2012-04-21

um cavalinho pequenino

Criei em minha casa um cavalinho. Galopa no meu quarto. É a minha distracção.
Ao princípio, tinha algumas apreensões. Perguntava-me se ele havia de crescer. Mas a minha paciência foi recompensada. Tem agora mais de cinquenta e três centímetros e come e digere uma alimentação de adulto.
A verdadeira dificuldade veio da parte da Helena. As mulheres não são nada simples. Uma caganita de nada indispõe-as. Desequilibra-as. Já não são as mesmas.
"De um traseiro tão pequeno", dizia-lhe eu, "não pode sair muita bosta", mas ela...Enfim, tanto pior, agora já passou à história.
O que me preocupa é outra coisa, são, de repente, em certo dias, as estranhas alterações do meu cavalinho. Em menos de uma hora, a cabeça começa a inchar, a inchar, a garupa curva-se de fora para dentro, empena-se, desfia-se e bate ao vento que entra pela janela.
Oh! Oh!
Pergunto-me se ele não me estará a enganar a fazer-se passar por cavalo; porque, mesmo pequeno, um cacalo não se desenrola como uma tenda, não bate ao vento nem que seja apenas por uns instantes.
Não gostava nada de ter sido enganado, depois de tantos desvelos, depois de tantas noites que passei a guardá-lo, protegendo-o das ratazanas, dos perigos sempre à espreita, e das febres da juventude.
Às vezes ele inquieta-se de se ver tão anão. Assanha-se. Ou, desvairado pelo cio, dá pulos enormes por cima das cadeiras e põe-se a relinchar, a relinchar desesperadamente.
Os animais fêmeas da vizinhança espevitam-se, as cadelas, as galinhas, as éguas, as ratinhas. Mas é tudo. "Não", resolvem elas, "cada um por si, cada um que se amanhe com o seu instinto. Não, não tenho nada que responder." E até agora nenhuma fêmea respondeu.
O meu cavalinho olha-me com angústia, com fúria em ambos os olhos.
Mas quem é que está em falta? Serei eu?

Henri Michaux in "Antologia"
Tradução de Margarida Vale de Gato
Edição Relógio D'Agua

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