Teve lugar na Universidade de Oxford, ontem 23 de Fevereiro, um debate
entre Richard Dawkins e Rowan Williams, moderado por Anthony Kenny,
sobre o tema “A natureza dos seres humanos e a questão da sua origem
última”. O debate decorreu de forma serena e nele foram abordadas, ainda
que brevemente, questões importantes algumas das quais refiro a seguir.
1.
Kenny perguntou a Williams se acreditava na existência de uma alma
espiritual. A resposta dada por Wiliams é muito semelhante à do actual
Papa quando era Cardeal e que reproduzo a seguir:
‘Ter alma
espiritual’ quer dizer exactamente ser querido, conhecido e amado de
modo especial por Deus; ter alma espiritual significa ser-se alguém que é
chamado por Deus para um diálogo eterno e que, por isso, é capaz, por
sua vez, de conhecer Deus e de Lhe responder. Aquilo que numa linguagem
mais substancialista, chamamos ‘ter alma’, passamos a chamar numa
linguagem mais histórica e actual, ‘ser interlocutor de Deus’ “.(J.
Ratzinger, Introduçáo ao Cristianismo, Estoril:Principia, p. 259)
2.
Dawkins perguntou também a Williams se a sua crença na imortalidade se
baseia na existência de uma alma espiritual. Também aqui a resposta de
William é semelhante à de Ratzinger:
“podemos entender de uma nova
maneira a mensagem bíblica que não promete a imortalidade a uma alma
dissociada do corpo, mas sim ao ser humano como um todo.” (Introdução ao
Cristianismo, p. 254).
Tal como afirma também Ratzinger na mesma
obra, Williams disse que o que é imortal é a relação que Deus estabelece
com cada ser humano.
3. Uma outra questão que foi colocada a
Williams tem a ver com o aparecimento dos primeiros seres humanos no
processo evolutivo. Terá Deus criado almas para eles? Williams respondeu
no mesmo sentido de Ratzinger, para o qual
“a argila tornou-se
ser humano no momento em que uma criatura, pela primeira vez, mesmo de
forma muito velada, foi capaz de formar uma ideia de Deus. O primeiro tu
que o ser humano – por mais balbuciado que fosse – dirigiu a Deus é o
momento em que o espírito se levantava no mundo.” (J. Ratzinger, “Fé na
criação e teoria da evolução” em id., Credo para Hoje, Braga: Editorial
Franciscana, 2007, p. 49.)
4. Dawkins perguntou a Williams por
que razão os crentes ainda lêm o livro do Génesis sobre a origem do
mundo em vez de lerem os livros de ciência do século XXI, pressupondo
que os cristãos estão fundamentalmente desactualizados. Mas Williams
deu-lhe a resposta mais óbvia: os cristãos continuam a ler o Génesis
porque não procuram nele teorias científicas. Não creio porém que
Dawkins deixe de continuar a fazer a pergunta.
(respiguei daqui)
O autor preferiu fazer a analogia entre as respostas de Rowan Williams e Ratzinger. Analogia que eu dispensava, mas penso que compreendo a opção.
Adenda: aqui está um vídeo do debate.
um diálogo
2012-02-24 em 2/24/2012 01:56:00 PM
2 comentários:
- maria disse...
-
Olá Rita.
Ui...se só tens uma dúvida sobre o primeiro estás muito bem. ;) eu tenho muitas. Para nos entendermos minimamente temos que usar alguns conceitos. Temos o "alma" o "espiritual" etc. Eu simpatizo (uma questão de adesão interior)com uma teologia que em vez de se fixar nos conceitos de "corpo" e "alma" diz antes: o ser humano. Ou a pessoa. E acho que não há humano separado do espiritual. As formas como cada um pode dizer "Deus" são múltiplas. Mesmo não o dizendo.
Claro que há muito a estudar e dialogar sobre isto. E faz-se. Graças a Deus. :)
Entretanto já vi que no teu blogue abriste o debate.
Beijinho - Fevereiro 24, 2012 7:50 PM
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Muito bom!
Tenho uma dúvida sobre o primeiro ponto. Se a alma espiritual se inaugura no diálogo com Deus, o que existe antes desse diálogo? Uma alma que não é uma alma espiritual mas que pode tornar-se espiritual ao encetar esse caminho?
Às vezes acho que devia estudar teologia, existe aí (no mínimo) um interessantíssimo trabalho filosófico.