(con)vencido 2011
2011-12-30 em 12/30/2011 09:18:00 PM
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O Outro lado
Aqui se fica para sempre,
Tem-se os pés gelados.
Dorme-se à vontade,
As unhas crescem como garras.
Mas a memória não supõe
A estrada percorrida
E o rastro se dissolve.
A poesia está muda,
Nobremente sepultada no dilúvio
Que purifica e destrói o brasão dos fatos.
Desmancha uma aliança íntima,
Desbota cartas, retratos e viagens.
O temporal lava a carne gasta.
Ninguém se lembra,
Melhor não se lembrar,
Não revolver os despojos.
Nenhum espólio, nenhuma saudade.
Abre-se uma vala estreita
Onde antes se podia pisar.
Tira-se a máscara.
E os olhos (cerrados) compreendem :
Aqui é leve a eternidade.
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Franz Kafka, A Toca, pags 18;19
Tradução-Francisco Agarez
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Pisa na Fulô
2011-12-28 em 12/28/2011 08:40:00 PM
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desengano
Já o expliquei: escrevo aqui muita mentira, criei uma personagem que, a muitos, causa nojo, a outros bacoca admiração; minto, exagero, invento. Vem a conversa a propósito dos homens que me escrevem a propor casório, a confessar paixões, a pedir encontros e das mulheres que, supondo-me com um pé lá e outro cá, me propõem o maravilhoso mundo do lesbianismo. Às queridas leitoras agradeço a sugestão, mas atrai-me o género fraco, é uma vergonha, bem sei, mas faz-me falta o penduricalho que os homens têm entre as pernas, é um pedaço extraordinário de carne, um músculo magnífico, não há vibrador ou dildo que se lhe compare....
Pois mente, minto, mentimos, todos os dias...sempre, a nós próprios (e, na sequência, aos outros), porque mudar dói. Não é uma "cena" virtual, é na vidinha de todos os dias.
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de volta ao Paraíso
2011-12-27 em 12/27/2011 09:20:00 PM
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A todos os visitantes do jardim, os melhores votos de Feliz Natal.
imagem-Almada Negreiros "Maternidade"
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aconteceu-me
2011-12-21 em 12/21/2011 10:44:00 PM
réplica ao Luís
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é das estastísticas
2011-12-20 em 12/20/2011 09:48:00 PM
Na actualidade, uma em cada três pessoas, é cristã. São números.
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sem dualismos
2011-12-19 em 12/19/2011 08:50:00 PM
Na relação com Deus, a exclusividade absoluta e a inclusividade absoluta identificam-se. Aquele que entra na relação absoluta não se preocupa com mais nada isolado, nem com coisas ou entes, nem com a terra ou o céu, pois tudo está incluído na relação. Entrar na relação pura não significa prescindir de tudo, mas sim ver tudo no TU; não é renunciar ao mundo mas sim proporcionar-lhe fundamentação. Afastar o olhar do mundo não auxilia a proximidade com Deus; olhar fixamente para ele também não faz aproximar de Deus, porém, aquele que contempla o mundo em Deus, está na presença D'Ele. Nada abandonar, ao contrário, incluir tudo, o mundo na sua totalidade, no TU, atribuir ao mundo o seu direito e a sua verdade, não compreender nada fora de Deus, mas apreender tudo nele.
Martin Buber "Eu e Tu"
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não iludem mais convencimentos pessoais
2011-12-18 em 12/18/2011 01:19:00 PM
Quem é que ainda se ilude com a afirmação:Garante não conhecer "casos de pedofilia na Igreja em Portugal"? Nem retira qualquer gravidade e responsabilidade (aos abusos cometidos dentro da instituição Igreja Católica) sabermos que "estudos recentes feitos na América mostram que 90% dos casos de pedofilia estão na família".
A forma da Igreja se organizar no espaço social e as diferentes relações de domínio e poder, ainda continuam a favorecer que tais actos continuem a acontecer.
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doce saudade
2011-12-17 em 12/17/2011 06:24:00 PM
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na relação
2011-12-16 em 12/16/2011 11:00:00 PM
Quando, seguindo o nosso caminho, encontramos um homem que, seguindo o seu caminho, vem ao nosso encontro, temos conhecimento somente da nossa parte do caminho, e não da sua, pois esta vivenciamos somente no encontro.
Do evento perfeito da relação conhecemos, por tê-la vivido, a nossa saída e a nossa parte do caminho. A outra acontece-nos, e nós não a conhecemos.
Ela só acontece no encontro. É, na verdade, uma presunção da nossa parte, falar sobre ela como se fosse de algo além do encontro.
O que nos deve ocupar, aquilo pelo que nos devemos interessar, não é a outra parte, mas a nossa; não é a graça mas a vontade. A graça diz-nos respeito, na medida em que avançamos para ela e aguarda-nos a sua presença.; ela não é o nosso objecto.
Martin Buber - "Eu e Tu"
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só o que és
2011-12-15 em 12/15/2011 08:41:00 PM
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o que permanece para além do primeiro olhar
2011-12-14 em 12/14/2011 07:00:00 PM
La Belle et la Bête, de Jean Cocteau
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a concurso
2011-12-13 em 12/13/2011 08:12:00 PM
O jardim apresenta a concurso uma imagem que não necessita legenda. Mas pode bem figurar como aviso: cultivar o riso contra tudo o que nos desumaniza.
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hoje e sempre
2011-12-12 em 12/12/2011 09:03:00 PM
Ter emoções de chita, ou de seda, ou de brocado! Ter emoções descritíveis assim! Ter emoções descritíveis!
Fernando Pessoa, "O Livro do Desassossego"
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com humor
2011-12-08 em 12/08/2011 04:00:00 PM
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parvas, às vezes
O senhor António Lobo Antunes traça aqui um retrato feminino. Eu escrevo um retrato feminino e não o... caríssimos leitores.
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Ó majestoso Condor dos Andes,
leva-me ao meu lar, nos Andes,
Ó Condor.
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prisioneiros
"Aos seus olhos, a devastação que tinha varrido o recinto de jogos da Chancellor e Indian Hill não era um absurdo malicioso da natureza mas sim um grande crime de sua própria autoria, que lhe custou tudo o que um dia possuíra e lhe arruinou a vida. Em alguém como Bucky, o sentimento de culpa pode parecer absurdo mas é de facto inevitável. Uma pessoa como ele está condenada. Nada que faça corresponde ao que idealizou. Nunca sabe onde termina a sua responsabilidade. Não confia nos seus limites porque, vergado ao peso de uma inabalável bondade natural que não lhe permite resignar-se ao sofrimento dos outros, nunca irá reconhecer que tem limites sem que isso espicace a sua culpa."
"Lançou o dardo vezes seguidas naquela tarde, cada lançamento suave e poderoso, cada lançamento acompanhado daquela mistura ressoante de grito e grunhido, e cada um, para nosso gáudio, indo aterrar vários metros à frente do anterior. Correndo com o dardo no ar, estendendo o braço lançador para trás do corpo, puxando o braço lançador até ao ponto mais alto, na vertical do ombro, em que ia largar o dardo - e lançando-o então como uma explosão -, aos nossos olhos ele era invencível."
Dois pequenos fragmentos do livro Némesis de Philip Roth. A história de um homem que, no período histórico da Segunda Grande Guerra, a par da mobilização dos jovens da sua idade, assiste impotente a uma epidemia de poliomielite para a qual ainda não existe cura nem vacina. Um jovem a quem a vida já tinha marcado com perdas importantes, mas não tinha apagado a bondade natural nem o sentido do dever.
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terapia
2011-12-05 em 12/05/2011 10:33:00 PM
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Lux Feminae
2011-12-04 em 12/04/2011 11:35:00 AM
"há quantos anos, há quantos longos meses desisti de renascer?"
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no labirinto da vida
2011-12-03 em 12/03/2011 02:43:00 PM
De repente dou comigo a não perceber o meu plano anterior. No que antes fazia todo o sentido não descortino agora sentido nenhum, paro outra vez de trabalhar e paro também de escutar, já não quero descobrir sinais de aumento de ruído, estou farto de descobertas, abandono tudo, já me daria por feliz se conseguisse apaziguar o meu conflito interior. De novo me deixo levar para longe das minhas galerias, chego a outras cada vez mais distantes, que desde o meu regresso já não via nem esgravatava com as minhas unhas, cujo silêncio é interrompido pela minha chegada e depois desce sobre mim. Não me rendo, apresso-me a seguir em frente, não faço ideia do que procuro, provavelmente só ganhar tempo. Afasto-me tanto que dou comigo no labirinto, sinto-me tentado a escutar debaixo do alçapão de musgo; coisas tão distantes, de momento tão distantes, despertam o meu interesse. Avanço até lá acima e escuto. Silêncio profundo; como é bom estar aqui, lá fora ninguém quer saber da minha toca, cada qual trata dos seus problemas, que não têm nada que ver com os meus; como foi que eu consegui isto? Este lugar, junto ao alçapão de musgo, é talvez o único na minha toca onde agora posso escutar e não ouvir nada. Uma inversão completa da situação dentro da toca, aquele que até agora era o lugar do perigo transformou-se num lugar de paz, enquanto a praça-forte se viu mergulhada no torvelinho do mundo e dos seus perigos.
Franz Kafka in "A TOCA"
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sair do conforto da fé que não se questiona
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O Retorno
2011-12-02 em 12/02/2011 11:59:00 AM
Acabei de ler o romance da Dulce Maria Cardoso intitulado "O Retorno". Parece que muitos portugueses leram, ou pelo menos compraram, porque estive mais de duas semanas à espera que o meu exemplar me fosse enviado.
Para mim, a leitura de "O Retorno" teve o sabor de uma viagem ao tempo da adolescência relembrado pelos factos históricos que o livro relata: as imagens da televisão a mostrar as levas de retornados a chegar ao aeroporto, os contentores de que ouvíamos falar onde vinham os seus diversos pertences - os que os tinham e podiam trazer - uma colega ou outra que aparecia no espaço da escola e levava logo o rótulo de retornada.
Mas o que me agradou bastante no livro, foi a opção da autora pôr como relator um adolescente do sexo masculino. No meu tempo de adolescente, raparigas e rapazes classificavam-se mutuamente - nós considerávamos limitados os elementos do sexo oposto - e assim ficávamos com a ideia de que sabíamos tudo uns dos outros.
No livro, a autora retrata o protagonista como um adolescente que, a par dos diferentes elementos do seu crescimento - a pertença ao grupo, a descoberta da sexualidade -, resolve a seu modo, a falta e saudade que sente do pai (fixa a ideia de que o pai morreu e não volta mais) e toma o propósito de assumir ele o papel de proteger a mãe doente e a irmã que até é mais velha.
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o santo do dia: Antonio Banderas
2011-12-01 em 12/01/2011 11:51:00 AM
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vamos lá a ver se...
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