2011-12-29

O Outro lado

Aqui se fica para sempre,
Tem-se os pés gelados.
Dorme-se à vontade,
As unhas crescem como garras.


Deixa-se um rastro para trás,
Mas a memória não supõe
A estrada percorrida
E o rastro se dissolve.

Não se canta mais, já não se evoca.
A poesia está muda,
Nobremente sepultada no dilúvio
Que purifica e destrói o brasão dos fatos.

A felicidade brota do cansaço,
Desmancha uma aliança íntima,
Desbota cartas, retratos e viagens.
O temporal lava a carne gasta.

Nada se sabe a respeito do passado,
Ninguém se lembra,
Melhor não se lembrar,
Não revolver os despojos.

Abandona-se toda a bagagem.
Nenhum espólio, nenhuma saudade.
Abre-se uma vala estreita
Onde antes se podia pisar.

Acontece, enfim,
Tira-se a máscara.
E os olhos (cerrados) compreendem :
Aqui é leve a eternidade.

Mariana Ianelli, aqui
Adio sistematicamente a decisão e tudo acaba por ficar na mesma. Além da enorme carga de trabalho que acarretaria para mim, seria a coisa mais perigosa que imaginar se pode. Na altura, quando comecei a construir a toca, podia trabalhar nela com relativa tranquilidade, o risco não era muito maior do que em qualquer lado, mas hoje seria praticamente o mesmo que chamar a atenção para a existência da toca, hoje já não é possível. Sinto uma certa alegria, uma certa emoção, perante esta primeira obra. E se a minha toca fosse alvo de um grande ataque, que tipo de entrada poderia salvar-me? Uma entrada pode iludir, confundir, baralhar o atacante, e esta também faz isso tudo, se for necessário. Mas se quero enfrentar um ataque mesmo forte, tenho de procurar reunir todas as forças do corpo e da alma - isso é evidente. Portanto a entrada pode ficar como está. A toca tem tantos pontos fracos causados pela Natureza que pode ficar com mais este, que é obra das minhas mãos e de que, apesar de só muito tarde me ter apercebido dele, tenho agora perfeita consciência. Com tudo isto não quero dizer evidentemente que esta fragilidade não me apoquente de vez em quando, para não dizer sempre. Se nos meus passeios habituais evito esta parte da toca é principalmente porque me é penoso olhar para ela, porque nem sempre estou disposto a encarar as debilidades da minha toca, apesar de ter plena consciência delas.

Franz Kafka, A Toca, pags 18;19
Tradução-Francisco Agarez 



2011-12-22

2011-12-19

sem dualismos

Na relação com Deus, a exclusividade absoluta e a inclusividade absoluta identificam-se. Aquele que entra na relação absoluta não se preocupa com mais nada isolado, nem com coisas ou entes, nem com a terra ou o céu, pois tudo está incluído na relação. Entrar na relação pura não significa prescindir de tudo, mas sim ver tudo no TU; não é renunciar ao mundo mas sim proporcionar-lhe fundamentação. Afastar o olhar do mundo não auxilia a proximidade com Deus; olhar fixamente para ele também não faz aproximar de Deus, porém, aquele que contempla o mundo em Deus, está na presença D'Ele. Nada abandonar, ao contrário, incluir tudo, o mundo na sua totalidade, no TU, atribuir ao mundo o seu direito e a sua verdade, não compreender nada fora de Deus, mas apreender tudo nele.

Martin Buber "Eu e Tu"

2011-12-18

não iludem mais convencimentos pessoais

Quem é que ainda se ilude com a afirmação:Garante não conhecer "casos de pedofilia na Igreja em Portugal"? Nem retira qualquer gravidade e responsabilidade (aos abusos cometidos dentro da instituição Igreja Católica) sabermos que "estudos recentes feitos na América mostram que 90% dos casos de pedofilia estão na família".
A forma da Igreja se organizar no espaço social e as diferentes relações de domínio e poder, ainda continuam a favorecer que tais actos  continuem a acontecer.

porque hoje é domingo

2011-12-16

na relação

Quando, seguindo o nosso caminho, encontramos um homem que, seguindo o seu caminho, vem ao nosso encontro, temos conhecimento somente da nossa parte do caminho, e não da sua, pois esta vivenciamos somente no encontro.
Do evento perfeito da relação conhecemos, por tê-la vivido, a nossa saída e a nossa parte do caminho. A outra acontece-nos, e nós não a conhecemos.
Ela só acontece no encontro. É, na verdade,  uma presunção da nossa parte, falar sobre ela como se fosse de algo além do encontro.
O que nos deve ocupar, aquilo pelo que nos devemos interessar, não é a outra parte, mas a nossa; não é a graça mas a vontade. A graça diz-nos respeito, na medida em que avançamos para ela e aguarda-nos a sua presença.; ela não é o nosso objecto.

Martin Buber - "Eu e Tu"




2011-12-13

a concurso



O jardim apresenta a concurso uma imagem que não necessita legenda. Mas pode bem figurar como aviso: cultivar o riso contra tudo o que nos desumaniza.

2011-12-12

hoje e sempre

 (Deborah Kerr - "Narciso Negro")

Ter emoções de chita, ou de seda, ou de brocado! Ter emoções descritíveis assim! Ter emoções descritíveis!

Fernando Pessoa, "O Livro do Desassossego" 

2011-12-06



Ó majestoso Condor dos Andes,
leva-me ao meu lar, nos Andes,
Ó Condor.

prisioneiros



"Aos seus olhos, a devastação que tinha varrido o recinto de jogos da Chancellor e Indian Hill não era um absurdo malicioso da natureza mas sim um grande crime de sua própria autoria, que lhe custou tudo o que um dia possuíra e lhe arruinou a vida. Em alguém como Bucky, o sentimento de culpa pode parecer absurdo mas é de facto inevitável. Uma pessoa como ele está condenada. Nada que faça corresponde ao que idealizou. Nunca sabe onde termina a sua responsabilidade. Não confia nos seus limites porque, vergado ao peso de uma inabalável bondade natural que não lhe permite resignar-se ao sofrimento dos outros, nunca irá reconhecer que tem limites sem que isso espicace a sua culpa."

"Lançou o dardo vezes seguidas naquela tarde, cada lançamento suave e poderoso, cada lançamento acompanhado daquela mistura ressoante de grito e grunhido, e cada um, para nosso gáudio, indo aterrar vários metros à frente do anterior. Correndo com o dardo no ar, estendendo o braço lançador para trás do corpo, puxando o braço lançador até ao ponto mais alto, na vertical do ombro, em que ia largar o dardo - e lançando-o então como uma explosão -, aos nossos olhos ele era invencível."


Dois pequenos fragmentos do livro Némesis de Philip Roth. A história de um homem que, no período histórico da Segunda Grande Guerra, a par da mobilização dos jovens da sua idade, assiste impotente a uma epidemia de poliomielite para a qual ainda não existe cura nem vacina. Um jovem a quem a vida já tinha marcado com perdas importantes, mas não tinha apagado a bondade natural nem o sentido do dever.
Perante tantas e tão importantes perdas havia que encontrar o(s) culpado(s). E eles são muito evidentes para uma pessoa com o seu carácter: Ele próprio e Deus.

Uma personagem complexa que nos empurra para a leitura da realidade do que somos e como somos no mundo.



2011-12-04

Lux Feminae



"há quantos anos, há quantos longos meses desisti de renascer?"




2011-12-03

no labirinto da vida

De repente dou comigo a não perceber o meu plano anterior. No que antes fazia todo o sentido não descortino agora sentido nenhum, paro outra vez de trabalhar e paro também de escutar, já não quero descobrir sinais de aumento de ruído, estou farto de descobertas, abandono tudo, já me daria por feliz se conseguisse apaziguar o meu conflito interior. De novo me deixo levar para longe das minhas galerias, chego a outras cada vez mais distantes, que desde o meu regresso já não via nem esgravatava com as minhas unhas, cujo silêncio é interrompido pela minha chegada e depois desce sobre mim. Não me rendo, apresso-me a seguir em frente, não faço ideia do que procuro, provavelmente só ganhar tempo. Afasto-me tanto que dou comigo no labirinto, sinto-me tentado a escutar debaixo do alçapão de musgo; coisas tão distantes, de momento tão distantes, despertam o meu interesse. Avanço até lá acima e escuto. Silêncio profundo; como é bom estar aqui, lá fora ninguém quer saber da minha toca, cada qual trata dos seus problemas, que não têm nada que ver com os meus; como foi que eu consegui isto? Este lugar, junto ao alçapão de musgo, é talvez o único na minha toca onde agora posso escutar e não ouvir nada. Uma inversão completa da situação dentro da toca, aquele que até agora era o lugar do perigo transformou-se num lugar de paz, enquanto a praça-forte se viu mergulhada no torvelinho do mundo e dos seus perigos.

Franz Kafka in "A TOCA"

sair do conforto da fé que não se questiona

2011-12-02

O Retorno






Acabei de ler o romance da Dulce Maria Cardoso intitulado "O Retorno". Parece que muitos portugueses leram, ou pelo menos compraram, porque estive mais de duas semanas à espera que o meu exemplar me fosse enviado.

Para mim, a leitura de "O Retorno" teve o sabor de uma viagem ao tempo da adolescência relembrado pelos factos históricos que o livro relata: as imagens da televisão a mostrar as levas de retornados a chegar ao aeroporto, os contentores de que ouvíamos falar onde vinham os seus diversos pertences - os que os tinham e podiam trazer - uma colega ou outra que aparecia no espaço da escola e levava logo o rótulo de retornada.
Mas o que me agradou bastante no livro, foi a opção da autora  pôr como relator um adolescente do sexo masculino. No meu tempo de adolescente, raparigas e rapazes classificavam-se mutuamente - nós considerávamos limitados os elementos do sexo oposto - e assim ficávamos com a ideia de que sabíamos tudo uns dos outros.
No livro, a autora retrata o protagonista como um  adolescente que, a par dos diferentes elementos do seu crescimento - a pertença ao grupo,  a descoberta da sexualidade -, resolve a seu modo, a falta e saudade que sente do pai (fixa a ideia de que o pai morreu e não volta mais) e toma o propósito de assumir ele o papel de proteger a mãe doente e a irmã que até é mais velha.
Uma leitura que valeu muito a pena.