2012-04-30

o sofrimento que a crise económica gera nas crianças

As crianças estão a ser muito afectadas pela crise. Não são só os desmaios, a falta de comida e de cuidados de saúde. É também a depressão e desespero dos pais, sublinha Giota Mavrika, responsável pelas visitas domiciliárias do centro de saúde, até aqui mais calada do que as faladoras Katerina e Electra. "Perguntámos a uma criança da 4.ª classe o que é que ela queria. Normalmente dizem "um campo de férias", "o meu prato preferido", ou "um jogo de vídeo". Esta disse: "Quero que a crise económica passe." 

via ladrões de bicicletas

o jardim das palavras



O jardim das palavras tem aromas.
Ternura cheira a cravo amor a rosa.
Os versos não se querem em redomas
é ao ar livre que a canção se goza.

Imaginai um sol de cromossomas
escolhendo a terra fértil por esposa
terra que em cada ciclo têm hormonas
que a tornam mais mulher. E mais formosa.

O jardim da palavra é o cio
o pólen   a cantata   o desvario
puta capaz de endoidecer um homem.

Poesia. Não amargo: doce rio
conchego das palavras contra o frio
de todos que resistem porque as comem.

José Carlos Ary dos Santos

2012-04-27

a ler

Francesca tinha uma casa, era extremosa nos cuidados que punha em qualquer pormenor da vida doméstica. Tinha uma casa que lhe oferecia uma vida de pormenores, ou seja, um voo raso, quase rastejante, à altura de quem olha na terra as nuvens passarem no céu.

Henrique Fialho

2012-04-26

aforismo

Amanhã pode ser tarde.

os burrocratas e saga de uma escola na cidade do Porto


Há jovens adultos com vontade de participar em movimentos de solidariedade social, até como meio de encontrarem um sentido para a própria vida. É uma mudança gerada pelos novos tempos do desemprego jovem e do regresso à agregação social de proximidade. Mas o que faz a Câmara? Recusa perceber o que aí vem. Faz mal, porque os novos tempos do Porto também se fazem destas pessoas que estão disponíveis a viver uma vida de pobreza em prol dos outros. Ora, num tempo em que é tão mais fácil entrar pela marginalidade ou emigrar, isto parece uma boa ideia. A cidade precisa de gente assim - desde que os moradores aprovem. O novo Porto cultural e jovem também é isto e não apenas a 'movida' ou os bares dos universitários.

Daniel Deusdado in JN

2012-04-21

a escutar os rios que correm...bom fim-de-semana

um cavalinho pequenino

Criei em minha casa um cavalinho. Galopa no meu quarto. É a minha distracção.
Ao princípio, tinha algumas apreensões. Perguntava-me se ele havia de crescer. Mas a minha paciência foi recompensada. Tem agora mais de cinquenta e três centímetros e come e digere uma alimentação de adulto.
A verdadeira dificuldade veio da parte da Helena. As mulheres não são nada simples. Uma caganita de nada indispõe-as. Desequilibra-as. Já não são as mesmas.
"De um traseiro tão pequeno", dizia-lhe eu, "não pode sair muita bosta", mas ela...Enfim, tanto pior, agora já passou à história.
O que me preocupa é outra coisa, são, de repente, em certo dias, as estranhas alterações do meu cavalinho. Em menos de uma hora, a cabeça começa a inchar, a inchar, a garupa curva-se de fora para dentro, empena-se, desfia-se e bate ao vento que entra pela janela.
Oh! Oh!
Pergunto-me se ele não me estará a enganar a fazer-se passar por cavalo; porque, mesmo pequeno, um cacalo não se desenrola como uma tenda, não bate ao vento nem que seja apenas por uns instantes.
Não gostava nada de ter sido enganado, depois de tantos desvelos, depois de tantas noites que passei a guardá-lo, protegendo-o das ratazanas, dos perigos sempre à espreita, e das febres da juventude.
Às vezes ele inquieta-se de se ver tão anão. Assanha-se. Ou, desvairado pelo cio, dá pulos enormes por cima das cadeiras e põe-se a relinchar, a relinchar desesperadamente.
Os animais fêmeas da vizinhança espevitam-se, as cadelas, as galinhas, as éguas, as ratinhas. Mas é tudo. "Não", resolvem elas, "cada um por si, cada um que se amanhe com o seu instinto. Não, não tenho nada que responder." E até agora nenhuma fêmea respondeu.
O meu cavalinho olha-me com angústia, com fúria em ambos os olhos.
Mas quem é que está em falta? Serei eu?

Henri Michaux in "Antologia"
Tradução de Margarida Vale de Gato
Edição Relógio D'Agua

2012-04-19

e aos monsenhores também não (ainda terei de ir a Roma)


Georg Ganswein, secretário de Bento XVI

hoje acusaram-me de ter aversão aos padres. não tenho nada






Henri Cartier-Bresson
Roma, 1959

uma no cravo...

Gostei de ler a recomendação os bispos portugueses (reunidos em assembleia em Fátima) para que, perante uma situação de abuso sexual de menores, se proceda à denúncia, também, às autoridades civis.

Já não vejo necessidade nenhuma nesta recomendação (aos membros do clero, suponho): “grande prudência” nas “expressões de afeto”.
Qualquer pessoa minimamente formada e informada, sabe distinguir uma manifestação de afecto de um gesto ou atitude de abuso de cariz sexual.

aqui

2012-04-18







Henri Cartier-Bresson

Cardinal Pacelli, Montmartre, Paris

1938
Gelatin silver print

7 11/16 x 9 3/4 inches
 
The Museum of Fine Arts, Houston The Manfred Heiting Collection

Antero de Quental

Logos

Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim
E, o que é mais, dentro de mim — que me rodeias
Com um nimbo de afectos e de ideias,
Que são o meu princípio, meio e fim...

Que estranho ser és tu (se és ser) que assim
Me arrebatas contigo e me passeias
Em regiões inominadas, cheias
De encanto e de pavor... de não e sim...

És um reflexo apenas da minha alma,
E em vez de te encarar com fronte calma,
Sobressalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te...

Falo-te, calas... calo, e vens atento...
És um pai, um irmão, e é um tormento
Ter-te a meu lado... és um tirano, e adoro-te!

Antero de Quental, in "Sonetos"

2012-04-17

a mulher é o colectivo de um povo e o poço e o marido são...

Noite de núpcias
 
Se, no vosso dia de núpcias, quando entrardes em casa, mergulhardes a vossa mulher num poço durante a noite, ela ficará atordoada. Tinha razão na vaga inquietude que sempre sentira...
"Ora aí está", diz ela consigo, "então é isto o casamento. Era por isso que mantinham a prática tão secreta. Deixei-me levar neste assunto."
Mas, sentindo-se envergonhada, não diz nada. É por isso que podereis mergulhá-la longamente e várias vezes, sem provocar nenhum escândalo na vizinhança.
Se ela não compreendeu da primeira vez, tem poucas hipóteses de o compreender ulteriormente, e vós tendes muitas hipóteses de poder continuar sem incidentes (à excepção da bronquite), se, de qualquer forma, isso vos interessar.
Quanto a mim, sentindo-me ainda pior no corpo dos outros do que no meu, tive de renunciar rapidamente ao exercício.


Henri Michaux "Antologia"
Tradução de Margarida Vale de Gato
Relógio D'Água

Oh cansaço...

de ver o caminho que este país insiste em tomar.

Descobri através deste post da Joana.

2012-04-16

canto

Toda a chuva a cair me torna grata
por ela e pela que tem caído sobre mim
nos anos sem tacto, sem vista, sem olfacto.
Aqui, bebo-a misturada com os resíduos
que o vento traz do fundo do pomar,
gravetos, folhas e as flores perdidas.
O cheiro da flor de laranja perfumou
esta água, para a ablução dos pés
de um poeta que antes fora nómada.
Depois, porque não hei-de vestir-me com a túnica
da chuva, que me envolva como as árvores
ou um corpo humano vivo e natural?

Dormir onde esta lama doce e insonora
calidamente me vista e me sepulte?
Verme, que constróis o altar da chuva
com os teus pequenos montículos e covas
e sob o córtex da nogueira velha
escondeste a tua vida, como oferenda
que vai ser recolhida pelas mãos
de uma criança que ame os dons naturais;
verme, que sabes que eu outrora
muda, não-gerada e ausente,
mostra-me o que mais sabes da chuva,
como és sinuoso nela, vivente,
e eu que devo fazer na pura terra
contigo, lado a lado, ó laborioso?

Fiama Hasse Pais Brandão
Cantos do Canto, 1995

2012-04-15

Põe aqui o teu dedo

Caravaggio-Incredulidade de Tomé

A fé é uma experiência pessoal. De infinitos modos é Deus que continua a fazer o convite para que experimentemos a sua presença viva e vivificadora.

2012-04-14

No centenário do nascimento de Robert Doisneau.

muito bem dito:"ordenadas para quê?"

« agrada-me a ideia da luta de ordenação de mulheres católicas. Só a luta. Não sei se lhe disse, mas quando era pequena, numa rodinha de escola, "giroflé, giroflá", havia uma pergunta cantada: "E que ofício lhe dareis, giroflé, giroflá?"... deram-me o ofício de costureira. Eu fiz parar a roda e disse que não queria ser costureira, queria ser padre. Foi uma gargalhada geral. Disseram-me as minhas companheiras que não podia ser padre porque era rapariga. Eu não acreditei e corri para casa a perguntar à minha mãe. A minha mãe, uma mulher rural que nem a terceira classe tinha, deu-me a maior lição de história da minha vida - mostrou-me que o mundo era masculino, o presidente (Salazar), ministros, o regedor, o presidente da Junta, o médico... tudo que era chefe era masculino como Deus e o padre. A nós mulheres restava-nos nunca precisar dos homens nem do Estado e aconselhou-me a rezar a Nossa Senhora. Mais tarde prossegui estudos, estudei as religiões todas e suas origens.. e para mim não foi Deus que nos criou mas nós que criamos Deus à semelhança de quem tem o poder. Hoje as mulheres podem ser ordenadas à vontade que para mim é tarde demais. Ordenadas para quê? 

Reproduzo parte de uma resposta dada ao convite do Movimento Nós Somos Igreja, para uma conferência com o tema:"Jesus, Mulheres e a Igreja."
Concordo, em parte, com a autora. Não tenho anseio nenhum de ver os seminários cheios de mulheres. Não porque já não acredite no Deus revelado na Bíblia, mas porque considero que a actual estrutura da Igreja Católica, não responde (há excepções, nem tudo é mau) às necessidades do homem contemporâneo.
A mensagem pascal continua a interpelar-me sobre que respostas lhe dou na minha vida. E como a tornar contagiante. Não tenho ilusões sobre os meios: a escuta (ai mas o mundo está cheio de ruídos) e a luta (pior, pior, há algures um demónio a segredar-me para ficar quieta).


Enfim, às corajosas mulheres do Movimento "Nós Somos Igreja" saúdo afectuosamente e desejo muita coragem na luta.

sem fingimentos

 É esta a resposta! (a uma proposta que me chegou via rede social. este meio está mesmo perigoso)


Adenda: a Joana já me acusou de egoísmo (mas que grande amolgadela na minha auto estima) a verdade é que não quero, mas dispenso:

António (o propiciador)
Henrique (o insone)
José (o dos árduos caminhos)
Miguel (o das mulheres de Deus)
Paulo (o criador do Z.)
Lino (o mais afectuoso papista que conheço)
José L. Rodrigues (ai que agora meti um padre nisto) :(
Luís (o rapaz do largo)

Pronto, só arranjei candidatos homens. Uma perversidade feminina (mais outra amolgadela).

2012-04-13

falemos, então, de desafios

É uma velha dificuldade humana - a de olhar primeiro para as limitações dos outros do que as próprias. Eu sei bem a luta que dá. E fazê-lo no colectivo também não melhora nada.
Um cardeal romano diz: "Estamos conscientes de que o grande desafio não é o ateísmo, mas a indiferença, que é muito mais perigosa." Eu digo: o grande desafio que é colocado aos crentes, é não falsificarem a imagem de Deus. Nem se apoderarem dela como se fossem os únicos e legítimos possuidores.

2012-04-11

Ninguém o olhou. Há muito que as pessoas não se cruzavam: trespassavam-se.
Gritou: eles não respeitam nada nem ninguém!
E disparou o revólver na cabeça.
Dimitris Christoulas, 77 anos, reformado, grego. Nosso irmão.

Ler o artigo todo aqui

2012-04-10

o fim de um blogue

Li há dias o comentário de que as denominadas redes sociais são a democratização da ignorância. Não vou tão longe. Da minha experiência, como utilizadora, digo que nelas - tal como na vida - encontramos o melhor e o pior do ser humano. Só que este meio permite um confronto inconsequente (porque não há proximidade física) que, da troca de ideias, facilmente se expande para as ofensas e ataques pessoais.

Todos padecemos de alguns medos. Um deles - e que nos inquieta sem que a maior parte das vezes, disso demos conta - é a possibilidade de que a proximidade do outro influencie a nossa vida. O outro é necessariamente diferente. E isso é doloroso de admitir.

Estas ideias surgem na sequência da decisão do teólogo José Maria Castillo encerrar o blogue "Teologia sin Censura". Compreendo o enfado de quem se vê insultado (sempre a coberto do anonimato. Enfim, por aqui somos quase todos anónimos, sendo que uns são mais do que outros), mas lamento a decisão.

O diálogo é sempre um desafio onde se correm diferentes riscos. Um deles é a incompreensão. Cabe a cada um avaliá-los e agir em conformidade. Pelo José Maria, continuo a sentir o maior respeito.


Uma coisa inocente

Estendi a mão por qualquer coisa inocente
uma pedra, um fio de erva, um milagre
preciso que me digas agora uma coisa inocente

Não uses palavras
qualquer palavra que me digas há-de doer
pelo menos mil anos
não te prepares, não desejes os detalhes
preciso que docemente o vento
o longínquo e o próximo
espalhe o amor que não teme

Não uses palavras
se me segredas
aquilo que no fundo das nossas mentiras
se tornou uma verdade sublime

José Tolentino Mendonça:
"A Noite Abre Meus Olhos"

2012-04-04

mas que não nos cegue a indiferença



A crueldade entre homens, indivíduos, grupos, etnias, religiões, raças é aterradora. O ser humano contém em si um ruído de monstros que liberta em todas as ocasiões favoráveis. O ódio desencadeia-se por um pequeno nada, por um esquecimento, pela sorte de outrem, por um favor que se julga perdido. O ódio abstracto por uma ideia ou uma religião transforma-se em ódio concreto por um indivíduo ou um grupo; o ódio demente desencadeia-se por um erro de percepção ou de interpretação. O egoísmo, o desprezo, a indiferença, a desatenção agravam por todo o lado e sem tréguas a crueldade do mundo humano. E no subsolo das sociedades civilizadas torturam-se animais para o matadouro ou a experimentação. Por saturação, o excesso de crueldade alimenta a indiferença e a desatenção, e de resto ninguém poderia suportar a vida se não conservasse em si um calo de indiferença.

 


Edgar Morin, in 'Os Meus Demónios'

2012-04-03

O SILÊNCIO DE DEUS



Nada somos, nem ilha submersa
na metafísica dos geólogos,
ao sabor de inexplicáveis convulsões.


Além da orla branca que cinge a terra,
nada somos, encerrados em palavras,
sequiosos de vento, de ternura, de amor.


No entanto, dentro de nós crescem,
o vento, a ternura, o amor,
como pétalas de fogo, desgrenhadas.


Com violência resistem aos impulsos
dos homens, ao silêncio de Deus
entreaberto.
Com violência resistem ao terramoto
que sacode o nosso corpo
de alto a baixo, sem razão.







A.J. Vieira de Freitas
(in «Erosão»,
Ed. Ilhatur, Funchal, 1980)


surripiado daqui

2012-04-02

por via das dúvidas

A vida... e a gente põe-se a pensar em quantas maravilhosas teorias os filósofos arquitectaram na severidade das bibliotecas, em quantos belos poemas os poetas rimaram na pobreza das mansardas, ou em quantos fechados dogmas os teólogos não entenderam na solidão das celas. Nisto, ou então na conta do sapateiro, na degradação moral do século, ou na triste pequenez de tudo, a começar por nós. 

Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro dum homem.
A vida é o que eu estou a ver: uma manhã majestosa e nua sobre estes montes cobertos de neve e de sol, uma manta de panasco onde uma ovelha acabou de parir um cordeiro, e duas crianças — um rapaz e uma rapariga — silenciosas, pasmadas, a olhar o milagre ainda a fumegar. 



Miguel Torga in "Diário" 1941