2012-03-31

não bastam os estados de ânimo para fazer o poema, mas...

A lâmpada de Deus ainda não se tinha apagado (Sm 3,3)

É recorrente ser instada a dar as razões da minha solidão. Não deixa -aos olhos do mundo- de ser contra natura, uma pessoa decidir viver sozinha. Como se o viver sozinho seja, forçosamente, isolamento.

Como seres finitos, somos, naturalmente, insatisfeitos. O percurso humano foi descobrindo elementos que iludem e mitigam os nossos vazios interiores. Mas não há melhor forma de conviver com eles, do que enfrentá-los. E o silêncio e a solidão ajudam a torná-los presentes. É na escuridão que a pequena luz brilha de forma plena.

A constatação da finitude não é em si um fim. Porque a nossa vocação é à totalidade e ao infinito. E a lâmpada de Deus permanece acesa no mais íntimo de cada um. Criar condições exteriores para que esta realidade se torne cada vez mais evidente (em primeiro lugar ao próprio) é a atitude de quem quer viver desperto.


o compasso exato

surripiei, daqui

2012-03-30

a ilusão dos simplismos

Uma empresa auto-organiza-se no seu mercado: o mercado, um fenómeno ao mesmo tempo ordenado, organizado e aleatório. Aleatório porque não há certeza absoluta sobre as hipóteses e as possibilidades de vender os produtos e os serviços, mesmo se houver possibilidades, probabilidades, plausibilidades. O mercado é uma mistura de ordem e desordem.
Felizmente ou infelizmente - todo o universo é um cocktail de ordem, de desordem e de organização. Estamos num universo donde não se pode afastar o imprevisto, o incerto, a desordem. Devemos viver e tratar com a desordem.
A ordem? É tudo o que é repetição, constância, invariância, tudo o que pode ser colocado sobre a égide de uma relação altamente provável, enquadrado sob a dependência de uma lei.
A desordem? É tudo o que é irregularidade, desvio em relação a uma estrutura dada, aleatório, imprevisibilidade.
Num universo de ordem pura, não haveria inovação, criação, evolução. Não haveria existência viva nem humana.
Do mesmo modo nenhuma existência seria possível na desordem pura, porque não haveria nenhum elemento de estabilidade para aí basear uma organização.
As organizações têm necessidade de ordem e necessidade de desordem. Num universo onde os sistemas sofrem o aumento da desordem e tendem a desintegrar-se , a sua organização permite reprimir, captar, e utilizar a desordem.
Qualquer organização, como qualquer fenómeno físico, organizacional, e, bem entendido, vivo, tende a degradar-se e a degenerar-se.
O fenómeno da desintegração e da decadência é um fenómeno normal. Por outras palavras, o que é normal não é que as coisas durem sem se modificarem, isso seria pelo contrário inquietante. Não há nenhuma receita de equilíbrio. A única maneira de lutar contra a degenerescência está na regeneração permanente, por outras palavras, na aptidão do conjunto da organização para regenerar-se e para reorganizar-se, ao fazer frente a todos os processos de desintegração.

Esta trecho, retirado do livro de Edgar Morin, "Introdução ao Pensamento Complexo", é uma óptima ajuda para ler e compreender esta notícia. Sempre que a Igreja (nas suas mais altas estruturas) pretende manter a ordem e equilíbrio doutrinais, suprimindo outras visões, está a auto-aniquilar-se. Mantendo a ilusão de que a ordem é que é o garante da sua continuidade.

2012-03-28

será assim...o amor

Há quem jure que o amor é prisão, deliciosa prisão, fantasiam-no com grades, desejam-se carcereiros. Esses desconhecem o puro afecto, de nada adianta dizer-lhes que o amor é liberdade sem peias nem travões, comunhão milagrosa dos que por inteiro se querem dar. 

li aqui

2012-03-27

das razões de ser feliz - uma outra vez é primavera

como exemplo de sossego da alma

A ESTÁTUA E EU

Nos meus tempos mortos, ensino uma estátua a andar. Dada a sua imobilidade exageradamente prolongada, não é nada fácil. Nem para ela. Nem para mim. Dou-me conta de que uma grande distância nos separa. Não sou tão imbecil que não me dê conta disso.
Mas não se pode ter todas as cartas boas no nosso jogo. Ou então, adiante.
O que interessa é que o seu primeiro passo seja bom. Para ela, tudo reside nesse primeiro passo. Bem sei. Sei disso muito bem. Daí a minha angústia. Por conseguinte, aplico-me. Aplico-me como jamais o fiz.
Coloco-me junto dela de modo rigorosamente paralelo: o pé, como ela, levantado e rígido tal estaca enterrada na terra.
Porém nunca é exactamente igual. Ou o pé, ou a curva, ou o porte, ou o estilo, há sempre qualquer coisa que falha e o tão esperado arranque não pode ter lugar.
É por isso que cheguei a um estado em que eu próprio já quase não consigo andar, tomado de uma rigidez, todavia toda feita impulso, e o meu corpo fascinado  faz-me medo e já não me leva a parte nenhuma.

Henri Michaux in "Antologia"



2012-03-25

porque hoje é domingo


em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto. 25*Quem se ama a si mesmo, perde-se; quem se despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna.

Jo 12, 24-25

2012-03-24

como ficar crente

Num desses murmúrios que tantos de nós escrevemos neste diário aberto que são as redes sociais, alguém escreveu: "como é que ficamos crentes? também gostava de ser."
Ninguém ousou responder. Talvez porque esse acto de crer faça parte dos tais segredos sagrados (Sérgio Godinho in A Deusa do Amor).
A mim serviu para me encher de perguntas sobre a minha própria fé. Não tenho dúvidas que recebi a fé como testemunho pessoal de alguém que a procurava viver com uma coerência fora do comum.
Que tenho eu feito desse testemunho recebido? Testemunho que considero um bem precioso. Como o tenho tornado presente e real na minha vida? Eu, a quem a vida contemplou com extrema capacidade sensitiva - o que me abre imensas possibilidades. E também condicionantes.

No percurso feito, apreendo a tensão de passar além das imagens de um Deus bom (ou mau) que os sentidos manifestam. Aprender a viver com a fé dos "segredos sagrados" que nunca tem a mala pronta. Mas todos os dias é impelida a fazer viagem.

2012-03-23

Um menino

Ziguezagueava de chuteiras no campo de topázio, a seriema do crepúsculo em grito
indireto, macegas revelando serpentes frágeis, caminhava
com as mangas de uniforme encolhidas, o coração
priápico, a alma
plo avesso, imaginando encontrar um braço estendido, um ninho,
olhos femininos
de pássaro,
onde ele (só ele)
indefinidamente se esfregassse à vida.
Desceu o caminho do açude quando o martim-pescador regressava a seu mundo.
Água lisa e escura, o esperma do capim-gordura recendia,
os araticuns articulando-se ao verde
com os amarelos tortos e lenhosos de Van
Gogh. As torres se removiam quando cruzou a ponte,
suspirando, a trabalhar-se,
todos os pressentimentos farejando para sete ou oito sentidos,
sua avó ainda viva, compartilhando da inocência
montanhesa, somente agora perturbada: pois
ele aparecia enfim à tarde, mãos nos bolsos,
uma fome escancarada de espaço-tempo e maldade. Aparecia enfim
à tarde, para a tarde, com a tarde,
o frescor do pequeno porco-espinho, e o mal-estar
dos gambás que cheiravam mal antes da morte.
Caminhava pela casta masturbação dos verdes amarelos
que se remexiam,
os músculos a produzir um calor
que se perdia,
cuspindo o leite das margaridas mastigadas,
vacas chanfradas em flor para receber o girassol de um touro
subnutrido.

Uma criança. Frágil e forte.

Mas em laranjais de paraíso imprevisível.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

2012-03-21

ai estes tecnocratas

Não é isto revelador duma tremenda insensibilidade?


no dia mundial da poesia

RETRATO PUÍDO NAS ENTRANHAS
 
Palmeiras inclinadas. Ao longe o casario.
É na água que o vejo, que sinto a cidade acordar.
Mais uma mulher que olha o rio. Tenho as mãos desatadas,
os pés a caminho. As margens alargam quando estou perto,
mas do outro lado as mulheres não reflectem
o rosto ou mesmo a sua ausência.
São matéria do verbo fazer e caminham junto ao chão,
na curva da noite para o marido. Gastos os sonhos por usar.
Descorado pano que ficou ao sol. Nelas a cidade não acorda,
não regressam os barcos à tardinha.
Vêm pela beira dos caminhos, a tristeza amável,
a raiva cega e às vezes um sorriso que sacode os ombros
porque até a tristeza tem um custo, uma esperança
na sola do sapato. Vejo-as todos os dias e é como se a vida
me atasse os pés, me anelasse os dedos. Como eu,
outras mulheres olhando o rio, desbordando o pano,
descozendo a sopa. Ama-se o homem que vira a esquina
connosco e sabe que não podemos fingir que a ferida
está fechada. As casas acendem.
É na água que vejo a sua luz descendo o rio.
As mulheres passam em silêncio para as casas,
atravessam a pele – deixam um retrato puído nas entranhas.
Olho o rio e não sei fingir que finjo tanto mar.

Rosa Alice Branco 

2012-03-20

das razões para ser feliz - nunca é tarde

à margem

Estava ali um homem que padecia da sua doença há trinta e oito anos. Jesus, ao vê-lo prostrado e sabendo que já levava muito tempo assim, disse-lhe:"Queres ficar são?" Respondeu-lhe o doente:"Senhor, não tenho ninguém que me meta na piscina quando se agita a água, pois, enquanto eu vou, algum outro desce antes de mim."

Jo 5, 5-7
 

2012-03-19

O beijinho é para os pais que passarem por aqui.

olhe que não, Joana

19 de Março, Dia do Pai? Uma piada de mau gosto

Não sendo propriamente da nossa conta...mas tudo aponta para que um homem chamado José e uma mulher chamada Maria,  foram , efectivamente, os pais biológicos de Jesus. Uma família tradicional há maneira do modelo que a Igreja defende.

Não sendo assim, José o pai biológico de Jesus, lá cairá por terra a construção argumentativa da Igreja.

2012-03-18

porque hoje é domingo

Hablar de salvación, es plantearse el sentido último de la vida humana. Sería desplegar las más elevadas posibilidades humanas.
 
El término “salvación” tiene connotaciones negativas, y eso es muy peligroso a la hora de entender lo que dice el evangelio. El médico salva una vida cuando está a punto de perderse. El pensar en la salvación en términos negativos nos ha paralizado en nuestro desarrollo. Nos hemos creído que, si elimino el pecado, estoy salvado. Salvarse no es evitar la condenación. La salvación por parte de Dios tiene una connotación positiva. Salvarse sería llevarnos a una plenitud de ser, más allá de las mismas posibilidades naturales de la persona.
 
La salvación no es algo que me venga de fuera. La salvación surge de lo más hondo de mi ser. Desde ahí, Dios con su presencia posibilita mi plenitud. Hay que tener muy claro, que me salva totalmente Dios y me salvo totalmente yo. La acción de Dios y la del hombre, ni se suman ni se restan ni se interfieren, porque son de naturaleza distinta. "Dios que te creó sin ti, no te salvará sin ti". Todo lo que depende de Dios para mi salvación ya está hecho. Por tanto, mi salvación, aquí y ahora, depende de mí.
 
La conciencia que tenemos de que Dios puede no salvarme, es consecuen­cia de que esperamos de Dios una salvación equivocada. Queremos que Dios nos libere de nuestras limitaciones, es decir que nos quite el sufrimiento, el dolor, la enfermedad, la muerte. Todo eso forma parte de nuestra condición de criaturas y es inherente a nuestro ser. Ni Dios puede hacer que sigamos siendo criaturas, y sin limitacio­nes. Buscar la salvación por ese camino, es un error garrafal. La salvación que Dios nos da, tiene que realizarse mientras seguimos siendo criaturas, y por tanto, a pesar de nuestras limitaciones.
        
La salvación no es cambiar lo que soy ni añadir nada a lo que ya soy. Es una toma de conciencia de lo que en realidad soy, y vivir en esa conciencia. Es descubrir el tesoro que está escondido dentro de mí y disfrutar de él. “La vida eterna consiste en que te conozcan a ti, único Dios verdadero y a tu enviado Jesucristo”. Se trata de “conocer”.


duas palavras bastam

Há o mar há a mulher
quer um quer outro me chegam em acessíveis baías
abertas talvez no adro amplo das tardes dos domingos
Oiço chamar mas não de uma forma qualquer
chamar mas de uma certa maneira
talvez um apelo ou uma presença ou um sofrimento
Ora eu que no fundo
apesar das muitas palavras vindas nas muitas páginas dos dicionários
bem vistas as coisas disponho somente de duas palavras
desde a primeira manhã do mundo
para nomear só duas coisas
apenas preciso de as atribuir
Não sei se gosto mais do mar
de gosto mais da mulher
Sei que gosto do mar sei que gosto da mulher
e quando digo o mar a mulher
não digo mar ou mulher só por dizer
Ao dizer o mar a mulher
há penso eu um certo tom na minha voz sinto um certo travo
na minha boca
que mostram que mais que palavras usadas para falar
dizer como eu digo a mulher o mar
mar mulher assim ditos
são uma maneira talvez de gostar
e a consciência de que se gosta
e um prazer em o dizer
um gosto afinal em gostar
Enfim o mar a mulher
pode num dos casos ser a/mar a mulher
mera forma talvez de uniformizar o artigo
definido singular
Há ondas no mar
o mar rebenta em ondas espraiadas nos compridos
cabelos da mulher
que ela faz ondular melhor de tarde em tarde

(...)

Ruy Belo in "O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor"


2012-03-14

da relação com Deus

  
Deus actua de modo unilateral e a partir do amor, não a partir de um "toma lá e dá cá" com os homens. Deus dá-se totalmente sem condições nem requisitos, porque o "dar-se" (o amor) é a sua essência. No Deus de Jesus não cabem pactos nem alianças. A única coisa que espera de nós é que descubramos a presença desse amor numa total identificação com o nosso próprio ser, e que actuemos para com os outros como ele actua connosco (em nós).


retirei daqui

o essencial não é o rito

Por isso, não vos deixeis condenar por ninguém, no que toca à comida e à bebida, ou a respeito de uma festa, de uma Lua-nova ou de um sábado. Tudo isto não é mais que uma sombra das coisas que hão-de vir; a realidade está em Cristo. 

Col 2, 16-23

2012-03-12

assombro

quando a fé é uma seca

O bispo a tentar escorripichar a fé do povo da sua diocese; e eu a sentir-me mais próxima da expressão de fé do poeta Ruy Belo: Deus anda à beira de água calça arregaçada.
PROVA DA EXISTÊNCIA DA ALMA

Deixaste a ressurreição a meio.
Não me lembro de nada tão incompleto como ela.
O meu director fala de objectivos, fazemos mapas
e somos despedidos se. Ou temos prémios
e corrupção. Haja alguma arte em tudo isto.
Senhor, o teu corpo está seco na gaveta.
Estás no meio de nós coberto de bolor.
Nas palavras de São Paulo a criação teve parto e dores
em relação. Um prelúdio, sabemos hoje, prelúdio
sem mais nada. Os animais não aspiram à eternidade.
Nisto deveria consistir a alma que lhes foi negada.
Por menos despediria eu um empregado.
O meu cão brinca a que eu sou o cão dele.
Atira-me um osso e corro atrás, todos corremos atrás.
Mas é assim que se sobe na vida porque aspiramos.
Prova provada de que temos alma.

Rosa Alice Branco

2012-03-11

maresias

Não posso deixá-lo com uma dúvida, continua ela, com uma desconfiança. Gostaria de voltar a falar-lhe do mar. Mas não deixa de ser um constrangimento. Os regatos avançam; mas ele não. Ouça, não se zangue, juro-lhe, não tenho a menor intenção de o enganar. Ele é assim. Por mais que se agite, detém-se diante de um pouco de areia. É muito constrangido. De certeza que gostava de avançar, mas é um facto.
Talvez avance um dia mais tarde.

Henri Michaux in "Antologia"
Tradução de Margarida Vale de Gato
Relógio d'Agua

porque hoje é domingo

Deixemo-nos de fantasias patéticas de um pseudo-jejum tipo aspirina espiritual que não transforma nada e vamos proclamar um Jesus que desprende de um ser cristão anestesiado com rubricas à margem da vontade de Deus.


José Luís Rodrigues, retirado daqui

2012-03-09

em pé de igualdade

De que igualdade se fala, quando falamos de igualdade? Sendo que a própria natureza é causadora de muitas das diferenças de que - como seres humanos - somos portadores.
Que critérios podemos usar para mantermos as nossas diferenças sem comparações nem juízos de valor?

2012-03-08

8 de Março dia da mulher





Porque ainda são muitos os preconceitos, barreiras e obstáculos que impedem as mulheres de viver em condições de igualdade com os homens.


imagem-Reuters, Pequim 7/3/2012

2012-03-07

aquele mistério a que chamamos Deus

é na liberdade que somos

As mulheres que ousaram desconstruírem os esquemas impostos pelo machismo vigente em todos os momentos da História, são muitas e a Bíblia está cheia delas. Delas emerge uma ousada «descrença» que impõe uma ruptura de um certo paradigma do mundo em muitos lugares e de muitos modos. Nada disto revela uma destruição do que quer seja, mas uma interessante interpretação, uma visão do mundo e quiçá de Deus e de todas coisas que a Ele diz respeito.
Neste sentido, que dizem as mulheres de si mesmas? Que pensam e dizem de Deus? Como dizem Deus? Que importância têm os «lugares» que ocupam na sociedade, na família e na Igreja? – O mais importante é que digam de si e com isso acrescentem mais humanidade à Humanidade. 

aqui

É consolador ler este texto do padre José Luís Rodrigues. As questões que coloca estão presentes na minha vida há muito tempo. Fui respondendo às mesmas de diferentes modos. Nos últimos tempos - e em relação à Igreja - a resposta acabou numa atitude de ruptura. Não é possível crescer num espaço onde não somos aceites como somos.
A ruptura não aconteceu por ser mulher. Mas por não aceitar pertencer a um grupo onde a subserviência - e não a liberdade - é condição para se ser aceite. Não procuro uma Igreja à minha medida, mas não estou mais disposta a hipotecar a liberdade interior. Até porque  a Igreja não precisa de mim nessas condições.

É óbvio que estou a referir-me à estrutura Igreja Católica. A pertença a algum grupo etc. Porque continuo a sentir-me Igreja.

2012-03-06

era isto que queria dizer-vos, hoje


É também convosco, neste espaço, que quero celebrar, hoje, a vida. Estes anos de partilhas que aqui têm acontecido, ajudaram-me a sentir e experimentar aquilo que é uma fórmula conhecida, mas nem por isso mais fácil de pôr em prática: "Quanto mais damos, mais somos". O "dar" no sentido de exposição íntima.

Não vou fazer género e dizer que não sei como cheguei aos cinquenta e três anos de vida. Que passaram rápido etc, etc...tenho bem presentes os eventos bons, os menos bons e os mesmo maus, que fazem a história da minha vida. Assim como mantenho memória de todas as vezes que me zanguei com ela. Como não sei o dia de amanhã, não prometo que não volte a acontecer. O tempo presente é de pacificação.

Convosco, meus queridos companheiros desta jornada, Gracias a la vida!

2012-03-05

paixão assumida


Um ideia feliz, esta de convidar o escritor José Luís Peixoto, a visitar e descrever, com apurada sensibilidade, cidades como Miami, Pequim, Moscovo...As fotos são muito boas, inesperadas...e os poemas que as acompanham, também.

Pequim

De repente, desapareceram todos os irmãos.
Para onde foram as irmãs mais novas
a fazerem sopas com pauzinhos e pedrinhas
em pequenas panelas de plástico? Para onde
foram os irmãos mais velhos e toda a proteção
de que são capazes em dias chuvosos de escola?
As mães e os pais não têm resposta. Talvez exista
um mundo cheio com os irmãos que faltam neste.
Talvez neste mundo sintam a falta destes,
a brincarem sozinhos como imperadores.

2012-03-01


As escadas

Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas
em direcção à tua escuridão, deixando-me,
ou a alguma coisa menos tangível,
no seu lugar.

Também elas envelheceram, as escadas,
também, como eu, desabitadas.
Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus,
e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras.



Manuel António Pina,
"Como se desenha uma casa"
edição; Assírio & Alvim

imagem-Maria Falconetti in A Paixão de Joana D'Arc

o que eles dizem sobre a esperança (ainda é possível?))



aqui: www.essejota.net