2011-12-03

no labirinto da vida

De repente dou comigo a não perceber o meu plano anterior. No que antes fazia todo o sentido não descortino agora sentido nenhum, paro outra vez de trabalhar e paro também de escutar, já não quero descobrir sinais de aumento de ruído, estou farto de descobertas, abandono tudo, já me daria por feliz se conseguisse apaziguar o meu conflito interior. De novo me deixo levar para longe das minhas galerias, chego a outras cada vez mais distantes, que desde o meu regresso já não via nem esgravatava com as minhas unhas, cujo silêncio é interrompido pela minha chegada e depois desce sobre mim. Não me rendo, apresso-me a seguir em frente, não faço ideia do que procuro, provavelmente só ganhar tempo. Afasto-me tanto que dou comigo no labirinto, sinto-me tentado a escutar debaixo do alçapão de musgo; coisas tão distantes, de momento tão distantes, despertam o meu interesse. Avanço até lá acima e escuto. Silêncio profundo; como é bom estar aqui, lá fora ninguém quer saber da minha toca, cada qual trata dos seus problemas, que não têm nada que ver com os meus; como foi que eu consegui isto? Este lugar, junto ao alçapão de musgo, é talvez o único na minha toca onde agora posso escutar e não ouvir nada. Uma inversão completa da situação dentro da toca, aquele que até agora era o lugar do perigo transformou-se num lugar de paz, enquanto a praça-forte se viu mergulhada no torvelinho do mundo e dos seus perigos.

Franz Kafka in "A TOCA"

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