2012-01-25

leituras



O próprio autor - Henry Miller - considerava O Colosso de Maroussi como o seu melhor livro. Pelo menos, é o que escreve Carlos Vaz Marques que prefacia este mesmo livro, editado pela "Tinta da China".
Escreve também no prefácio, como desafio ao leitor, que se ao ler este livro não sentir nem por um instante o irreprimível impulso de embarcar de imediato a caminho da Grécia, isso só pode significar que é alguém imune ao sortilégio das palavras, alguém para quem a literatura de nada serve.
Pela parte que me toca, mais do que o desejo de visitar a Grécia - até porque, para já, ficaria mesmo ao nível do sonho - e os locais que o autor descreve de modo tão belo e expressivo sinto a vontade, agora mesmo que terminei, de voltar a reiniciar a leitura do Colosso de Massouri, para absorver de modo mais completo a riqueza humana que Henry Miller expressa neste livro magnífico. Um livro que mantém uma actualidade evidente, apesar de escrito a meio do século passado.


Mais um excerto:


Os indígenas são uns miseráveis, explorados pelo polvo que estende os seus tentáculos desde Londres, Paris, Berlim, Tóquio, Nova Iorque, Chicago, até aos picos gelados da Islândia e às extensões selvagens da Patagónia. Os vestígios desta suposta civilização são espalhados e despejados à toa onde quer que cheguem os compridos e viscosos tentáculos. Ninguém está a ser civilizado, nada está a ser alterado no verdadeiro sentido da palavra. Há quem use garfos e facas quando antes comia com as mãos ; há quem tenha luzes eléctricas no seu casebre quando antes tinha um candeeiro de querosene ou a vela de cera; há quem tenha catálogos da Sears-Roebuck e uma Bíblia Sagrada na prateleira, onde antes havia uma espingarda ou um mosquete; há quem tenha reluzentes revólveres automáticos em vez de maças; há quem utilize dinheiro em vez de conchas e cauris; há quem tenha chpéus de palha quando não precisa deles; há quem tenha Jesus Cristo e não saiba o que fazer com Ele. Mas toda esta gente, de uma ponta à outra, é inquieta, insatisfeita, invejosa e doente no seu íntimo. Toda esta gente sofre de cancro e lepra na alma. Aos mais ignorantes e degenerados será pedido que usem uma arma e combatam por uma civilização que nada lhes trouxe para além de infelicidade e degradação. Numa língua que não conseguem entender, os altifalantes vociferam as desastrosas notícias da vitória e derrota. Vivemos num mundo louco e, quando nos afastamos ligeiramente, parece ainda mais louco do que o habitual. O avião traz a morte; o rádio traz a morte; a metralhadora traz a morte; as conservas trazem a morte; o tractor traz a morte; o padre traz a morte; as escolas trazem a morte; as leis trazem a morte; a electricidade traz a morte; a canalização traz a morte; o gramofone traz a morte; os garfos e as facas trazem a morte; os livros trazem a morte; a nossa própria respiração traz a morte, a nossa própria língua, o nosso pensamento, o nosso dinheiro, o nosso amor, a nossa caridade, o nosso sistema de saneamento público, a nossa alegria. Pouco importa se somos amigos ou inimigos, pouco importa se nos dizemos japoneses, turcos, russos, franceses, ingleses, alemães, ou americanos, aonde quer que vamos, onde quer que caia a nossa sombra, onde quer que respiremos, nós envenenamos e destruímos.

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