2011-12-06

prisioneiros



"Aos seus olhos, a devastação que tinha varrido o recinto de jogos da Chancellor e Indian Hill não era um absurdo malicioso da natureza mas sim um grande crime de sua própria autoria, que lhe custou tudo o que um dia possuíra e lhe arruinou a vida. Em alguém como Bucky, o sentimento de culpa pode parecer absurdo mas é de facto inevitável. Uma pessoa como ele está condenada. Nada que faça corresponde ao que idealizou. Nunca sabe onde termina a sua responsabilidade. Não confia nos seus limites porque, vergado ao peso de uma inabalável bondade natural que não lhe permite resignar-se ao sofrimento dos outros, nunca irá reconhecer que tem limites sem que isso espicace a sua culpa."

"Lançou o dardo vezes seguidas naquela tarde, cada lançamento suave e poderoso, cada lançamento acompanhado daquela mistura ressoante de grito e grunhido, e cada um, para nosso gáudio, indo aterrar vários metros à frente do anterior. Correndo com o dardo no ar, estendendo o braço lançador para trás do corpo, puxando o braço lançador até ao ponto mais alto, na vertical do ombro, em que ia largar o dardo - e lançando-o então como uma explosão -, aos nossos olhos ele era invencível."


Dois pequenos fragmentos do livro Némesis de Philip Roth. A história de um homem que, no período histórico da Segunda Grande Guerra, a par da mobilização dos jovens da sua idade, assiste impotente a uma epidemia de poliomielite para a qual ainda não existe cura nem vacina. Um jovem a quem a vida já tinha marcado com perdas importantes, mas não tinha apagado a bondade natural nem o sentido do dever.
Perante tantas e tão importantes perdas havia que encontrar o(s) culpado(s). E eles são muito evidentes para uma pessoa com o seu carácter: Ele próprio e Deus.

Uma personagem complexa que nos empurra para a leitura da realidade do que somos e como somos no mundo.



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