2011-10-10

tão frágil

O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo - 
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.

Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
-A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite - a nossa noite - era perigosa e alta.

Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.


Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.


Canção Tártara,
Herberto Helder - "O bebedor Noturno"

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