2012-02-28

«O Senhor DEUS ensinou-me o que devo dizer, (...)
Cada manhã desperta os meus ouvidos,
para que eu aprenda como os discípulos»


Isaías, 50,4

o cuidado com as palavras

O valor  atribuído às palavras é diferente; quando somos o receptor ou o emissor. E, com facilidade, dizemos que as palavras são secundárias, na comunicação. O que conta são os sentimentos; a intenção e razão das mesmas. Por isso,  somos dominados pela surpresa, sempre que o receptor não alcançou, ou sobrevalorizou o sentido das palavras que usámos.
A palavra não é um suplemento - é nela que pomos em comum aquilo que somos. Recorrendo à metáfora - o sentido da nascente é o mar. Nele se encontram todas as correntes. Quem não se sente atraído por um arroio de água límpida?

2012-02-27

Andrei Tarkovsky - o dom das lágrimas

Ruy Belo - nasceu neste dia, no ano de 1933


Grandeza do Homem  

Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem

 

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"

2012-02-26

porque hoje é domingo

A propósito deste post do Henrique - e na sequência de alguns pensamentos que  vaguearam no repouso deste domingo - detive-me numa recordação de infância. Já não me restam muitas. Acho que já tive mais, mas o tempo (que é sempre uma boa desculpa )  tem-se encarregado de as apagar.
Era dia do meu aniversário. Talvez o quarto ou o quinto. Aliado à efeméride, lembro o gosto, o cheiro, o calor a queimar os dedos, do pão acabado de cozer. Era assim que a nossa mãe  mostrava, que a vida não é uma sucessão de dias.

para ver e ouvir

"porque vieste perturbar-nos?"

Ahora, precisamente ahora, cuando nos debatimos en el miedo espantoso de la crisis. Y el miedo más espantoso del futuro que nos puede esperar. Ahora exactamente es cuando, por más pánico que nos dé pensarlo, es cuando estamos dando los primeros pasos decisivos para el logro de un mundo global, de una economía global, de un pensamiento único global.... Aspiramos a que un poder económico más fuerte nos someta más a todos. Anhelamos tener un poder político más sólido, más unido, más eficaz, más contundente... ¿Para qué? Para que nos quiten de encima el peso insoportable de la libertad. Soñamos con el "milagro" (¿el alemán, el americano, el chino...?), ansiamos la presencia del "misterio" (¿el de la tecnología, la medicina, la ciencia...?), y sobre todo lo que más deseamos, la "autoridad" (¿la del político genial, un papa llovido del cielo, un hombre de excepción que se imponga ya, de una vez y para siempre, a todos los canallas y los corruptos?).


José M. Castillo in Teología sin Censura

2012-02-25


C. Th Dreyer - de naed fargen

recuperar o olhar

eu passava quase todos os dias por aquela montra. algo azul como o mar chamava a atenção. não me consigo lembrar, talvez uma blusa, uma camisa. pensava que ficaria bem a quem amava. passei tantos dias por aquela montra e um dia atravessei a cidade puxando a mão dela para lhe mostrar. havia o gosto, o sonho e o desejo. havia a necessidade de tudo partilhar. uma necessidade infantil de ser tudo a toda a hora. de nada ser meu. de tudo ser nosso.

ela viu e não gostou. como gostaremos nós do que não podemos ver?


(está aqui escrito. ao alcance do olhar)

2012-02-24

um diálogo

Teve lugar na Universidade de Oxford, ontem 23 de Fevereiro, um debate entre Richard Dawkins e Rowan Williams, moderado por Anthony Kenny, sobre o tema “A natureza dos seres humanos e a questão da sua origem última”. O debate decorreu de forma serena e nele foram abordadas, ainda que brevemente, questões importantes algumas das quais refiro a seguir.

1. Kenny perguntou a Williams se acreditava na existência de uma alma espiritual. A resposta dada por Wiliams é muito semelhante à do actual Papa quando era Cardeal e que reproduzo a seguir:
‘Ter alma espiritual’ quer dizer exactamente ser querido, conhecido e amado de modo especial por Deus; ter alma espiritual significa ser-se alguém que é chamado por Deus para um diálogo eterno e que, por isso, é capaz, por sua vez, de conhecer Deus e de Lhe responder. Aquilo que numa linguagem mais substancialista, chamamos ‘ter alma’, passamos a chamar numa linguagem mais histórica e actual, ‘ser interlocutor de Deus’ “.(J. Ratzinger, Introduçáo ao Cristianismo, Estoril:Principia, p. 259)

2. Dawkins perguntou também a Williams se a sua crença na imortalidade se baseia na existência de uma alma espiritual. Também aqui a resposta de William é semelhante à de Ratzinger:
“podemos entender de uma nova maneira a mensagem bíblica que não promete a imortalidade a uma alma dissociada do corpo, mas sim ao ser humano como um todo.” (Introdução ao Cristianismo, p. 254).
Tal como afirma também Ratzinger na mesma obra, Williams disse que o que é imortal é a relação que Deus estabelece com cada ser humano.

3. Uma outra questão que foi colocada a Williams tem a ver com o aparecimento dos primeiros seres humanos no processo evolutivo. Terá Deus criado almas para eles? Williams respondeu no mesmo sentido de Ratzinger, para o qual

“a argila tornou-se ser humano no momento em que uma criatura, pela primeira vez, mesmo de forma muito velada, foi capaz de formar uma ideia de Deus. O primeiro tu que o ser humano – por mais balbuciado que fosse – dirigiu a Deus é o momento em que o espírito se levantava no mundo.” (J. Ratzinger, “Fé na criação e teoria da evolução” em id., Credo para Hoje, Braga: Editorial Franciscana, 2007, p. 49.)

4. Dawkins perguntou a Williams por que razão os crentes ainda lêm o livro do Génesis sobre a origem do mundo em vez de lerem os livros de ciência do século XXI, pressupondo que os cristãos estão fundamentalmente desactualizados. Mas Williams deu-lhe a resposta mais óbvia: os cristãos continuam a ler o Génesis porque não procuram nele teorias científicas. Não creio porém que Dawkins deixe de continuar a fazer a pergunta.



(respiguei daqui)

O autor preferiu fazer a analogia entre as respostas de Rowan Williams e Ratzinger. Analogia que eu dispensava, mas penso que compreendo a opção.

Adenda: aqui está um vídeo do debate.


2012-02-23

porque há "um amor que nos ultrapassa"

Numa época em que muitos se perguntam «qual é verdadeiramente o sentido da minha vida?», nós, os irmãos da nossa comunidade, gostaríamos de dizer claramente: encontra-se na solidariedade com os outros, vivida em actos concretos. Tal solidariedade permite pressentir que há um amor que nos ultrapassa; leva-nos a acreditar no amor de Deus por cada ser humano.

Li, aqui

Zeca Afonso - memória viva

2012-02-21

a máscara

Sinais dos tempos e da vasta gama de meios de comunicação de que dispomos, vivemos muitas vezes na ilusão de que somos transparentes. E tudo à nossa volta, idem. Escolhemos um traço do nosso modo de ser e de agir e, pronto, somos assim. Quem nos vê e connosco convive, muitas vezes, também não ajuda.
No outro dia alguém fazia a seguinte avaliação da minha pessoa: "é uma mulher de coragem". A minha reacção emocional foi de desconforto. Havendo situações em que a coragem esteve presente, também muitas houve em que a dita não se manifestou.
Em cada um de nós, convivem muitas e diferentes forças. Instintivamente, por segurança, colocamos a máscara que melhor nos protege. Isso não é, inevitavelmente, um mal. Para nós e para os outros. É preciso é que saibamos que máscara ostentamos.

2012-02-20

"Sou um monte confuso de forças cheias de infinito"

A Melhor Maneira de Viajar é Sentir  

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam

Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,

Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte...

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chao
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,

A chuva com pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

2012-02-18

lamento



Como católica (com o que resta) lamento que se continue a insistir em modelos gastos e sem expressão na vida.
Não é que a mensagem seja totalmente errada. Para muitos empregadores de vistas curtas, o pai ou a mãe trabalhadora, só serão bem vistos na empresa, se provarem que o trabalho é a sua primeira opção.



Adenda: uma resposta masculina, aqui   

Adenda 2: Não sei se o cardeal ouviu em confissão mulheres  mães e donas de casa. Sendo os seus maiores pecados; a impaciência com os filhos e a desatenção aos maridos. Se sim, que penitência lhes deu.
Eu própria já alinhei em alguns discursos vitimistas (como lamento o tempo que perdi com eles e a paciência que delapidei aos amigos), por isso mesmo, sei que não é, apenas, a quantidade de tempo que gastamos com os que amamos que melhora a qualidade das relações.



(a imagem é retirada do Público)

quando a música se apossa do corpo



2012-02-17

orfandades

Os católicos definem o baptismo como um «segundo nascimento», um nascimento espiritual após o físico. Digamos que os «born again» vão mais longe e acreditam num terceiro nascimento, que não é já um rito infantil mas um acto maduro: a aceitação pessoal de Jesus. Muita gente faz pouco disto, mas todo o ruído vem da palavra «Jesus», porque na verdade o mundo fervilha de convertidos, de reformados, de arrependidos, servos não de Jesus mas de outros senhores, aceites com gosto, e às vezes, confesso, a natalidade é tão fecunda que dá náuseas.

Pedro Mexia, aqui
Ninguém o Tinha Amado, Afinal  

O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu.
Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo:
Os grandes vales cheios dos mesmos verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem,
estão presentes.
(E de novo o ar, que lhe faltara tanto tempo, lhe entrou fresco
nos pulmões)
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor,
uma liberdade
no peito.

Alberto Caeiro, in "O Pastor Amoroso"

2012-02-15

e estafada de números fico-me com Alegrias

buscas gozosas

Sem esquecer os meus queridos e fiéis leitores de há longo tempo, hoje, saúdo especialmente os que vêm ter a este jardim utilizando o termo "masturbação" ou, mais concretamente, "masturbação feminina". Vão todos parar aqui. E vão muito bem.
Ninguém aparece porque procurou "crise" ou "mercado". Os ícones do presente.


para questões difíceis não há um sentir fácil

E a ideia de que aqueles que um dia amámos são de certa maneira os nossos mortos, ainda que estejam vivos. Mas há ainda isto, que é terrível e admirável: saber se o culto do passado deve incluir o respeito por quem nos fez mal. E se esse respeito é humanista ou masoquista, ecuménico ou hipócrita, um apagamento ou uma reconciliação.

Pedro Mexia, aqui

2012-02-14

2012-02-10

apontamento


O esvoaçar encantatório do casal de piscos, ocorria indiferente à frieza circundante. O elemento humano era um fugaz espectador. Boa premissa para iniciar um fatigante dia de trabalho.

2012-02-07

60º aniversário da morte do poeta - Sebastião da Gama

unidade

 para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti  (Jo 17, 21a)


Como o José F. Borges não tem comentários abertos (com todo o direito e propriedade) respondo daqui mesmo a este post. O tema é-me muito caro. Respondo tendo como  ponto de partida a reflexão cristã. Uma resposta religiosa, portanto.

Parece-me que não é difícil a constatação de que a vida, que é dada viver a cada homem, e aos diferentes grupos humanos, é, por natureza, fragmentada. A esta condição, o cristianismo (não estou a referir o que as igrejas cristãs foram ao longo destes vinte séculos) propõe um sentido escatológico de unidade. Tanto para o que é a vida no presente como para aquilo que antevemos num horizonte que nos escapa.

Esta unidade não pode ser uniformidade (Paulo refere a imagem do corpo humano, e dos seus diferentes membros, para falar dela), nem fundamentada em lógicas de poder e dominação.

Ter como horizonte a unidade "para que todos sejam um" só se entende numa dinâmica amorosa e na consciência de que é contínua busca.



Rasteja e espreita
Levita e deleita
É negro. Com luz de ouro.

É branco e escuro.
Tem muito de foice
E furo.

Se tu és vidro
É punho. Estilhaça.
É murro.

Se tu és água
É tocha. É máquina
Poderosa se tu és rocha.

Um olfato que aspira
Teu rastro. Um construtor
De finitutes gastas.

É Deus.
Um sedutor nato.

Hilda Hilst

2012-02-05

do meio do desassossego


Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te conheças

Hilda Hilst

Retalhos da vida de uma mulher a viver na província

Tenho a grande sorte - no meio desse mundo conturbado por diferentes crises - de viver e trabalhar, num discreto retiro campestre onde me sinto protegida e a gozar de alguma paz. Mas, há sempre um "mas", por aqui ainda persistem alguns complexos machistas e, de vez em quando, sou confrontada com eles.
O último confronto aconteceu na passada quinta-feira. Num almoço no âmbito do trabalho, acabei sentada ao lado de um homem que debaixo daquela sensação, que a idade torna cada vez mais frequente -"conheço esta cara mas não me lembro de onde" - encontrou esta "bela" forma de estabelecer alguma proximidade:"Não é casada com fulano de tal?" e sem me deixar oportunidade de responder, reforçou:"O seu marido não é...?"
A minha resposta evidenciou o incómodo e a inoportunidade das perguntas. Nem eu era a "mulher de" nem "o marido era...".
Para equilibrar isto, e não ficar por aqui um retardado escrito feminista, concluo com o pensamento que tive a seguir (salvaguardando as devidas excepções): culpa tiveram as mulheres que se contentaram com tão pouco.

porque hoje é domingo - não ignorar a desconsolação

 Os meus dias passam mais velozes que uma lançadeira de tear e desvanecem-se sem esperança.” Job 7, 6


2012-02-03

bom fim-de-semana

primeiro, reconhecer o pântano

Se todos os cirurgiões, todos os psicanalistas, todos os médicos em geral pudessem ser afastados da sua actividade e reunidos por um breve período no grande anfiteatro de Epidauro, se pudessem discutir em paz e sossego as necessidades urgentes e fundamentais da humanidade em geral, a resposta seria rápida e unânime: REVOLUÇÃO. Uma revolução à escala mundial, de alto a baixo, em todos os países, em todas as classes, em todos os domínios da consciência. A luta não é contra a doença: a doença é um subproduto. O inimigo do homem não são os micróbios, mas o próprio homem, o orgulho, os preconceitos, a estupidez, a arrogância. Não há classe que lhe seja imune, nem sistema que ofereça uma panaceia. É necessário que cada pessoa se revolte, individualmente, contra um modo de vida que não é o seu. A revolta, para funcionar, tem de ser contínua e inexorável.

Henry Miller in "O Colosso de Maroussi", pág102

2012-02-02

Deus é amor


Não surpreende muito que a percepção de que Deus é amor, seja continuamente - e até nos vinte séculos de cristianismo - ofuscada pela do Deus Juíz Supremo, sempre mais vocacionado ao castigo, do que ao perdão e à misericórdia.
Do amor, muitas vezes, demasiadas vezes, transportamos apenas uma ideia. O que em nós ressoa é uma ideia de amar - uma construção mental que formámos, cada um à sua maneira.
Tantos de nós, e tantas vezes, somos incapazes de ir além do "amor desejo" a solicitar ou a satisfazer. Se o amor não se faz carne (dos enunciados mais belos do cristianismo), não rasga e se inscreve na vida de cada um, expresso em diferentes sinais, um Deus que é amor permanecerá - para nós e para os outros - oculto.

ambição ou, quem sabe, alienação

Deteve-se olhar e  sentimento nesta frase que li: "Progressivamente vamos aprendendo a ser mais humildes perante a realidade". Cruzei-a com a consciência de que o medo que senti, durante muito tempo, de morrer sem me realizar, desaparecera sem que desse conta - como o tempo que passa sem que o sintamos.
Tinha um amigo que dizia que o orgulho só desaparece ao fim de três dias do corpo morto e frio, duvido, pois, da solução que a mente arranjou.

2012-02-01

Uma vida de cão

Deito-me sempre muito cedo e exausto, e porém não avulta nenhum trabalho fatigante durante os meus dias.
É possível que não avulte nada.
Mas a mim o que me espanta é que me possa aguentar até à noite, e que não me veja obrigado a ir-me deitar a partir das quatro horas da tarde.
O que me fatiga de tal maneira são as minhas contínuas intervenções.
Já disse que na rua me bato com toda a gente; esbofeteio um qualquer, agarro nos seios das mulheres, e, servindo-me do pé como um tentáculo, instauro o pânico nas viaturas do Metropolitano.
Os livros são o que mais me chateia. Não deixo uma única palavra no seu sentido nem sequer na sua forma.
Apanho-a e, depois de alguns esforços, extirpo-a e desvio-a definitivamente do rebanho do seu autor.
Num capítulo há logo milhares de frases e eu tenho de as sabotar a todas. É uma necessidade.
Às vezes, certas palavras permanecem como torres. Tenho de ocupar-me delas uma e outra vez, e, já bem avançado nas minhas devastações, de repente, no rodeio de uma ideia, revejo aquela torre. Afinal não a abatera o bastante, tenho de voltar atrás e descobrir-lhe o seu veneno, e perco nisto um tempo infinito.
E depois de lido o livro inteiro, tenho pena porque não percebi nada...claro. Não pude alimentar-me de nada. Continuo magro e seco.
Eu pensava, é bom de ver, que quando tivesse destruído tudo, alcançaria o equilíbrio. É possível. Mas demora, demora muito.

Henri Michaux in "Antologia"

Tradução de Margarida Vale de Gato
Edição - Relógio D'Água

como el agua