2011-10-23

aos olhos do mundo, só o amor é digno de fé*

Mas se o criado se encarar com os olhos do amor, é então compreendido contra todas as verosimilhanças que parecem apontar para o vazio de amor no mundo. Compreendido na sua definitiva razão de ser: não só da sua essência que se pode clarificar de algum modo graças às numerosas relações significativas entre as naturezas particulares, mas também da sua existência em geral, para a qual, aliás, nenhuma filosofia consegue encontrar um fundamento suficiente. Porque é que realmente existe algo em vez de nada? – a questão surge tanto na afirmação, como na negação, da existência de um Ser absoluto. Se este Ser não existe, que razão pode haver para que existam, no seio do nada, estas coisas finitas e efémeras que nem por adição, nem por evolução, alguma vez podem desembocar no Absoluto? Mas se o Absoluto existir e se bastar a si como absoluto, então ainda é quase mais incompreensível porque é que, fora dele, deveria haver algo de diferente. Só uma filosofia do amor autónomo e livre pode justificar a nossa existência, mas não sem interpretar ao mesmo tempo a essência do ser finito em função do amor. Em função do amor, e não, em última instância, da consciência ou do espírito, do saber ou do poder, do prazer ou da utilidade, mas de tudo isso considerado apenas como modos e pressupostos em vista do único acto que tudo perfaz, e que brilha esplendorosamente no sinal de Deus. E, para lá da existência e da essência, ilumina-se a constituição do ser em geral, na medida em que este último só nos aparece como “não se mantendo em si mesmo”, na exteriorização de si mesmo para entrar na finitude concreta – o que permite aos seres finitos recebê-lo e compreendê-lo tal como é em si mesmo, como aquele que não procura preservar-se a si mesmo e, por isso, são por ele iniciados no amor que sem cessar se oferta: a consciência de si, a posse de si mesmo e do ser, só progridem na medida em que o ser em si e por si faz eclodir as suas barreiras e se abre à comunicação, à troca, à simpatia humana e cósmica. Todos os valores do mundo são postos na sua verdadeira luz só pelo sinal de Deus, porque agora se ultrapassam também todos os limites do amor, todas as objecções contra ele, e ainda todas as profundezas misteriosas do amor que se imola são preservadas e subtraídas ao domínio do saber redutor. É sobretudo o homem que se torna verdadeiramente ele próprio no apelo que lhe é dirigido: criado para este fim, chega inteiramente a si próprio como aquele que responde. Ele é a linguagem de que Deus se serve para lhe falar: como é que, neste diálogo, não haveria de se entender a si? Emergindo à luz de Deus, entra na claridade sem pôr em perigo a sua natureza (de modo espiritualista), nem a sua qualidade de criatura (pelo orgulho). Só na salvação concedida por Deus é que o homem se torna plenamente são. Graças ao sinal de Deus que se rebaixa encarnando e se aniquila na morte e no vazio de Deus, é que se pode esclarecer porque é que Deus, já como criador do mundo, saiu de si e desceu abaixo de si: correspondia assim ao seu ser e à sua essência absolutos revelar-se, na sua liberdade abissal e por nada instigada, como o amor insondável, que não é o bem absoluto para lá do ser, mas a profundidade e a altura, o comprimento e a largura do próprio Ser.

Hans Urs Von Balthasar, "Só o amor é digno de fé"

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