2012-01-31

de qualquer modo o tempo é de secura

“Nada es original. Roba de cualquier lugar que haga resonar a tu inspiración o que alimente tu imaginación. Devora películas viejas o nuevas, música, libros, pinturas, fotografías, poemas, sueños, conversaciones aleatorias, obras de arquitectura, puentes, señales callejeras, árboles, nubes, cuerpos de agua, luz y sombras. Elige para robar sólo las cosas que te hablen directamente al alma. Si lo haces de este modo, tu trabajo (y tus robos) serán auténticos. La autenticidad es invalorable; la originalidad es inexistente. Y no te molestes en ocultar tus hurtos -celébralos si tienes ganas. En todo caso, recuerda siempre lo que dijo Jean-Luc Godard: “No se trata de de dónde tomas las cosas, se trata de a dónde las llevas”.

respiguei daqui
 


a resistir a todas as vagas de frio

2012-01-30

lapidar

Um Homem Pacífico

Estendendo as mãos para fora da cama, Plume admirou-se de não encontrar a parede. "Ora esta", pensou ele, "se calhar as formigas comeram-na...", e tornou a adormecer.
Pouco depois, a mulher agarrou-o e sacudiu-o:"Olha, madraço", disse ela "enquanto estavas a dormir, roubaram-nos a casa." Com efeito, um céu intacto espraiava-se por todos os lados. "Bem, o que está feito, está feito", pensou ele.
Pouco depois, ouviu-se um barulho. Era o comboio que se abeirava deles a toda a brida. "Com tanta pressa", pensou ele, "há-de chegar com certeza antes de nós", e tornou a adormecer.
Depois, o frio despertou-o. Estava alagado em sangue. Alguns pedaços da sua mulher jaziam junto dele. "Com o sangue" pensou ele, "surgem sempre imensos contratempos; se aquele comboio não tivesse passado eu seria muito feliz. Mas, uma vez que já passou...", e tornou a adormecer.
- Vamos lá a ver, - dizia o juiz - como é que o senhor explica o facto de a sua mulher ter sido ferida ao ponto de a encontrarem dividida em oito pedaços, sem que o senhor, que estava ao lado, pudesse fazer um gesto para impedir o sucedido, sem sequer se ter apercebido. Eis o mistério. Está aí o cerne da questão.
"A esse respeito não o posso ajudar", pensou Plume, e voltou a adormecer.
- A execução fica marcada para amanhã. Acusado, tem alguma coisa a acrescentar?
- Desculpe - disse ele - Não estive a par do assunto. E voltou a adormecer.

Henri Michaux

Tradução de Margarida Vale de Gato
Edição "Relógio D'Água"

Marcello Gonçalves - Tristorosa

2012-01-25

leituras



O próprio autor - Henry Miller - considerava O Colosso de Maroussi como o seu melhor livro. Pelo menos, é o que escreve Carlos Vaz Marques que prefacia este mesmo livro, editado pela "Tinta da China".
Escreve também no prefácio, como desafio ao leitor, que se ao ler este livro não sentir nem por um instante o irreprimível impulso de embarcar de imediato a caminho da Grécia, isso só pode significar que é alguém imune ao sortilégio das palavras, alguém para quem a literatura de nada serve.
Pela parte que me toca, mais do que o desejo de visitar a Grécia - até porque, para já, ficaria mesmo ao nível do sonho - e os locais que o autor descreve de modo tão belo e expressivo sinto a vontade, agora mesmo que terminei, de voltar a reiniciar a leitura do Colosso de Massouri, para absorver de modo mais completo a riqueza humana que Henry Miller expressa neste livro magnífico. Um livro que mantém uma actualidade evidente, apesar de escrito a meio do século passado.


Mais um excerto:


Os indígenas são uns miseráveis, explorados pelo polvo que estende os seus tentáculos desde Londres, Paris, Berlim, Tóquio, Nova Iorque, Chicago, até aos picos gelados da Islândia e às extensões selvagens da Patagónia. Os vestígios desta suposta civilização são espalhados e despejados à toa onde quer que cheguem os compridos e viscosos tentáculos. Ninguém está a ser civilizado, nada está a ser alterado no verdadeiro sentido da palavra. Há quem use garfos e facas quando antes comia com as mãos ; há quem tenha luzes eléctricas no seu casebre quando antes tinha um candeeiro de querosene ou a vela de cera; há quem tenha catálogos da Sears-Roebuck e uma Bíblia Sagrada na prateleira, onde antes havia uma espingarda ou um mosquete; há quem tenha reluzentes revólveres automáticos em vez de maças; há quem utilize dinheiro em vez de conchas e cauris; há quem tenha chpéus de palha quando não precisa deles; há quem tenha Jesus Cristo e não saiba o que fazer com Ele. Mas toda esta gente, de uma ponta à outra, é inquieta, insatisfeita, invejosa e doente no seu íntimo. Toda esta gente sofre de cancro e lepra na alma. Aos mais ignorantes e degenerados será pedido que usem uma arma e combatam por uma civilização que nada lhes trouxe para além de infelicidade e degradação. Numa língua que não conseguem entender, os altifalantes vociferam as desastrosas notícias da vitória e derrota. Vivemos num mundo louco e, quando nos afastamos ligeiramente, parece ainda mais louco do que o habitual. O avião traz a morte; o rádio traz a morte; a metralhadora traz a morte; as conservas trazem a morte; o tractor traz a morte; o padre traz a morte; as escolas trazem a morte; as leis trazem a morte; a electricidade traz a morte; a canalização traz a morte; o gramofone traz a morte; os garfos e as facas trazem a morte; os livros trazem a morte; a nossa própria respiração traz a morte, a nossa própria língua, o nosso pensamento, o nosso dinheiro, o nosso amor, a nossa caridade, o nosso sistema de saneamento público, a nossa alegria. Pouco importa se somos amigos ou inimigos, pouco importa se nos dizemos japoneses, turcos, russos, franceses, ingleses, alemães, ou americanos, aonde quer que vamos, onde quer que caia a nossa sombra, onde quer que respiremos, nós envenenamos e destruímos.

2012-01-24

como um rio



Estou na naquela posição delicada de uma pessoa que tem de ser cuidadosa para não desejar nada que não queira realmente. Devo admitir que o efeito tem sido eu desejar cada vez menos coisas. O único desejo que se acentua cada vez mais é o de dar. A sensação muito real de poder e riqueza que tal origina também é, de certo modo, assustadora - pois tem uma lógica que parece demasiado simples. É só quando olho à minha volta e me apercebo de que a grande maioria dos meus semelhantes faz um esforço desesperado por se agarrar ao que possui ou por aumentar as suas posses, que começo a perceber que a sabedoria de dar não é tão simples como parece. Dar e receber são no fundo a mesma coisa, dependem de se levar uma vida aberta ou fechada. Quem vive abertamente passa a ser um meio, um transmissor; vivendo assim, como um rio, experimenta-se a vida em toda a sua plenitude, flui-se com a corrente da vida e morre-se para viver outra vez como um oceano.


Henry Miller in "O Colosso de Maroussi"


2012-01-23

se a patetice pagasse imposto...

Na primeira impressão tive vontade de fazer humor, mas depressa perdi a vontade de tal coisa. Não é possível aligeirar o facto de um bispo se referir do seguinte modo: "A las mujeres de mi iglesia siempre les digo lo mismo: 'A quien tienes que cuidar más es a tu marido, él es el hijo más pequeño de la casa'. Ya sabéis por qué lo digo. Lo tienen que cuidar, no se pueden descuidar”.
Como equilibrar um relação conjugal onde a mulher assume um papel maternalista em relação ao cônjuge? 

 Lamentáveis também os considerandos sobre a homossexualidade. É só mais um exemplo de uma hierarquia arredada do comum viver da sociedade em que se insere.


Resgate

E é sempre o jardim de lilás do outro lado do rio. Se a alma
pergunta se fica longe, a resposta será: do outro lado do rio, não
este, mas aquele.

(A Octavio Paz)

Alejandra Pizarnik

2012-01-22

a tensão de viver de forma equilibrada

O que tenho a dizer-vos, irmãos,
é que o tempo é breve.
Doravante,
os que têm esposas procedam como se as não tivessem;
os que choram, como se não chorassem;
os que andam alegres, como se não andassem;
os que compram, como se não possuíssem;
os que utilizam este mundo, como se realmente não o utilizassem.
De facto, o cenário deste mundo é passageiro.

1 Coríntios 7,29-31

2012-01-21

LHASA -LA FRONTERA

e é assim...

Não possuindo a clarividência, de que muitos iluminados se julgam possuidores, para ter a certeza, em cada decisão  tomada, que é a opção certa, vou experimentando alegria e dor de tal modo misturadas, que a consolação acaba por vir daí mesmo: é esta a sorte de quem vive.

a boa notícia

  " 17E disse-lhes Jesus: «Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens.» 18Deixando logo as redes, seguiram-no."



(... )
Desde una comprensión no-dual, sin embargo, esa misma expresión puede “traducirse” como “venid adonde yo estoy”, es decir, “venid al territorio de la identidad compartida que es también el vuestro”.
 
Es el “maestro interior” el que nos recuerda la voz del Anhelo y nos reclama para que podamos encontrarnos con quienes realmente somos.
 
Desde ahí podremos ser “pescadores de hombres”, ayudando a vivir, favoreciendo su “despertar”. El texto juega con la imagen del “mar” (el abismo) como el lugar del “mal”. “Pescar hombres” no significa hacer proselitismo, sino liberarlos de todo aquello que les esclaviza, de todo tipo de mal. En la certeza de que la liberación ocurrirá en la medida en que nos hagamos conscientes de nuestra verdadera identidad.
 
Ello requiere, dice la narración, dejarlo todo. Ese “todo” no es otra cosa que la identificación con el ego, como condición para abrirnos a nuestra verdad más profunda.
 
Nos hemos reducido al ego cada vez que hemos pensado que somos solo el yo individual. Al hacer así, nos veremos a nosotros mismos y a toda la realidad a través del “programa” característico del propio ego. Por eso, el primer paso quizás sea comprender cómo funciona ese programa para, así, poder desactivarlo. Subrayo algunos elementos que me parecen decisivos:
 
  • El ego es el “personaje”, al que nos reducimos cuando nos pensamos que somos solo el cuerpo-mente.
 
  • Si analizamos con cuidado, veremos que el ego es solo un haz de deseos y de miedos: no hay otra cosa en él.
 
  • La creencia básica del ego puede formularse de este modo: “Estoy separado”.
 
  • El objetivo que pretende es solo asegurar su fortalecimiento y pervivencia, frente a lo que considera su mayor enemigo: la anulación y la muerte.
 
  • La ley que lo mueve es la del deseo/aversión. El ego etiqueta todo lo que sucede de acuerdo a estas categorías: agradable / desagradable. Lo que pertenece al primer grupo suscita en él deseo; lo del segundo, rechazo.
 
  • Su programa elemental puede resumirse en dos palabras: defensa / ataque.
 
  • Tal programa ocasiona necesariamente enfrentamiento, miedo, culpa y sufrimiento. 
         
El laberinto del ego se convierte en una pesadilla sin salida…, hasta que no nos hagamos conscientes de la falsedad de su programa. Y la consciencia empieza con la observación de su funcionamiento, con la toma de distancia de la mente.
 
Es esa consciencia la que nos hace descubrir que el ego es solo una creación (ficción) mental y que su primera creencia es radicalmente errónea: No somos seres separados, sino más bien “formas” diferentes de una misma y única Realidad.
 
Al dejar de identificarnos con el ego, empezamos a ver: estamos “siguiendo” a Jesús, estamos descubriendo que somos no-separados de él, que compartimos su misma y única Identidad. Nos hemos “convertido” y hemos palpado el “reino de Dios”. Sin ninguna duda, se trata, no de una, sino de la Buena Noticia.
 
          ¿Quiénes somos?
 
·         Somos infinitamente más que el ego: somos Conciencia, Comprensión, Amor, Gozo… (aunque nuestra mente no lo “sepa”, del mismo modo que una célula no “sabe” que es cuerpo).
 
·         Quienes somos no puede ser afectado por nada de lo que nos pueda ocurrir: estamos siempre a salvo.
 
·         En ese nivel profundo de la identidad compartida, todo ser es absolutamente inocente.
 
Nos resistimos a vernos así, porque el “programa” grabado intensamente en nuestro inconsciente, fruto del momento evolutivo de la especie y fruto de toda la educación recibida –el programa del ego-, hace que nos hayamos reducido a su propia percepción. Tendemos a mirar y entender la realidad de acuerdo con las pautas del programa.
 
Y el programa nos dice permanente e insistentemente que todo es imperfecto; que el presente no está bien, y que tenemos que estar “pendientes” del futuro.
 
Sabemos que el ego es enemigo del presente, porque en él desaparece. Por eso huye constantemente, refugiándose en la “ilusión” del futuro… que nunca llegará. Pase lo que pase, el ego estará siempre insatisfecho, porque la insatisfacción lo define.
 
Pues bien, frente a los engaños y las trampas en que nos encierra el programa del ego, la palabra de Jesús nos dice que “se ha cumplido el plazo” y que “el reino de Dios está cerca”. Todo está ya aquí y ahora. Basta “salir” de la mente y de sus programas para “venir” a lo que siempre hemos sido, la Identidad que habíamos “olvidado” y hacia la que nos llama, una y otra vez, nuestro maestro interior.
 
Esa es la Buena Noticia. 


Enrique Martínez Lozano
                                                 www.enriquemartinezlozano.com

2012-01-19

Rui Costa 1972-2012

"Bar do Acaso"

Escrevo, decerto, por qualquer
razão inútil que não vais nunca entender.
Surgem as frases, vês, desconhecidos
que no bar do acaso encontro e são
as tuas mãos a escrever por mim.

Minto-lhes, digo que só te amo
a ti, eles riem e pedem-me pra ficar,
que sim, que a noite ainda é uma pequena
musa no breve altar venal do coração.
Fico. Dou à boca o jeito do cigarro

e é em fumo que transformo o corredor
de imagens, metáforas, pequenos desvios de
ritmo mais pobre ou queda sempre a pique
em sentido nenhum. Às vezes, sabes, é mais
difícil descobrir que o amor, como o cigarro,
quando se acende é que começa
a iluminar o fim.

Rui Costa in "As limitações do amor são infinitas" 

co-autor neste blogue 
ver referências também aqui.

2012-01-18

um dia compreenderemos todas as coisas

Sonhos de amor

3 Ela
1No meu leito, toda a noite,
procurei aquele que o meu coração ama;
procurei-o e não o encontrei.
2*Vou levantar-me e dar voltas pela cidade:
pelas praças e pelas ruas, procurarei
aquele que o meu coração ama.
Procurei-o e não o encontrei.


Cântico dos Cânticos 3, 1-2

a sedução das ligações improváveis

2012-01-17

este espanto íntimo




MONSTRUOS

Todos los días rezo esta oración
al levantarme:

Oh Dios,
no me atormentes más.
Dime qué significan
estos espantos que me rodean.
Cercado estoy de monstruos
que mudamente me preguntan,
igual, igual que yo les interrogo a ellos.
Que tal vez te preguntan,
lo mismo que yo en vano perturbo
el silencio de tu invariable noche
con mi desgarradora interrogación.
Bajo la penumbra de las estrellas
y bajo la terrible tiniebla de la luz solar,
me acechan ojos enemigos,
formas grotescas me vigilan,
colores hirientes lazos me están tendiendo:
¡son monstruos,
estoy cercado de monstruos!

No me devoran.
Devoran mi reposo anhelado,
me hacen ser una angustia que se desarrolla a sí misma, me hacen hombre,
monstruo entre monstruos.
No, ninguno tan horrible
como este Dámaso frenético,
como este amarillo ciempiés que hacia ti clama con
    todos sus tentáculos enloquecidos,
como esta bestia inmediata
transfundida en una angustia fluyente;
no, ninguno tan monstruoso
como esta alimaña que brama hacia ti,
como esta desgarrada incógnita
que ahora te increpa con gemidos articulados,
que ahora te dice:
«Oh Dios,
no me atormentes más,
dime qué significan
estos monstruos que me rodean
y este espanto intimo que hacia ti gime en la noche.»


Dámaso Alonso

2012-01-16

para se fugir de uma dor, escolhe-se um cento.

Realizo as mais variadas experiências, boas e más, mas não descubro uma lei geral nem um método infalível de descida. Por isso ainda não desci pela entrada verdadeira e estou em pânico porque o tenho de fazer em breve. Não excluo de todo a decisão de ir mais longe e recomeçar a triste vida de outros tempos, que não me proporcionava segurança absolutamente nenhuma, que era uma amálgama indestrinçável de perigos e por isso não permitia identificar nem temer nenhum perigo específico, como a comparação entre a minha toca segura e a vida fora dela me ensina constantemente. É claro que tomar semelhante decisão seria uma perfeita loucura, só justificável pelo facto de eu estar demasiado tempo a viver numa liberdade sem sentido; a toca continua a pertencer-me, só tenho de dar uma passo para estar em segurança. E então atiro para trás das costas todas as dúvidas, e em pleno dia corro para o alçapão da entrada, decidido a levantá-lo, mas não sou capaz, passo por ele e atiro-me deliberadamente para cima de um matagal eriçado de espinhos, para me castigar, para me castigar de um delito que não sei qual é.


Franz Kafka in "A Toca"
Luis Rosales, retrato de Manuel Machado



Porque todo es igual y tú lo sabes

has llegado a tu casa y has cerrado la puerta
con aquel mismo gesto con que se tira un día,
con que se quita la hoja atrasada al calendario
cuando todo es igual y tú lo sabes.
Has llegado a tu casa,
y, al entrar,
has sentido la extrañeza de tus pasos
que estaban ya sonando en el pasillo antes de que llegaras,
y encendiste la luz, para volver a comprobar
que todas las cosas están exactamente colocadas, como estarán dentro de un año,
y después,
te has bañado, respetuosa y tristemente, lo mismo que un suicida,
y has mirado tus libros como miran los árboles sus hojas,
y te has sentido solo,
humanamente solo,
definitivamente solo porque todo es igual y tú lo sabes.

Luis Rosales

2012-01-15

doucement

o jardim como metáfora (sobretudo; descobrir e cuidar o jardim interior)

O Evangelho é um jardim

Não será de todo irrelevante que a primeira coisa que Deus nos pergunte seja: «Onde estás?» (Gn 3, 9). Na verdade, peregrinos no tempo, nós existimos sempre num determinado espaço. Por mais que vivamos num mundo crescentemente global, somos e vivemos sempre num certo local.
Também a nossa experiência cristã pode ser descrita por um mapa onde se registam os locais do encontro com Deus e se traçam os percursos da Sua passagem. O nosso seguimento de Jesus não se deixa descrever apenas pelos momentos desse encontro (quando?), mas pede ainda que se apontem os seus lugares (onde?). Há, de facto, um quê de topografia do sagrado a que o cristianismo não poderá renunciar. A Sagrada Escritura regista, ela própria, um número assinalável de lugares onde, por excelência, se dá essa epifania de Deus.
Um desses lugares é o jardim. Talvez nem sempre disso tenhamos a devida consciência, mas há entre a experiência cristã e o espaço do jardim uma íntima relação: do jardim original do Éden (Gn 2-3), ao jardim minimal das Oliveiras (Jo 18, 1); do jardim perfumado do Cântico dos Cânticos (Cant 4, 16), ao jardim de pasto verdejante cantado pelo salmista (Sl 23); do jardim silencioso onde Jesus foi sepultado, ao mesmo jardim onde Ele próprio, uma vez ressuscitado, aparece como «jardineiro» (Jo 19, 40–20, 16). Há ainda jardins em tantas conversões pessoais, como a de S. Agostinho (Confissões VIII), e em tantas empresas comunitárias, como nos mosteiros, casas construídas à volta de um claustro/jardim. Como uma metáfora aberta, o jardim surge pois como um desses lugares em que Deus ama encontrar-se com a humanidade. Ele representa simbolicamente uma «feliz harmonia entre céu e terra, entre graça e esforço, entre natureza e cultura» (cf. E. Salmann).

Não sei bem se o jardim surge como lugar do sagrado porque a Deus agrade deambular por estes espaços aprazíveis, ou se porque Deus transforme em jardins os lugares por onde passa. Todavia, parece-me que na metáfora do jardim o cristianismo encontra não apenas um traço da sua identidade, mas também uma perspetiva para a sua missão: ser no mundo o que um jardim é numa cidade. Um espaço tranquilo no meio do bulício. Um lugar onde o cinzento da envolvência não abafa a cor da vida. Um local onde o ar corre fresco. Um lugar onde, apesar dos pesos da vida, se experimenta aquela «carga leve» e aquele «jugo suave» de que falava Jesus (Mt 11, 30). O Evangelho aparecerá então como aquele jardim em que sempre podemos passear, mesmo quando o inverno é severo.
P. Alexandre Palma, aqui

ao chamamento, só uma decisão pessoal pode ser resposta

4*O SENHOR chamou Samuel. Ele respondeu: «Eis-me aqui.» 5*Samuel correu para junto de Eli e disse-lhe: «Aqui estou, pois me chamaste.» Disse-lhe Eli: «Não te chamei, meu filho; volta a deitar-te.» 6O SENHOR chamou de novo Samuel. Este levantou-se e veio dizer a Eli: «Aqui estou, pois me chamaste.» Eli respondeu: «Não te chamei, meu filho; volta a deitar-te.»7Samuel ainda não conhecia o SENHOR, pois até então nunca se lhe tinha manifestado a palavra do SENHOR. 8Pela terceira vez, o SENHOR chamou Samuel, que se levantou e foi ter com Eli: «Aqui estou, pois me chamaste.» Compreendeu Eli que era o SENHOR quem chamava o menino e disse a Samuel: 9«Vai e volta a deitar-te. Se fores chamado outra vez, responde: «Fala, SENHOR; o teu servo escuta!» Voltou Samuel e deitou-se. 10Veio o SENHOR, pôs-se junto dele e chamou-o, como das outras vezes: «Samuel! Samuel!» E Samuel respondeu: «Fala, SENHOR; o teu servo escuta!» 

1ª Samuel

2012-01-13

a exorcizar os dias

Não é nada fácil a acção de me desligar dos fatalismos que  cingem os meus dias. Às investidas internas e externas, reajo como posso e sei. Por estes dias, saboreio a leitura do "Abraço" do José Luís Peixoto. Já me comovi, quase, quase, quase até às lágrimas com algumas das histórias que enchem de luz e calor este Abraço, e tomei como minha propriedade, esta expressão:"Tu és aquilo que sei sobre a ternura."
Bom é poder senti-lo, sabendo que se reporta a pessoas concretas e momentos vividos. Muitos.

2012-01-12

Haiti 12/01/2010




imagem Reuters, Janeiro 2011

Todas as noites deixo
entre os livros a minha solidão,
abro a porta aos oráculos,
fundo a minha alma com o fogo
do salmista.

                                               Que contrária
vontade de perigo me desvela,
quebra a vigilante
sede de viver na minha palavra.

                                               Todas
as noites vivo inutilmente
a frustração do dia, recupero
as horas mortas da minha liberdade,
consisto no que fui.

(Mão esquecida entre os lençóis
rasga papéis, mancha o último
pedaço do meu sonho.)

                                               Oh coração
sem ninguém – para quê
tantas páginas vãs, tantos
hinos vazios? Olha
em teu redor – que fica? Estamos
sós: toda
a vida cabe entre o calar
e o sonho. Aqui
a minha solidão é a minha alegria:
um livro, um vaso, um nada.

José Manuel Caballero Bonald 
recolhi aqui

2012-01-11

assim somos, de queda em queda

Sobretudo não acredite nos seus amigos quando lhe pedirem que seja sincero para com eles. Esperam apenas que os mantenha na boa ideia que fazem de si próprios, fornecendo-lhes uma certeza suplementar que extrairão da sua promessa de sinceridade. Como é que a sinceridade poderá ser uma condição da amizade? O gosto da verdade a todo o custo é uma paixão que nada poupa e a que nada resiste. É um vício, por vezes um conforto ou um egoísmo. Se, pois, se encontra neste caso, não hesite: prometa ser verdadeiro e minta o melhor que puder. Corresponderá ao profundo desejo deles e provar-lhes-á duplamente a sua afeição.

Albert Camus in "A Queda"

Los siete pecados capitales


Cuando creyó que se moría,
un amigo, me contó
que él era culpable de los siete pecados capitales.
Avaricia, envidia, gula, lujuria, pereza,
soberbia, ira.
Jamás me confesé, dijo. - Yo no quería
que el cura gozará más que yo
con mis pecados y por avaricia, me los guarde.
No confesé que me daban envidia las moscas que podían
volar bajo la pollera de esa mujer.
Gula, si, gula desde la primera vez que la vi,
el canibalismo no me pareció tan mal,
por lujuria o rayos X
yo siempre la veía desnuda,
como desnuda se ve la espada a pesar de la vaina.
Meterme en ella era la único que no me daba pereza,
fuera de ella yo andaba,
desganado, asueñado, como bicho, fumigado,
me arrastraba sin rumbo, ni tumbo.
y en ella estuve
más entrando que saliendo.
Hasta que cometí la soberbia
de creer que ella era yo
y una noche, loco de ira
rompí a golpes ese espejo. 


Eduardo Galeano

2012-01-10

na transitoriedade dos dias

Então, Jesus disse aos Doze: «Também vós quereis ir embora?» Respondeu-lhe Simão Pedro: «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!»

Jo, 6, 67-69

2012-01-09

esconjuro

a perceptibilidade do amor

Se Deus quer manifestar o seu amor pelo mundo, este amor deve também poder ser reconhecido pelo mundo; apesar de e justamente no seu ser-totalmente-outro. Na sua realidade íntima, o amor só pelo amor é conhecido. Para que o amor desinteressado de um amante possa por um amado egoísta ser compreendido (não só como algo de proveitoso entre outros bens, melhor do que outros, mas como aquilo que é), deve no último haver um pressentimento, um começo de amor. Assim também o contemplador de uma grande obra de arte precisa de um dom - inato ou adquirido pelo exercício - para nela perceber os valores de beleza, que a distinguem da arte menor ou do kitsch.

Hans Urs von Balthasar in "Só o amor é digno de fé"

2012-01-08

além dos sentidos

Vê como a noite cobre a terra
e a escuridão os povos.
Mas sobre ti levanta-Se o Senhor
e a sua glória te ilumina.

Isaías, 60

2012-01-07

a mística - como ordenar os medos e anseios



(Gian Lorenzo Bernini)


A atual oferta quase ilimitada de entretenimento e de tecnologia dá uma resposta excessivamente exteriorizante aos nossos reais anseios. O excesso de informação pode nos anestesiar diante dos problemas reais, da injustiça real, da pobreza real. Da mesma forma, são superficiais as soluções farmacológicas às nossas depressões, falta de energia e alegria, ou excesso de tensão e agressividade. A mística convida a mais, convida a entrar no “castelo interior”, convida a dar atenção à “terra” da nossa interioridade, que deve ser molhada para florescer. Isso exige disposição, abertura, atenção, tempo, conversão, nova forma de estar no mundo. Esse convite é feito pelo próprio Deus, “ganoso” de que o conheçamos como Deus, envolvido em nossos destinos a partir do tecido de nossas existências, de nossa história e do nosso maravilhoso universo.

Relatando Teresa de Jesus

dom

"Avóóó, con" -  é o rogo para que conte uma história,  acompanhado com um pedido de colo - e vão-se sucedendo episódios quotidianos da vida do João (personagem inventado), como as idas a ver o mar, passeios no campo etc.
Enquanto conto as histórias, surgem, sem que os chame, pensamentos de como será o Gabriel quando crescer, que adolescente será, que homem, e qual o papel que me cabe nesse crescimento. Nesta fase, com um compromisso diferente, com a distância que apenas permite uma presença próxima de alguns fins-de-semana e uns dias de férias, dedico-me com a mesma disponibilidade com que o fiz à mãe e à tia Maria, sabendo que, fazendo-o, tudo ganha sentido, tudo valeu e vale a pena. A vida é sempre um dom.

2012-01-06

exérase

 Marguerite Chapman

"...de podermos encarar este ano como uma meta que vamos cumprir e como um obstáculo que vamos ultrapassar, sairemos mais fortes deste ano difícil".

dúvida metódica

Uma vez visto

Para o homem com a flauta,
sua boca e mãos,
eu fico calada.
Me viro em dócil,
sábia de fazer com veludos
uma caixa.
O homem com a flauta
é meu susto pênsil
que nunca vou explicar,
porque flauta é flauta,
boca é boca,
mão é mão.
Como os ratos da fábula eu o sigo
roendo inroível amor.
O homem com a flauta existe?


Adélia Prado in "Bagagem"

2012-01-04

evasão

quem ama não possui

(Mondovi, 7/11/1913 - Villeblevin, 4/01/1960)


Qualquer que fosse, aliás, a confusão aparente dos meus sentimentos, o resultado que eu obtinha era claro: mantinha as minhas afeições à minha volta para as utilizar quando quisesse. Não podia, pois, viver, confesso, senão com a condição de, sobre a terra inteira, todos os seres, ou o maior número possível, se voltarem para mim, eternamente disponíveis, privados de vida independente, prontos a responder ao meu chamamento, fosse em que momento fosse, votados, enfim, à esterilidade, até ao dia em que me dignasse favorecê-los com a minha luz. Em suma, para eu viver feliz era preciso que os seres que eu elegesse não vivessem. Só deviam receber a vida, de longe em longe, a meu bel-prazer.

Albert Camus in  "A Queda"



2012-01-03

Acção

desacreditar

Um instituto religioso católico que dispõe de mais de três milhões de euros em depósitos a prazo...não é merecedor de confiança.

com responsabilidade

Quanto mais ásperos e turbulentos se anunciam os tempos futuros, mais exigente é a missão de quem vigia e maior clarividência se pede a quem deve estar atento aos sinais dos tempos. É que neles se adivinha a germinação da novidade e discerni-la nas suas potencialidades de justiça, de solidariedade, de amor e de paz, é tarefa comum aos humanos capazes de olhar o futuro com limpidez e generosidade de coração. Isto é: sem apego ao seu interesse egoísta, sem vassalagem aos interesses dominantes e com uma vontade genuína de bem comum sustentável.
  

2012-01-01

O que quero da vida: viver (o que não é coisa pouca).

Chorinho doce

Eu já tive e perdi
uma casa,
um jardim,
uma soleira,
uma porta,
um caixão de janela com um perfil.
Eu sabia uma modinha e não sei mais.
Quando a vida dá folga, pego a querer
a soleira,
o portal,
o jardim mais a casa,
o caixão de janela e aquele rosto de banda.
Tudo impossível,
tudo de outro dono,
tudo de tempo e vento.
Então me dá choro horas e horas,
o coração amolecido como um figo na calda.

Adélia Prado

ei-los (a primeita imagem do ano)