2011-09-15

e quem não sabe desejar?


- Explique-me - repetiu ela. - Porque é que vivemos?
- Não sou um Evangelho - disse eu com algum embaraço.
- Enfim, você sabe porque é que vive. - Abriu os dedos em leque e contemplou-os atentamente: - Eu não sei.
- Há com certeza coisas que você gosta, coisas que deseja...
Ela sorriu:
- Gosto de chocolate e de bicicletas bonitas.
- É melhor que nada.
Olhou de novo os seus dedos; ficara de repente com um olhar triste.
- Quando era pequena, acreditava em Deus, era magnífico; havia qualquer coisa que me era exigida a cada instante; então parecia-me que eu devia de facto existir. Era uma necessidade.
Sorri-lhe com simpatia.
- Creio que o seu problema é imaginar que as suas razões de viver deviam cair do céu já prontas: somos nós que as temos de criar!
- Mas se sabemos que as criamos nós próprios, já não podemos acreditar nelas. Isso não é senão uma maneira de nos iludirmos.
- Porquê? Não se criam de qualquer  maneira, no ar; criam-se pela força de um amor, de um desejo; e então o que se criou ergue-se à nossa frente bem sólido, bem real.

Simone de Beauvoir in "O Sangue dos Outros"

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