2011-10-28

E embora nada possa devolver...

a palavra que redime

Escrito com tinta verde

A tinta verde cria jardins, selvas, prados,
folhagens onde gorjeiam letras,
palavras que são árvores,
frases de verdes constelações.

Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de neve,
como a hera à estátua,
como a tinta a esta página.

Braços, cintura, colo, seios,
fronte pura como o mar,
nuca de bosque no outono,
dentes que mordem um talo de erva.

Teu corpo se constela de signos verdes,
renovos num corpo de árvore.
Não te importe tanta miúda cicatriz luminosa:
olha o céu e a sua verde tatuagem de estrelas.


Octávio Paz






 

Sei de um Rio

2011-10-26

porque falas com palavras e eu olho com sentimentos


Pierrot le fou - Jean Luc Godard, 1965

O rio - uma metáfora interior

O rio era caudaloso e fluido. Deslizava rodeando habilmente os obstáculos, sem que nada pudesse travar o seu curso.
Atravessou vales, gargantas, bosques, selvas e desfiladeiros. Imparável, seguia o seu curso. Mas, de súbito, chegou ao deserto e as suas águas começaram a desaparecer na areia. O rio ficou espantado. Não havia forma de atravessar o deserto e desejava desaguar noutro rio. O que fazer? Cada vez que as suas águas chegavam à areia, esta engolia-as. Será que não havia forma de atravessar o deserto? Então, ouviu uma voz misteriosa que dizia:
- Se o vento atravessa o deserto, tu também podes fazê-lo.
- Mas como? Perguntou o rio, desconcertado.
- Permite que o vento te absorva. Diluir-te-ás nele e, depois, choverás para além das areias. Lá formar-se-á outro rio e este desaguará num outro maior.
- Mas continuarei a ser eu? - perguntou o rio angustiado, temendo perder a sua identidade.
- Serás tu e não serás tu. Serás a água que chova, que é a essência, mas o rio será outro.
- Então recuso-me a fazer isso. Não quero deixar de ser eu!


Ramiro Calle, "Os melhores contos espirituais do Oriente"

2011-10-25

(não) é da natureza do mal. é da natureza humana

No mercado tunisino, numa arrecadação frigorífica onde ainda se vêem restos de galinhas, com um cheiro tão insuportável que os organizadores usam máscara sanitária, no chão deitaram Kadafi e o filho. Embrulhados em tapetes, o rosto desfigurado de Kadafi, presume-se que está tal como o entregaram depois da autópsia. Uns barbudos controlam as entradas, em pequenos grupos que se demoram pouco. O corpo do ditador é agora bem pouco. Um árabe comenta à saída:- Fizemo-lo um gigante e ele é afinal bem pequeno. Não se vêem mulheres. As mulheres fogem da violência, ou já foram afastadas da rua. Vigora agora a lei islâmica. Deve ser à luz da lei islâmica que o corpo de Kadaffi é assim e agora exibido. Os que o aclamaram têm agora de o ver morto, derrotado , sem poder, para acreditarem que devem nova obediência, às tribos vencedoras que os Cruzados ajudaram.

Luís Januário

é fado

Pagola: a Igreja e o seguimento de Jesus

¿Cómo ve a la Iglesia en esta situación de crisis económica?
-Para mí esta crisis no es una crisis más, esta crisis nos está descubriendo que no se puede vivir de cualquier manera, y tendremos que aprender a vivir de una manera más austera y humana. Es una crisis que va a hacer sufrir mucho y cambiaría mucho el rostro de nuestras parroquias si ofrecieran a las personas una acogida cálida, si escuchara a esa gente, con sus miedos y sus sufrimientos, y les ofreciera un acompañamiento. Se le tendría que notar a la Iglesia que le preocupa la felicidad de la gente, que no está cerrada en su doctrina. Y siempre empezando con los últimos.

-Si viviese hoy Jesucristo, ¿iría junto a los indignados?
-Jesus es un profeta y el profeta vive con indignación profética, hoy sin duda sería un indignado. Jesús es un hombre indignado que pide una revolución de las conciencias. Para mí el fenómeno de los indignados me parece un signo muy positivo de estos tiempos, porque vivimos en una sociedad aletargada.

entrevista, aqui

2011-10-24

Dylan Thomas



A LUZ IRROMPE ONDE NENHUM SOL BRILHA

A luz irrompe onde nenhum sol brilha;
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés;
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.
Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice;
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.
A manhã irrompe atrás dos olhos;
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar;
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.
A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos;
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno;
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.
A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.

Tradução: Fernando Guimarães

2011-10-23

aos olhos do mundo, só o amor é digno de fé*

Mas se o criado se encarar com os olhos do amor, é então compreendido contra todas as verosimilhanças que parecem apontar para o vazio de amor no mundo. Compreendido na sua definitiva razão de ser: não só da sua essência que se pode clarificar de algum modo graças às numerosas relações significativas entre as naturezas particulares, mas também da sua existência em geral, para a qual, aliás, nenhuma filosofia consegue encontrar um fundamento suficiente. Porque é que realmente existe algo em vez de nada? – a questão surge tanto na afirmação, como na negação, da existência de um Ser absoluto. Se este Ser não existe, que razão pode haver para que existam, no seio do nada, estas coisas finitas e efémeras que nem por adição, nem por evolução, alguma vez podem desembocar no Absoluto? Mas se o Absoluto existir e se bastar a si como absoluto, então ainda é quase mais incompreensível porque é que, fora dele, deveria haver algo de diferente. Só uma filosofia do amor autónomo e livre pode justificar a nossa existência, mas não sem interpretar ao mesmo tempo a essência do ser finito em função do amor. Em função do amor, e não, em última instância, da consciência ou do espírito, do saber ou do poder, do prazer ou da utilidade, mas de tudo isso considerado apenas como modos e pressupostos em vista do único acto que tudo perfaz, e que brilha esplendorosamente no sinal de Deus. E, para lá da existência e da essência, ilumina-se a constituição do ser em geral, na medida em que este último só nos aparece como “não se mantendo em si mesmo”, na exteriorização de si mesmo para entrar na finitude concreta – o que permite aos seres finitos recebê-lo e compreendê-lo tal como é em si mesmo, como aquele que não procura preservar-se a si mesmo e, por isso, são por ele iniciados no amor que sem cessar se oferta: a consciência de si, a posse de si mesmo e do ser, só progridem na medida em que o ser em si e por si faz eclodir as suas barreiras e se abre à comunicação, à troca, à simpatia humana e cósmica. Todos os valores do mundo são postos na sua verdadeira luz só pelo sinal de Deus, porque agora se ultrapassam também todos os limites do amor, todas as objecções contra ele, e ainda todas as profundezas misteriosas do amor que se imola são preservadas e subtraídas ao domínio do saber redutor. É sobretudo o homem que se torna verdadeiramente ele próprio no apelo que lhe é dirigido: criado para este fim, chega inteiramente a si próprio como aquele que responde. Ele é a linguagem de que Deus se serve para lhe falar: como é que, neste diálogo, não haveria de se entender a si? Emergindo à luz de Deus, entra na claridade sem pôr em perigo a sua natureza (de modo espiritualista), nem a sua qualidade de criatura (pelo orgulho). Só na salvação concedida por Deus é que o homem se torna plenamente são. Graças ao sinal de Deus que se rebaixa encarnando e se aniquila na morte e no vazio de Deus, é que se pode esclarecer porque é que Deus, já como criador do mundo, saiu de si e desceu abaixo de si: correspondia assim ao seu ser e à sua essência absolutos revelar-se, na sua liberdade abissal e por nada instigada, como o amor insondável, que não é o bem absoluto para lá do ser, mas a profundidade e a altura, o comprimento e a largura do próprio Ser.

Hans Urs Von Balthasar, "Só o amor é digno de fé"

porque hoje é domingo

34Constando-lhes que Jesus reduzira os saduceus ao silêncio, os fariseus reuniram-se em grupo. 35*E um deles, que era legista, perguntou-lhe para o embaraçar: 36«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» 37Jesus disse-lhe:
Amarás ao Senhor, teu Deus,
com todo o teu coração,
com toda a tua alma
e com toda a tua mente.
38Este é o maior e o primeiro mandamento. 39*O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. 40*Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.»


Mt 22, 34-40

2011-10-22

o homem

(Khadafi, anos 70)

Amarás ao teu próximo como a ti mesmo

A actualidade enche-nos os sentidos de imagens de violência e desespero. Entre elas, a recente liquidação de Khadafi. Sei que não  aconteceu a morte de um inocente. Antes, a de um tirano. Também sei das vantagens estratégicas da sua morte para que se efective a mudança de liderança na Líbia. Mas é um mau começo, para quem ambiciona assumir essa liderança, principiar com um acto que se iguala à prática do ditador Khadafi.
Tal acto é condenável à luz do direito internacional e, de forma ainda mais radical, à da revelação de um Deus que é Amor, ou seja, Plenitude do humano. E uma das primeiras expressões do amor é o perdão.

2011-10-21

play a song for me



Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me,
In the jingle jungle morning I'll come followin' you.

o último segredo?

Nunca li nenhum livro do José Rodrigues dos Santos. Não me parece que me vá estrear a fazê-lo com o último que publicou, que tem o título sugestivo de "o último segredo".
E não é porque tema ser abalada na  fé em Deus (e no Deus que a Bíblia revela), como ele promete fazer a alguns católicos.
José Rodrigues dos Santos escreveu um romance. Acredito, piamente, que fez algumas pesquisas. Mas não o creio capacitado para derrubar séculos de teologia e exegese bíblica, feita por quem lhe dedicou e dedica toda a sua vida física, intelectual, emocional e espiritual.
Dito isto, asseguro que não tenho nada contra o José Rodrigues dos Santos escrever livros, seja sobre a Bíblia, o cristianismo ou sobre a Igreja católica. E se alguém se vai chatear com isso, vai perder tempo e meios. Eu, por mim, tenho mais em que gastar o meu dinheiro (há tantos livros que quero ler) e o meu tempo.

escolher o que permanece

6Muitos sonhos geram muitas ilusões e muitas palavras. Tu, porém, teme a Deus.

Eclesiastes 5,6

2011-10-20

se

Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

2011-10-19

la dolce vita

(Já sabeis: clicar para aumentar)

ou muito me engano

depois de uma "passeata" pelos jornais diários, alguns blogues mais dedicados a debater a actualidade política e económica do país, chego à conclusão (que não é nada brilhante) de que no subconsciente (mas está quase a vir à tona) de muitos concidadãos, germina a  expressão:"éramos felizes e não sabíamos".

2011-10-18

2011-10-17

limite

Às vezes, a meio da noite, um grito. Há alturas em que penso que sou eu quem grita, embora não grite nunca: sempre calei os gritos todos em mim.

2011-10-16

a escolha: ilusão ou dom

14O sábio tem os olhos na testa, mas o insensato anda nas trevas. E reconheci também que a todos eles espera a mesma sorte.15E eu disse em meu coração: «A sorte do insensato tocar-me-á a mim também. Para que serve a minha sabedoria?» Então, decretei em meu coração que também isto é ilusão. 16Pois não há memória que dure sempre nem para o sábio nem para o insensato; antes, passado algum tempo, tudo igualmente se esquece.

Eclesiastes 2, 14-15

Danças Ocultas





Ontem estive num concerto destes senhores: extasiante!

2011-10-14

claríssimo:

a missão da Igreja é ser inteligente

soltos

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José Luís Peixoto
A Criança Em Ruínas, Edições Quasi, 6.ª Edição, 2007

lapas, lapas, lapas

Animal invertebrado do grupo dos moluscos. Trata-se de um gastrópode marinho, pertencente a vários géneros, nomeadamente Acmaea e Patella, em particular a espécie Patella vulgata, que pertence à família Patellidae.
Apresenta uma concha cónica e adere firmemente à rocha pelo pé em forma de disco. Apenas abandona as sua posição fixa para se alimentar, voltando seguidamente para o mesmo local. Ocorre no Atlântico e no Pacífico.
Apresenta o corpo mole recoberto por uma concha calcária, e é muito comum na zona entre marés, onde é encontrado fixado às rochas.

in Dicionário Universal

2011-10-13

And the cat's in the cradle...

amordaçada, não

 (fotografia de Cabral Nunes)



Agora a luta é comigo. Se quero aguentar mais uns tempos é dominar os demónios interiores, a moleza d'alma, o deixar-andar, o impedir pelos meios ao meu alcance a repetição dos erros do passado, que alguns deram frutos mas nem sei se compensadores.
E não me resignando à velhice e ao silêncio, aceitar os desgastes da idade, dizer adeus às metas (e às conas) já impossíveis de alcançar. Enfim, reconhecer os meus limites e tentar superá-los apenas se a ousadia valer os riscos e em plena consciência.  Não pela força do álcool que julgo - para já - o meu pior inimigo.
Amanhã, mudar de programa. Vai ser um combate incerto que derrotas, desânimos, mesmo períodos de crise, poderão comprometer definitivamente. A ver vamos.


Luís Pacheco, Diário Remendado (1/1/74)






2011-10-11

não é a constatação de uma inevitabilidade. é a partir daqui que, com esforço, se constroi


3 1*Para tudo há um momento
e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu:
2tempo para nascer e tempo para morrer,
tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou,
3tempo para matar e tempo para curar,
tempo para destruir e tempo para edificar,
4tempo para chorar e tempo para rir,
tempo para se lamentar e tempo para dançar,
5tempo para atirar pedras e tempo para as ajuntar,
tempo para abraçar e tempo para evitar o abraço,
6tempo para procurar e tempo para perder,
tempo para guardar e tempo para atirar fora,
7tempo para rasgar e tempo para coser,
tempo para calar e tempo para falar,
8tempo para amar e tempo para odiar,
tempo para guerra e tempo para paz.


Eclesiastes, 3
Amor
 
Mi manera de amarte es sencilla:
te aprieto a mí
como si hubiera un poco de justicia en mi corazón
y yo te la pudiese dar con el cuerpo.
 
Cuando revuelvo tus cabellos
algo hermoso se forma entre mis manos.
 
Y casi no sé más. Yo sólo aspiro
a estar contigo en paz y a estar en paz
con un deber desconocido
que a veces pesa también en mi corazón.
 
 
 
Antonio Gamoneda

2011-10-10

subscrevo a proposta: libertar Cristo da religião


Falo do Cristo porque o Cristo Redentor, aquele simpático senhor esculpido em concreto e pedra sabão que nos saúda de braços abertos do alto do Corcovado, completa 80 anos. O Cristo carioca, apesar dos braços abertos que evocam a posição do Cristo crucificado e agonizante pregado na cruz, não traz a dor nem o sofrimento estampados em sua expressão.
O Cristo carioca é sorridente, magnânimo, acolhedor e super gente boa, como dizem cariocas e turistas (e paulistas que vivem no Rio) ao contemplá-lo de quase qualquer canto da cidade. Parabéns a esse Cristo carioca, um Cristo diferente, um Cristo que não sofre, um Cristo que não morre, um Cristo sorridente, um Cristo colorido, um Cristo – se me permitem a heresia – sem religião.

daqui

vai uma ginjinha?

tão frágil

O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo - 
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.

Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
-A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite - a nossa noite - era perigosa e alta.

Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.


Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.


Canção Tártara,
Herberto Helder - "O bebedor Noturno"

2011-10-09

"e tu, de que dores falas?"

 
imagem, daqui


Em jeito de repto ao Luís.

É um tema grato à cultura judaico-cristã. 16Depois, disse à mulher: «Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, entre dores darás à luz os filhos. Procurarás apaixonadamente o teu marido, mas ele te dominará.» (Gn 3)  e Bendita e louvada seja a paixão do Redentor (da liturgia da Paixão), mas ninguém saudável deseja ou quer a dor. 
Também temos a experiência de que a dor é inerente à  condição humana. E há quem afirme que Deus também sofre (o que abala, e muito, as nossas frágeis seguranças).
A dor acompanha-nos em todo o percurso da vida. Tanto a dor física, como a outra, mais funda, que geralmente nos emudece e retrai.
Impacienta-nos a tagarelice dos velhos sobre as suas dores (que achamos sempre pequenas porque não nos doem), comparamos as suas dores de joanetes com a nossa angústia sobre aquele problema que nos aflige. Esquecemos que eles já as tiveram todas (e quem sabe mais algumas) e a força que lhes resta (naquela capacidade que o humano tem para se adaptar às circunstâncias) já só dá para as que a farmácia pode aliviar. E nem sempre é assim: a solidão é um vampiro que nunca se satisfaz.

sem pudor

continuamos a excluir impunemente.

O banquete é para todos. Sem condições

Naquele tempo,
Jesus dirigiu-Se de novo
aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo
e, falando em parábolas, disse-lhes:
«O reino dos Céus pode comparar-se a um rei
que preparou um banquete nupcial para o seu filho.
Mandou os servos chamar os convidados para as bodas,
mas eles não quiseram vir.
Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes:
‘Dizei aos convidados:
Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos,
tudo está pronto. Vinde às bodas’.
Mas eles, sem fazerem caso,
foram um para o seu campo e outro para o seu negócio;
os outros apoderaram-se dos servos,
trataram-nos mal e mataram-nos.
O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos,
que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade.
Disse então aos servos:
‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos.
Ide às encruzilhadas dos caminhos
e convidai para as bodas todos os que encontrardes’.
Então os servos, saindo pelos caminhos,
reuniram todos os que encontraram, maus e bons.
E a sala do banquete encheu-se de convidados.
O rei, quando entrou para ver os convidados,
viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial.
E disse-lhe:
‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’.
Mas ele ficou calado.
O rei disse então aos servos:
‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores;
aí haverá choro e ranger de dentes’.
Na verdade, muitos são os chamados,
mas poucos os escolhidos».

em memória - Luís Archer

2011-10-06

incitação

não privei o meu coração de nenhuma alegria, pois o meu coração sentiu alegria em todas as minhas canseiras e este foi o quinhão que me ficou de todo o meu esforço. 

Eclesiastes, 2,10

Obrigada, Steve

Quando adquirimos o Apple IIC, (um dinossauro informático, sem disco rígido - apenas diskette de 5,25" e monitor monocromático), estava eu bem longe de me interessar por quem tinha inventado tal artefacto ou o quanto a informática iria influenciar as nossas vidas e a minha em particular.
A Ana (apenas com oito anos) iniciou-se na informática nesse primeiro computador. Eu nem por isso. Antes manifestava uma forte resistência a dar uma utilização funcional a um equipamento para o qual não objectivava valor significativo.
Mas a informática, impulsionada por criadores e visionários do calibre de Steve Jobs, nunca mais parou de se desenvolver e tornar cada vez mais presente e acessível (tanto economicamente como nas capacidades de desempenho) nas múltiplas dimensões e funções da nossa vida diária.
Os meios de comunicação deram a notícia da morte de Steve Jobs. Sem as tecnologias de informação e comunicação (para os quais contribuiu de forma tão elementar) desconheceríamos um homem que não se deixou surpreender nem pela vida nem pela morte.
Correm por aí algumas frases da sua autoria. Fiquei a pensar nesta:

“Tenho tanto orgulho naquilo que não fazemos como naquilo que fazemos.”

2011-10-05

It is too short, the day we are born We commence with our dying Trying to serve with the heart of a child Kingfisher lie with the lion

2011-10-04

tudo é ilusão

14Vi tudo o que se faz debaixo do Sol
e achei que tudo é ilusão e correr atrás do vento.
15*O que é torto não se pode endireitar
e o que é falho não se pode completar.
17Apliquei, igualmente, o meu coração a conhecer a sabedoria, a loucura e a insensatez; e reconheci que também isto é correr atrás do vento. 18*Porque na muita sabedoria há muita arrelia, e o que aumenta o conhecimento, aumenta o sofrimento.


Eclesiastes 1

2011-10-01

"O esquecimento deve ser construção" - Alain Resnais

mulher na Igreja - a indignidade que perdura nos tempos

Eu considero que mais amargo do que a morte
é encontrar uma mulher que é uma armadilha,
cujo coração é uma rede, e cujas mãos são cadeias.
Aquele que é agradável a Deus fugirá dela,
mas o pecador será apanhado por ela.
27Eis o que eu concluí - disse Qohélet -
após ter examinado uma coisa depois da outra,
para lhes encontrar o sentido.
28Eis o que a minha alma ainda busca e não descobre:
entre mil homens achei um,
e entre todas as mulheres nem uma só achei.



Eclesiastes 7, 26-28




Aos olhos da ortodoxia católica, ainda prevalece esta visão da mulher. E permanece porque não é assumida. Nem pelas próprias mulheres, que se iludem num activismo subserviente, sem tomarem qualquer atitude de confronto. Pelo contrário, acomodam-se aos modelos que lhes vão sendo impostos, por quem pode alterar e reverter esta situação de humilhante injustiça.