2011-11-24

um testemunho para inscrever no dia de hoje

[Meu o testamento]
Meu o testamento
o que possuo na memória de outros
que me transcenderam
e o que me custou a declarar
a quem – cerrados dentes –
tinha horizontes,
ilhas por cartografar
e sendo um dos poucos neste mundo
digno do seu nome,
não lamentarei,
antes lhe calçarei sandálias de ouro,
minhas calças por provar ainda.
Um destino de nunca acabar
dou-lhe por aumento
de uma força que nos una a todos.
Sim – não desistamos!
Sim – não nos magoemos!
Antes lembremos o pronunciamento
com Che Guevara e com mestre Heráclito!
Tudo flui
como num rio outro
e todos os rios cessam no mar.
Os inimigos poderão ser muitos.
Com todos eles estaremos a par.
É no mar de móveis horizontes
que nos juntaremos
a sós com os elementos
água, céu e fogo.
Meu o testamento
a quem o dito, a quem o testemunho,
a quem o transmito,
antes mesmo de iludir a forma
de que me revisto.
O estilo será outro, mas a forma
é imortal
e chama-se alma.
Que ma tomem os que ainda pressinto
terem o íntegro
poder de audácia
revolucionária
por nunca se satisfazerem com o mínimo
neles apenas surto
de começos sempre no plural.
A quem transmito o meu testamento,
cabe, piedoso,
distribuí-lo entre os mais escolhidos,
os que sonharam não serem vencidos,
os que sonharam
voltar um dia ao país natal,
bemaventurados
de nobre escolha e firme propósito:
Um dia livre
de miseráveis concessões políticas;
um dia ímpar
que nos redima para toda a vida;
um dia igual
ao das minhas-nossas gerações futuras.
O meu desejo:
Que o meu país se encontre de novo.
Que se anuncie Portugal!

Ruy Cinatti, daqui
26/2/75

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