar ao meu Senhor, eu que sou apenas cinza e pó, continuarei. 28Se, por acaso, para cinquenta justos faltarem cinco, destruirás toda
a cidade, por causa desses cinco homens?» O SENHOR respondeu: «Não a destruirei, se lá encontrar quarenta e cinco justos.» 29Abraão insistiu ainda e disse: «Talvez não se encontrem nela mais de quarenta.» O SENHOR disse: «Não destruirei a cidade, em atenção a esses quarenta.» 30Abraão voltou a dizer: «Que o Senhor não se irrite, por eu continuar a insistir. Talvez lá se encontrem trinta justos.» O SENHOR respondeu: «Se lá encontrar trinta justos, não o farei.» 31Abraão prosseguiu: «Perdoa, meu Senhor, a ousadia que tenho de te falar. Talvez não se encontrem lá mais de vinte justos.» O SENHOR disse: «Em atenção a esses vinte justos, não a destruirei.» 32Abraão insistiu novamente: «Que o meu Senhor não se irrite; não falarei, porém, mais do que esta vez. Talvez lá não se encontrem senão dez.» E Deus respondeu: «Em atenção a esses dez justos, não a destruirei.»
33Terminada esta conversa com Abraão, o SENHOR afastou-se, e Abraão voltou para a sua morada.

(in)significantes

Os insignificantes

O custo das casas
por incrível que pareça
sugere a possibilidade
de uma outra vida
a alma não mora debaixo do seu tempo
traz de tão longe a fragância
de uma vegetação que cresce

mais abaixo junto à represa
um trecho de sombra
a estação tornou tudo amarelo uma última vez
o pinheiro, o rumor dos caçadores, a corrida atrapalhada
da perdiz

nas vagas recordações
a orla de uma alegria que ninguém viu

os insignificantes flutuam
ao vento contínuo de Deus

José Tolentino Mendonça
"A noite abre meus olhos"
Assírio & Alvim

The River - metáfora da vida

2011-09-09

Anouar Brahem - Leila au pays du carrousel, var.

A importância do olhar

“Antes que eu penetrasse no Zen,
as montanhas nada mais eram senão montanhas
e os rios nada a não ser rios.
Quando aderi ao Zen,
as montanhas não eram mais montanhas
nem os rios eram rios.
Mas, quando compreendi o Zen,
as montanhas eram só montanhas
e os rios, só rios”
  
(Sentença Zen)
 
(Num artigo de Faustino Teixeira, aqui)

complacência

Ao eu julgador opõe uma remediada complacência:"Ninguém se faz!". Abstenho-me de comentar. Existo de modo diverso.

2011-09-06

boa desculpa

Se o mundo nasceu de um capricho de Deus, então a mulher é o ser em que o Supremo artífice quis manifestar da melhor maneira o lado imprevisível da sua insondável natureza.

Arthur Schopenhauer in "A arte de lidar com as mulheres"

em boa verdade

Um mestre disse a outro: Sabes tu o que Deus é? Não, disse ele, eu não sei o que Deus seja. O tanto que sei dele é que sei o que ele não é, pois ninguém pode conhecer a Deus a não ser na natureza de Deus.

Mestre Eckhart, Sermão 95

2011-09-05

As Caldas - um olhar de emoção e razão

I.C.: Gosto das Caldas, sim. Sinto-me triste com o presente mas há que ter esperança no futuro. Afinal as Caldas é uma cidade igual a tantas outras cidades de dimensão semelhante neste país que, em certo período, se deslumbraram com um aparente desenvolvimento, um sub-urbanismo descaracterizador, esquecendo que os seus centros são as suas verdadeiras marcas existenciais. Talvez ainda seja possível repensar a opção adoptada e valorizar o que nos torna diferentes, seja a Praça da Fruta, as trouxas, o Parque, as cavacas, a Senhora do Pópulo, o CCC, as termas, a cerâmica… Façamo-nos valer do que faz a nossa diferença e não apostemos na boçalidade banal.

Isabel Castanheira em entrevista, aqui

mulheres

 O infinito

Sempre gratas me foram esta colina tão só
E esta sebe alta e extensa
Que não me deixa ver o último horizonte.
Mas quando me demoro a contemplá-la
O meu espírito gera para além dela
Intermináveis espaços, silêncios sobre-humanos
Uma paz escura, profunda; e pouco falta
Para o terror me assaltar o coração. E quando
Ouço o vento sussurrar nas plantas
Comparo o infinito de tanto silêncio
A esta voz, e lembro-me da eternidade
Das estações mortas, do tempo presente
E vivo, do seu murmúrio brando. Assim
Se aniquila o meu espírito na imensidão:
E é-me grato naufragar neste mar.


Giacomo Leopardi
Trad. Ernesto Sampaio

2011-09-04

porque hoje é domingo #2

5Acaso é esse o jejum que me agrada,
no dia em que o homem se mortifica?
Curvar a cabeça como um junco,
deitar-se sobre saco e cinza?
Podeis chamar a isto jejum
e dia agradável ao SENHOR?
6O jejum que me agrada é este:
libertar os que foram presos injustamente,
livrá-los do jugo que levam às costas,
pôr em liberdade os oprimidos,
quebrar toda a espécie de opressão,
7*repartir o teu pão com os esfomeados,
dar abrigo aos infelizes sem casa,
atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão.
8*Então, a tua luz surgirá como a aurora,
e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se.
A tua justiça irá à tua frente,
e a glória do SENHOR atrás de ti.
9Então invocarás o SENHOR e Ele te atenderá,
pedirás auxílio e te dirá: «Aqui estou!»
Se retirares da tua vida toda a opressão,
o gesto ameaçador e o falar ofensivo,
10se repartires o teu pão com o faminto
e matares a fome ao pobre,
a tua luz brilhará na tua escuridão,
e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio dia.


(Isaías 58, 5-10)

porque hoje é domingo

Furto

Roubaram Deus.


O céu está vazio.

O ladrão ainda não foi
(Nunca será) detido.


Furto

Hanno rubato Dio.

Il cielo è vuoto.

Il ladro non è ancora stato
(non lo sarà mai) arrestato.

Giorgio Caproni
traduzi

2011-09-03

Anna Arendt - um olhar que é preciso seguir


A era moderna trouxe consigo a glorificação teórica do trabalho, e resultou na transformação efectiva de toda a sociedade numa sociedade operária. Assim, a realização do desejo, como sucede nos contos de fadas, chega num instante em que só poder ser contraproducente. A sociedade que está para ser libertada dos grilhões do trabalho é uma sociedade de trabalhadores, uma sociedade que já não conhece essas actividades superiores e mais importantes em benefício das quais valeria a pena conquistar essa liberdade. Dentro desta sociedade, que é igualitária porque é próprio do trabalho nivelar os homens, já não existem classes nem uma aristocracia de natureza política ou espiritual da qual pudesse ressurgir a restauração de outras capacidades do homem. Até mesmo presidentes, reis e primeiros-ministros concebem os seus cargos como tarefas necessárias à vida da sociedade; e, entre os intelectuais, somente alguns indivíduos isolados consideram ainda o que fazem em termos de trabalho, e não como meio de ganhar o próprio sustento. O que se nos depara, portanto, é a possibilidade de uma sociedade de trabalhadores sem trabalho, isto é, sem a única actividade que lhes resta. Certamente nada poderia ser pior.

Hannah Arendt in "A Condição Humana"

diminuindo o homem anula-se o próprio Deus

Num acto religioso ouvi, sem surpresa, dizer que a discussão sobre "se há Deus" "não há Deus"; "não interessa nada".
Pretender negar a possibilidade de alguém  questionar e discutir das razões para acreditar no transcendente ou não, é tornar a própria fé um acto desencarnado da vida e contrário à própria experiência biblíca.

religião

...Ao contrário da ideia corrente, no domínio religioso, Deus não é figura primeira e determinante a não ser para um determinado tipo de religião: a religião monoteísta. É célebre, neste contexto, a afirmação de Leeuw: "Deus é um fruto tardio na história religiosa." O conteúdo central da religião é o absoluto, o transcendente, o abrangente, o numinoso.
(...)
Para o homem religioso, a realidade não se esgota na sua imediatidade empírica: para a sua compreensão adequada, a realidade mesma aparece-lhe como incluindo uma Presença que não se vê em si mesma, mas implicada no que se vê. Mediante certas características - a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido -, a própria realidade se mostra implicando essa Presença sagrada, divina, como seu fundamento e sentido últimos.

Anselmo Borges, in DN

2011-09-02

legado

Hoje presenteei-me com um livro da Hannah Arendt (A condição humana). Não sei o que  me vai ensinar sobre as criaturas que somos. Sei, sim, o que aprendi nestes últimos anos de convivência com a Maria da Conceição que enterrámos hoje. Aos noventa e dois anos vivia de forma autónoma e com um grande amor pela vida, expresso no cuidado da pequena horta e jardim.
Aprendi dela que o cuidado amoroso vale por si só, independentemente dos ecos que provoque.

2011-09-01

é ele que diz. eu só tenho um aperto no peito. palavras nenhumas

Ficar sem uma costela no Paraíso até se admite: a causa era boa. Ser privado de uma parcela de intelecto na Terra é algo que o macho considera intolerável. A sua tese de furto, apesar de obtusa, leva-o a clamar por justiça e a usar a força para que a justiça seja feita. Os crimes passionais – e as diversas formas de violência contra as mulheres – constituem, em grande parte, a expressão indirecta dessa radical, perversa e insuportável sede de vingança.

 daqui,
um blogue dos bons, descobri através deste, que é o espelho de um homem magnífico (não estou tão mal como pensava)!
 

1, 2, 3...experiência

o blogger promete uma interface actualizada. eu não prometo nada. por uns dias, vou entregar o corpo e a alma à preguiça. E seja o que Deus quiser...