2012-01-16

para se fugir de uma dor, escolhe-se um cento.

Realizo as mais variadas experiências, boas e más, mas não descubro uma lei geral nem um método infalível de descida. Por isso ainda não desci pela entrada verdadeira e estou em pânico porque o tenho de fazer em breve. Não excluo de todo a decisão de ir mais longe e recomeçar a triste vida de outros tempos, que não me proporcionava segurança absolutamente nenhuma, que era uma amálgama indestrinçável de perigos e por isso não permitia identificar nem temer nenhum perigo específico, como a comparação entre a minha toca segura e a vida fora dela me ensina constantemente. É claro que tomar semelhante decisão seria uma perfeita loucura, só justificável pelo facto de eu estar demasiado tempo a viver numa liberdade sem sentido; a toca continua a pertencer-me, só tenho de dar uma passo para estar em segurança. E então atiro para trás das costas todas as dúvidas, e em pleno dia corro para o alçapão da entrada, decidido a levantá-lo, mas não sou capaz, passo por ele e atiro-me deliberadamente para cima de um matagal eriçado de espinhos, para me castigar, para me castigar de um delito que não sei qual é.


Franz Kafka in "A Toca"

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