2011-10-26

O rio - uma metáfora interior

O rio era caudaloso e fluido. Deslizava rodeando habilmente os obstáculos, sem que nada pudesse travar o seu curso.
Atravessou vales, gargantas, bosques, selvas e desfiladeiros. Imparável, seguia o seu curso. Mas, de súbito, chegou ao deserto e as suas águas começaram a desaparecer na areia. O rio ficou espantado. Não havia forma de atravessar o deserto e desejava desaguar noutro rio. O que fazer? Cada vez que as suas águas chegavam à areia, esta engolia-as. Será que não havia forma de atravessar o deserto? Então, ouviu uma voz misteriosa que dizia:
- Se o vento atravessa o deserto, tu também podes fazê-lo.
- Mas como? Perguntou o rio, desconcertado.
- Permite que o vento te absorva. Diluir-te-ás nele e, depois, choverás para além das areias. Lá formar-se-á outro rio e este desaguará num outro maior.
- Mas continuarei a ser eu? - perguntou o rio angustiado, temendo perder a sua identidade.
- Serás tu e não serás tu. Serás a água que chova, que é a essência, mas o rio será outro.
- Então recuso-me a fazer isso. Não quero deixar de ser eu!


Ramiro Calle, "Os melhores contos espirituais do Oriente"

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