2011-12-29

Adio sistematicamente a decisão e tudo acaba por ficar na mesma. Além da enorme carga de trabalho que acarretaria para mim, seria a coisa mais perigosa que imaginar se pode. Na altura, quando comecei a construir a toca, podia trabalhar nela com relativa tranquilidade, o risco não era muito maior do que em qualquer lado, mas hoje seria praticamente o mesmo que chamar a atenção para a existência da toca, hoje já não é possível. Sinto uma certa alegria, uma certa emoção, perante esta primeira obra. E se a minha toca fosse alvo de um grande ataque, que tipo de entrada poderia salvar-me? Uma entrada pode iludir, confundir, baralhar o atacante, e esta também faz isso tudo, se for necessário. Mas se quero enfrentar um ataque mesmo forte, tenho de procurar reunir todas as forças do corpo e da alma - isso é evidente. Portanto a entrada pode ficar como está. A toca tem tantos pontos fracos causados pela Natureza que pode ficar com mais este, que é obra das minhas mãos e de que, apesar de só muito tarde me ter apercebido dele, tenho agora perfeita consciência. Com tudo isto não quero dizer evidentemente que esta fragilidade não me apoquente de vez em quando, para não dizer sempre. Se nos meus passeios habituais evito esta parte da toca é principalmente porque me é penoso olhar para ela, porque nem sempre estou disposto a encarar as debilidades da minha toca, apesar de ter plena consciência delas.

Franz Kafka, A Toca, pags 18;19
Tradução-Francisco Agarez 



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