2011-11-29

a perguntas infelizes...

Enquanto aguardava a minha vez, ouvia o vizinho acidental -separava-nos uma cortina - contar a história da própria vida, com interjeições sentenciosas da profissional que o auxiliava e orientava no recobro. Foi o suficiente para ordenar ao meu cérebro que, mesmo grogue pela anestesia, fizesse o favor de não me destravar a língua. A dita auxiliar era uma ex-vizinha e já não nos víamos há alguns anos.
Regressada do exame médico, enquanto reassumia lentamente as diferentes capacidades, começou o interrogatório, sendo que comigo era mais fácil e o "ficheiro" mais rico em dados. Fui respondendo evasivamente, satisfeita comigo própria, até que veio a pergunta inesperada:
-Mas és feliz?
- É uma pergunta que não faço a mim própria. Prefiro aprofundar a consciência do que sou e das decisões que tomo. Respondi.
Acabou-se o inquérito.



2011-11-28

tem Deus alguma coisa a ver com a crise?

Como ahora se habla tanto de la crisis, todo el mundo, a todas horas y por todas partes, quiere saber quiénes son los responsables de este desastre. Unos le echan la culpa a los políticos, otros dicen que los causantes de todo esto son los banqueros, los economistas, los ricos, etc, etc. Y a todo esto se ha venido a sumar, desde hace algunos meses, un nuevo responsable. Y ese responsable es nada menos que Dios. O eso es lo que se da a entender. Porque hay quienes aseguran que la causa de la crisis está en el olvido de Dios. Porque, como hemos abandonado las creencias religiosas, de forma que ya es demasiada la gente que no se acuerda de Dios y de sus mandamientos, por eso nos hemos hecho más egoístas, más codiciosos, más comodones y nos hemos puesto a vivir por encima de nuestras posibilidades. Por eso, el olvido de Dios nos ha hundido en esta miseria de crisis, de la que vamos a salir solamente el día que Dios quiera, como se dice en algunas hojas parroquiales o publicaciones parecidas.
Sin entrar en más profundidades, el lenguaje y las explicaciones que acabo de reproducir tienen un inconveniente que me preocupa: todo eso puede dar pie a que haya gente - quizá mucha gente - que, a partir de semejante discurso, en vez de acercarse a Dios, lo que haga sea alejarse más de Él. Es malo asociar a Dios con las desgracias, por ejemplo con los terremotos, las sequías, las enfermedades y todo lo malo que nos puede ocurrir en la vida. Hacer a Dios responsable del sufrimiento humano es una falta de respeto a Dios. Y además es una solemne mentira. Porque si Dios es el responsable de los males y las desgracias, ¿cómo nos atrevemos a decir que Dios es bueno y nos quiere? ¿Es que un padre, que quiere a sus hijos, les manda sufrimientos y desgracias para mostrarles así su cariño? Y que nadie me diga que Dios "no quiere" los males, sino que "los permite", para que así nos santifiquemos mediante el aguante y la paciencia. ¡Por favor! Permitir tanto sufrimiento es la prueba más clara de que quien hace eso, tiene muy malas entrañas. La lógica más elemental nos dice que el que permite tanto mal, es que debe ser muy malo.
Lo de los males y las desgracias tiene su explicación en que el mundo es como es, con sus limitaciones y contadas posibilidades. Y a eso hay que añadir la inclinación al mal que todos los humanos tenemos en nuestros sentimientos y deseos más comunes.
Pero, en el caso de la crisis que estamos sufriendo, hay que decir algo más. Los que peor lo están pasando son las víctimas de los que manejan el gran capital mundial. De donde resulta que los más culpables de la crisis son los que más están ganando y mejor lo están pasando. Entonces, ¿en qué quedamos? ¿Ahora va a ser verdad que los pobres, por ser pobres, son los que más merecido tienen el castigo de Dios? Esto sí que no cuadra, por muchas vueltas que le demos al asunto.
La primera petición, que le hacemos a Dios en el Padrenuestro, es: "santificado sea tu nombre". Sea cual sea el sentido más técnico y profundo que tenga esa petición, por lo menos viene a decir que el primer deseo de todo buen cristiano debe ser éste: "no utilicemos nunca el nombre de Dios para lo que no debe usarse". El nombre de Dios se utiliza mal cuando se blasfema. Pero también cuando se invoca a Dios para explicar o justificar criterios o formas de conducta que impulsan a la gente a alejarse de Dios, a hacer daño a los demás o simplemente a causar sufrimiento a quien sea y como sea.

José Maria Castillo

daqui

onde colocar a confiança - uma reflexão para os dias de hoje em que os meios de comunicar se multiplicam

E que dizer da confiança?
Se confio em alguém a quem olho nos olhos, posso continuar a confiar nele quando não o vejo e quando um alçapão de musgo nos separa? É relativamente fácil confiar em alguém que ao mesmo tempo vigiamos, ou pelo menos podemos vigiar, talvez também seja possível confiar em alguém à distância, mas confiar plenamente em alguém quando estamos dentro da toca e o outro está cá fora, ou seja, em mundos diferentes, acho que isso é impossível. Mas também não é preciso chegar a tal ponto de dúvida, basta pensar nos inúmeros acasos da vida que, durante a minha descida à toca ou depois dela, podem impedir o confidente de cumprir o seu dever, e nas consequências imprevisíveis do seu mais pequeno impedimento. Não, tudo somado, não me devo queixar de estar sozinho e não ter ninguém em quem possa confiar. De facto, assim não perco nenhuma das vantagens e provavelmente poupo-me aos inconvenientes. Mas só posso confiar em mim e na toca.

Franz Kafka in "A Toca"

2011-11-27

sou do fado

Fado das bocas lindas: Minha luz:

Porque hoje é Domingo

Lá do alto dos céus, repara, e contempla a tua santa e gloriosa morada.
Onde estão o teu zelo e a tua valentia?
Onde está a emoção das tuas entranhas?
Já se esgotaram as tuas ternuras para comigo?
...
Quem dera que rasgásseis os céus e descesses,
derretendo os montes com a tua presença.


Isaías, 63

2011-11-24

um testemunho para inscrever no dia de hoje

[Meu o testamento]
Meu o testamento
o que possuo na memória de outros
que me transcenderam
e o que me custou a declarar
a quem – cerrados dentes –
tinha horizontes,
ilhas por cartografar
e sendo um dos poucos neste mundo
digno do seu nome,
não lamentarei,
antes lhe calçarei sandálias de ouro,
minhas calças por provar ainda.
Um destino de nunca acabar
dou-lhe por aumento
de uma força que nos una a todos.
Sim – não desistamos!
Sim – não nos magoemos!
Antes lembremos o pronunciamento
com Che Guevara e com mestre Heráclito!
Tudo flui
como num rio outro
e todos os rios cessam no mar.
Os inimigos poderão ser muitos.
Com todos eles estaremos a par.
É no mar de móveis horizontes
que nos juntaremos
a sós com os elementos
água, céu e fogo.
Meu o testamento
a quem o dito, a quem o testemunho,
a quem o transmito,
antes mesmo de iludir a forma
de que me revisto.
O estilo será outro, mas a forma
é imortal
e chama-se alma.
Que ma tomem os que ainda pressinto
terem o íntegro
poder de audácia
revolucionária
por nunca se satisfazerem com o mínimo
neles apenas surto
de começos sempre no plural.
A quem transmito o meu testamento,
cabe, piedoso,
distribuí-lo entre os mais escolhidos,
os que sonharam não serem vencidos,
os que sonharam
voltar um dia ao país natal,
bemaventurados
de nobre escolha e firme propósito:
Um dia livre
de miseráveis concessões políticas;
um dia ímpar
que nos redima para toda a vida;
um dia igual
ao das minhas-nossas gerações futuras.
O meu desejo:
Que o meu país se encontre de novo.
Que se anuncie Portugal!

Ruy Cinatti, daqui
26/2/75

projecto

Saber distinguir o mundo que se vê daquilo que o mundo é.

2011-11-22

Debaixo D'água

fomos salvos na gratuidade



Pelo amor em que crê, porque compreendeu o seu sinal, o homem foi levado ao campo aberto da liberdade para amar. Se o filho pródigo não tivesse acreditado no amor previdente de seu pai, não teria podido pôr-se a caminho para regressar ao lar - mesmo se o amor paternal o recebe, depois, de um modo que ele jamais teria podido sonhar. Decisivo aqui é que o pecador ouviu falar de um amor que se poderia dirigir a ele e, de facto, assim é; não é ele que pretende mudar as disposições de Deus, Deus é que sempre viu nele, o pecador sem amor, o filho amado, Deus é que o mirou e avaliou em função deste amor.

Hans Urs von Baltahsar in "Só o amor é digno de fé"

no tempo de todos os cansaços

O desafio da Igreja prende-se, assim, com a própria forma de apresentação do seu discurso. Não se trata de adequar o produto ao público. Trata-se de apresentar a sua mensagem como o que de facto é: uma resposta aos problemas do ser humano. Isso implica uma mudança de linguagem e implica tomar consciência da dimensão universal desta história em que estamos metidos.

daqui

2011-11-20

Across The Universe - RARE- John Lennon- Ravi Shankar

Maria Madalena, não chores

Eco Tardio 

sós com a nossa loucura e a flor preferida,
vemos que não há mais nada sobre que escrever.
ou antes, é preciso escrever sobre as mesmas coisas de sempre,
do mesmo modo, repetindo vezes sem conta as mesmas coisas,
para que o amor continue e a pouco e pouco vá mudando.
colmeias e formigas têm de ser eternamente reexaminadas
e a cor do dia aplicada
centenas de vezes e variada do verão para o inverno
para que o seu ritmo desça ao de uma autêntica
sarabanda e ela aí se feche sobre si mesma, viva e em paz.
só nessa altura a crónica desatenção
das nossas vidas nos poderá envolver, conciliadora
e com um olho posto naquelas longas opulentas sombras amareladas
que falam tão fundo para o nosso mal preparado conhecimento
de nós próprios, máquinas falantes dos nossos dias.

- John AshberyUma Onda e Outros Poemas
(Quetzal Editores – 1992).


resgatado daqui

2011-11-14

questões essenciais

Encontram-se aqui expressas algumas questões que considero pertinentes. Cada vez é mais difícil resistir a formas de vida que nos desviam do essencial. Não falta quem se empenhe em pensar e, até, a decidir por nós. Algumas vezes,  sob a forma de boas intenções. Mas nem todas o são. E convém descobrir-lhes as motivações.
Eis algumas questões de orientação para quem se quiser dar ao trabalho:

Somos realmente livres? Somos realmente livres num mundo que diarimente nos bombardeia com mensagens, ameaças, slogans que pretendem impedir-nos de pensar e assim condicionar as nossas decisões?
A liberdade é um conceito individual ou social?
Num mundo em mudança  como sobreviver sem deixar de se ser o mesmo? Adaptamo-nos ou negamo-nos a nós mesmos?





porque sim

a ler

Algumas fracções do capital terão sempre lugar garantido no tal contrato que rompe o laço social, claro. Os pobres podem esperar migalhas da mesa, já que as selectivas políticas para pobres são sempre pobres políticas, políticas residuais desenhadas para perpetuar as desigualdades, a pobreza, a punição e todos os preconceitos de classe, ao contrário das políticas universais, que são as únicas decentes porque com potencial político redistributivo.

aqui

2011-11-13

sem título

Tadao Ando - Igreja da Luz

Osaka, Japão

Porque hoje é domingo

14«Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. 15A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu. 16Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. 17Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. 18Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.19Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. 20Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: 'Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.' 21O senhor disse-lhe: 'Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.'22Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: 'Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.' 23O senhor disse-lhe: 'Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.'24Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: 'Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. 25Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.' 26O senhor respondeu-lhe: 'Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. 27Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.' 28'Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. 29*Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. 30*A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.'»

Mt 25,14-30
O centro da mensagem evangélica, por mais que a queiramos domesticar e pôr ao serviço dos nossos interesses egóicos, é para que não desperdicemos a vida que nos é dada como dom.
É perfeitamente secundário a quantidade de talentos ou insuficiências de que somos portadores. O principal é que, o temos e somos, é sempre para colocar ao serviço.

2011-11-12

do destino



Ode ao Gato  

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos"

2011-11-08

as coisas que se dizem


Nem o cão Milu escapa. Tadinho.
O poema conciso 
 
Porque és tão curto? Já não amas, como noutros
Tempos, o cântico? Nesse tempo , ainda jovem,
Quando em dias de esperança cantavas,
Nunca encontravas o fim.
 
Como a minha sorte, assim é minha canção. Queres-te
banhar, feliz, no pôr do Sol? Já passou! E a
Terra é fria e o pássaro da noite sibila,
Incómodo, perante os teus olhos.

Friedrich Hölderlin

os porquês da fé

No discurso religioso, não faltam explanações e considerandos acerca do que é a fé e porque razão (ou razões) uns a têm e outros não.
Afirma-se que a fé é um dom. Deus chama. E cada um, conscientemente e livremente,  dá, ou não, resposta ao "chamamento" de Deus. Considerando nesta tese que a fé é um acto pessoal.
Sem desconsiderar esse enunciado - porque ninguém  poderá responder por outrém no acto de fé - considero, antes, a fé como um dom comunitário. Expressa-se no discurso e na acção dos diferentes grupos religiosos, mas não está cativa deles. A fé estás presente no mundo dos homens. Considero isto mais importante e vital do que ter resposta para a pergunta: porque é que uns têm e outros  não?

2011-11-06

que sentido para a eternidade

É reconhecida a dificuldade de viver o tempo presente  - o que é um contra-senso  porque é o único de que dispomos -, também o foi para as primeiras comunidades cristãs. Depois da experiência pascal todas as expectativas se centravam na promessa da parusia.
A força estabilizadora inerente à faculdade de prometer sempre foi conhecida na nossa tradição. Podemos encontrá-la no sistema legal romano, na inviolabilidade de acordos e tratados; ou podemos atribuir a sua descoberta a Abraão, o homem de Ur cuja história na versão bíblica  revela tão grande inclinação para celebrar pactos que é como se tivesse deixado a sua terra exclusivamente para por à prova na vastidão do mundo o poder da promessa recíproca até que o próprio Deus consentiu finalmente em firmar com ele uma Aliança (Hanna Arendt in "A condição Humana").
O presente está, então, sempre repleto do poder da promessa. Mas, também diz Hanna Arendt, na solidão e no isolamento [o perdão e] a promessa não chegam a ter realidade: são no máximo um papel que a pessoa encena para si mesma.
É no presente que se concretiza, nas diferentes especificidades biológicas, emocionais, afectivas, racionais e espirituais, a nossa humanidade.

november

porque hoje é domingo

12Radiante e inalterável é a sabedoria;
facilmente se deixa ver por aqueles que a amam,
e encontrar por aqueles que a buscam.
13Antecipa-se a manifestar-se aos que a desejam.14Quem por ela madruga não se cansará:
há-de encontrá-la sentada à sua porta.
15Meditar nela é prudência consumada,
e aquele que não dorme por causa dela
depressa estará livre de inquietação.
16*Pois ela própria vai à procura dos que são dignos dela,
pelos caminhos lhes aparece com benevolência

Sab 6, 12-16

2011-11-05

caprina condição, melhor dizendo; meditação sobre a nossa condição europeia




Poema(s) da cabra

Nas margens do Mediterrâneo
não se vê um palmo de terra
que a terra tivesse esquecido
de fazer converter em pedra.

Nas margens do Mediterrâneo
Não se vê um palmo de pedra
que a pedra tivesse esquecido
de ocupar com sua fera.

Ali, onde nenhuma linha
pode lembrar, porque mais doce,
o que até chega a parecer
suave serra de uma foice,

não se vê um palmo de terra
por mais pedra ou fera que seja,
que a cabra não tenha ocupado
com sua planta fibrosa e negra.

1

A cabra é negra. Mas seu negro
não é o negro do ébano douto
(que é quase azul) ou o negro rico
do jacarandá (mais bem roxo).

O negro da cabra é o negro
do preto, do pobre, do pouco.
Negro da poeira, que é cinzento.
Negro da ferrugem, que é fosco.

Negro do feio, às vezes branco.
Ou o negro do pardo, que é pardo.
disso que não chega a ter cor
ou perdeu toda cor no gasto.

É o negro da segunda classe.
Do inferior (que é sempre opaco).
Disso que não pode ter cor
porque em negro sai mais barato.
2

Se o negro quer dizer noturno
o negro da cabra é solar.
Não é o da cabra o negro noite.
É o negro de sol. Luminar.

Será o negro do queimado
mais que o negro da escuridão.
Negra é do sol que acumulou.
É o negro mais bem do carvão.

Não é o negro do macabro.
Negro funeral. Nem do luto.
Tampouco é o negro do mistério,
de braços cruzados, eunuco.

É mesmo o negro do carvão.
O negro da hulha. Do coque.
Negro que pode haver na pólvora:
negro de vida, não de morte.


3

O negro da cabra é o negro
da natureza dela cabra.
Mesmo dessa que não é negra,
como a do Moxotó, que é clara.

O negro é o duro que há no fundo
da cabra. De seu natural.
Tal no fundo da terra há pedra,
no fundo da pedra, metal.

O negro é o duro que há no fundo
da natureza sem orvalho
que é a da cabra, esse animal
sem folhas, só raiz e talo,

que é a da cabra, esse animal
de alma-caroço, de alma córnea,
sem moelas, úmidos, lábios,
pão sem miolo, apenas côdea. 


4

 Quem já encontrou uma cabra
que tivesse ritmos domésticos?
O grosso derrame do porco,
da vaca, do sono e de tédio?

Quem encontrou cabra que fosse
animal de sociedade?
Tal o cão, o gato, o cavalo,
diletos do homem e da arte?

A cabra guarda todo o arisco,
rebelde, do animal selvagem,
viva demais que é para ser
animal dos de luxo ou pajem.

Viva demais para não ser,
quando colaboracionista,
o reduzido irredutível,
o inconformado conformista. 


5

A cabra é o melhor instrumento
de verrumar a terra magra.
Por dentro da serra e da seca
não chega onde chega a cabra.

Se a serra é terra, a cabra é pedra.
Se a serra é pedra, é pedernal.
Sua boca é sempre mais dura
que a serra, não importa qual.

A cabra tem o dente frio,
a insolência do que mastiga.
Por isso o homem vive da cabra
mas sempre a vê como inimiga.

Por isso quem vive da cabra
e não é capaz do seu braço
desconfia sempre da cabra:
diz que tem parte com o Diabo. 


6

Não é pelo vício da pedra,
por preferir a pedra à folha.
É que a cabra é expulsa do verde,
trancada do lado de fora.

A cabra é trancada por dentro.
Condenada à caatinga seca.
Liberta, no vasto sem nada,
proibida, na verdura estreita.

Leva no pescoço uma canga
que a impede de furar as cercas.
Leva os muros do próprio cárcere:
prisioneira e carcereira.

Liberdade de fome e sede
da ambulante prisioneira.
Não é que ela busque o difícil:
é que a sabem capaz de pedra. 


7

A vida da cabra não deixa
lazer para ser fina ou lírica
(tal o urubu, que em doces linhas
voa à procura da carniça).

Vive a cabra contra a pendente,
sem os êxtases das decidas.
Viver para a cabra não é
re-ruminar-se introspectiva.

É, literalmente, cavar
a vida sob a superfície,
que a cabra, proibida de folhas,
tem de desentranhar raízes.

Eis porque é a cabra grosseira,
de mãos ásperas, realista.
Eis porque, mesmo ruminando,
não é jamais contemplativa. 


8

O núcleo de cabra é visível
por debaixo de muitas coisas.
Com a natureza da cabra
outras aprendem sua crosta.

Um núcleo de cabra é visível
em certos atributos roucos
que têm as coisas obrigadas
a fazer de seu corpo couro.

A fazer de seu couro sola,
a armar-se em couraças, escamas:
como se dá com certas coisas
e muitas condições humanas.

Os jumentos são animais
que muito aprenderam com a cabra.
O nordestino, convivendo-a,
fez-se de sua mesma casta. 


9

O núcleo de cabra é visível
debaixo do homem do Nordeste.
Da cabra lhe vem o escarpado
e o estofo nervudo que o enche.

Se adivinha o núcleo de cabra
no jeito de existir, Cardozo,
que reponta sob seu gesto
como esqueleto sob o corpo.

E é outra ossatura mais forte
que o esqueleto comum, de todos;
debaixo do próprio esqueleto,
no fundo centro de seus ossos.

A cabra deu ao nordestino
esse esqueleto mais de dentro:
o aço do osso, que resiste
quando o osso perde seu cimento.


* 

O Mediterrâneo é mar clássico,
com águas de mármore azul.
Em nada me lembra das águas
sem marca do rio Pajeú.

As ondas do Mediterrâneo
estão no mármore traçadas.
Nos rios do Sertão, se existe,
a água corre despenteada.

As margens do Mediterrâneo
parecem deserto balcão.
Deserto, mas de terras nobres
não da piçarra do Sertão.

Mas não minto o Mediterrâneo
nem sua atmosfera maior
descrevendo-lhe as cabras negras
em termos da do Moxotó.


Texto extraído do livro "João Cabral de Melo Neto - Obra completa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1994, pág. 254.

2011-11-03

há vida depois dos cinquenta

Enquanto as descobertas não têm efeito nos humanos, podemos sempre tentar outras vias. Sabendo que, mais grave que o envelhecimento físico, é entregar-se à passividade e rotina diárias.
Não é que a rotina seja em si um mal, mas se é impedimento para revelar as capacidades e potencialidades que possuímos, torna-se um empecilho a remover. E com que facilidade caímos em situações de rotina ruinosas: quer nos gestos exteriores quer na vivência da nossa interioridade e relação com os outros.
Não se vencem hábitos de rotina com atitudes voluntaristas e repentinas. O mais certo que se consegue é que, depois de algumas (poucas) tentativas, se caia nos velhos hábitos. 
Uma atitude mais produtiva é a de pacientar porque envolve esforço e atenção. Não se fecha à mudança. Espera que a mesma ocorra no tempo devido. Sabendo que nesse tempo incorrem inúmeros ponderáveis.

Le temps qui reste

2011-11-02

pouco importa quantas tardes foram

 
Expressão

Passei a tarde nisto;
a procurar, cá dentro,
um verso que me exprimisse.
Mas nunca o disse...

(E tão ceguinho sou, tão pouco afeito,
a conhecer o que faço
que só agora vejo que esse esboço
de Som que me abortou antes dos lábios
é um verso já feito...)


Sebastião da Gama,
Itinerário Paralelo




sinais dos tempos

a oposição inteligente. E com sentido.


adenda:
O texto integral da Comissão Nacional Justiça e Paz