2012-01-12

Todas as noites deixo
entre os livros a minha solidão,
abro a porta aos oráculos,
fundo a minha alma com o fogo
do salmista.

                                               Que contrária
vontade de perigo me desvela,
quebra a vigilante
sede de viver na minha palavra.

                                               Todas
as noites vivo inutilmente
a frustração do dia, recupero
as horas mortas da minha liberdade,
consisto no que fui.

(Mão esquecida entre os lençóis
rasga papéis, mancha o último
pedaço do meu sonho.)

                                               Oh coração
sem ninguém – para quê
tantas páginas vãs, tantos
hinos vazios? Olha
em teu redor – que fica? Estamos
sós: toda
a vida cabe entre o calar
e o sonho. Aqui
a minha solidão é a minha alegria:
um livro, um vaso, um nada.

José Manuel Caballero Bonald 
recolhi aqui

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