2012-04-04

mas que não nos cegue a indiferença



A crueldade entre homens, indivíduos, grupos, etnias, religiões, raças é aterradora. O ser humano contém em si um ruído de monstros que liberta em todas as ocasiões favoráveis. O ódio desencadeia-se por um pequeno nada, por um esquecimento, pela sorte de outrem, por um favor que se julga perdido. O ódio abstracto por uma ideia ou uma religião transforma-se em ódio concreto por um indivíduo ou um grupo; o ódio demente desencadeia-se por um erro de percepção ou de interpretação. O egoísmo, o desprezo, a indiferença, a desatenção agravam por todo o lado e sem tréguas a crueldade do mundo humano. E no subsolo das sociedades civilizadas torturam-se animais para o matadouro ou a experimentação. Por saturação, o excesso de crueldade alimenta a indiferença e a desatenção, e de resto ninguém poderia suportar a vida se não conservasse em si um calo de indiferença.

 


Edgar Morin, in 'Os Meus Demónios'

1 comentário:

  1. "O ser humano contém em si um ruído de monstros que liberta em todas as ocasiões favoráveis."
    Pois, "os outros" seres humanos são horríveis.
    E nós somos uns anjos...
    Que tal tentar vislumbrar os nossos demónios, em vez de começar a atirar pedras?

    on

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