2012-02-24

um diálogo

Teve lugar na Universidade de Oxford, ontem 23 de Fevereiro, um debate entre Richard Dawkins e Rowan Williams, moderado por Anthony Kenny, sobre o tema “A natureza dos seres humanos e a questão da sua origem última”. O debate decorreu de forma serena e nele foram abordadas, ainda que brevemente, questões importantes algumas das quais refiro a seguir.

1. Kenny perguntou a Williams se acreditava na existência de uma alma espiritual. A resposta dada por Wiliams é muito semelhante à do actual Papa quando era Cardeal e que reproduzo a seguir:
‘Ter alma espiritual’ quer dizer exactamente ser querido, conhecido e amado de modo especial por Deus; ter alma espiritual significa ser-se alguém que é chamado por Deus para um diálogo eterno e que, por isso, é capaz, por sua vez, de conhecer Deus e de Lhe responder. Aquilo que numa linguagem mais substancialista, chamamos ‘ter alma’, passamos a chamar numa linguagem mais histórica e actual, ‘ser interlocutor de Deus’ “.(J. Ratzinger, Introduçáo ao Cristianismo, Estoril:Principia, p. 259)

2. Dawkins perguntou também a Williams se a sua crença na imortalidade se baseia na existência de uma alma espiritual. Também aqui a resposta de William é semelhante à de Ratzinger:
“podemos entender de uma nova maneira a mensagem bíblica que não promete a imortalidade a uma alma dissociada do corpo, mas sim ao ser humano como um todo.” (Introdução ao Cristianismo, p. 254).
Tal como afirma também Ratzinger na mesma obra, Williams disse que o que é imortal é a relação que Deus estabelece com cada ser humano.

3. Uma outra questão que foi colocada a Williams tem a ver com o aparecimento dos primeiros seres humanos no processo evolutivo. Terá Deus criado almas para eles? Williams respondeu no mesmo sentido de Ratzinger, para o qual

“a argila tornou-se ser humano no momento em que uma criatura, pela primeira vez, mesmo de forma muito velada, foi capaz de formar uma ideia de Deus. O primeiro tu que o ser humano – por mais balbuciado que fosse – dirigiu a Deus é o momento em que o espírito se levantava no mundo.” (J. Ratzinger, “Fé na criação e teoria da evolução” em id., Credo para Hoje, Braga: Editorial Franciscana, 2007, p. 49.)

4. Dawkins perguntou a Williams por que razão os crentes ainda lêm o livro do Génesis sobre a origem do mundo em vez de lerem os livros de ciência do século XXI, pressupondo que os cristãos estão fundamentalmente desactualizados. Mas Williams deu-lhe a resposta mais óbvia: os cristãos continuam a ler o Génesis porque não procuram nele teorias científicas. Não creio porém que Dawkins deixe de continuar a fazer a pergunta.



(respiguei daqui)

O autor preferiu fazer a analogia entre as respostas de Rowan Williams e Ratzinger. Analogia que eu dispensava, mas penso que compreendo a opção.

Adenda: aqui está um vídeo do debate.


2 comentários:

  1. Muito bom!

    Tenho uma dúvida sobre o primeiro ponto. Se a alma espiritual se inaugura no diálogo com Deus, o que existe antes desse diálogo? Uma alma que não é uma alma espiritual mas que pode tornar-se espiritual ao encetar esse caminho?

    Às vezes acho que devia estudar teologia, existe aí (no mínimo) um interessantíssimo trabalho filosófico.

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  2. Olá Rita.

    Ui...se só tens uma dúvida sobre o primeiro estás muito bem. ;) eu tenho muitas. Para nos entendermos minimamente temos que usar alguns conceitos. Temos o "alma" o "espiritual" etc. Eu simpatizo (uma questão de adesão interior)com uma teologia que em vez de se fixar nos conceitos de "corpo" e "alma" diz antes: o ser humano. Ou a pessoa. E acho que não há humano separado do espiritual. As formas como cada um pode dizer "Deus" são múltiplas. Mesmo não o dizendo.

    Claro que há muito a estudar e dialogar sobre isto. E faz-se. Graças a Deus. :)

    Entretanto já vi que no teu blogue abriste o debate.

    Beijinho

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