2012-02-26

porque hoje é domingo

A propósito deste post do Henrique - e na sequência de alguns pensamentos que  vaguearam no repouso deste domingo - detive-me numa recordação de infância. Já não me restam muitas. Acho que já tive mais, mas o tempo (que é sempre uma boa desculpa )  tem-se encarregado de as apagar.
Era dia do meu aniversário. Talvez o quarto ou o quinto. Aliado à efeméride, lembro o gosto, o cheiro, o calor a queimar os dedos, do pão acabado de cozer. Era assim que a nossa mãe  mostrava, que a vida não é uma sucessão de dias.

4 comentários:

  1. Na casa da minha avó fazia-se broa ao sábado (como me lembro com saudade da festa que era quando a nossa broa - feita por encomenda, com a marca da nossa mão, ou de uma chave de ferro, ou uma cruz, ou até um naco de presunto - saía do forno, como corríamos para fora de casa fazendo saltar o pão quente de uma mão para a outra). Era o dia de fazer o pão, e de esfregar o soalho.
    À sexta-feira passava o pobre que rezava um pai-nosso sob a janela, e nós descíamos um cesto pendurado numa corda, que a minha avó preparara: pão, uma chouriça, umas moedas.
    Domingo era dia de missa e de almoço com toda a família.
    Era uma sucessão de dias, sim, mas a semana tinha uma estrutura que nos dava segurança.

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  2. por amor de deus...lembro-me de algumas cenas de pobres (acabei por me lembrar com a tua descrição)e não são nada dignificantes para o país que éramos. e somos.

    aqui eu queria referir a quebra da rotina. utilizei uma memória pessoal porque tenho pensado bastante nesta coisa de manifestarmos os afectos. e como somos diferentes a fazê-lo.

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  3. Pode ser o meu olhar infantil. E com certeza que não me dava conta do horror que era alguém ter de pedir para receber comida. Mas tenho desses pobres que passavam pela casa da minha avó uma imagem muito positiva. Eram tratados como pessoas, fazíamos parte da vida uns dos outros.
    Como o Emílio, o maluquinho da aldeia: lembro-me de uma das tardes em que apareceu, e ficámos debaixo da ramada, a falar com ele e a comer talhadas de melancia, os adultos a beber um copo de vinho e a perguntar-lhe onde guardava o dinheiro (a aldeia toda pensava que ele era rico - caso para perguntar, quem era ali o maluquinho...)

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  4. :)

    não sei o que custava a uns e a outros, parece-me que tal como as coisas estão a ficar de novo, os mais pobres dos pobres achavam natural que assim fosse e os outros também.

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