2012-05-31

a vida em imagens #4







este imobilismo que nos cerca até desarmarmos irremediavelmente


TALVEZ ME CHAME JONAS


Não sou ninguém:
um homem com um grito de estopa na garganta
e uma gota de asfalto na retina.
Não sou ninguém. Deixai-me dormir!
Mas às vezes ouço um vento de tormenta que me grita:
«Levanta-te, vai a Ninive, cidade grande, e brada contra ela.»
Não faço caso, fujo pelo mar e deito-me a dormir no canto mais escuro da nave,


até que o Vento teimoso que me segue
volte a gritar-me outra vez:
«Dorminhoco, que fazes aí? Levanta-te.»
-Não sou ninguém:
um cego que não sabe cantar. Deixai-me dormir!
E alguém, esse Vento que busca um funil de trasfega, diz junto mim, dando-me com o pé:
«Aqui está; farei uma trombeta com este cone de metal velho e vazio;
por ela meterei minha palavra e encherei de vinho novo a velha cuba do mundo. Levanta-te!»


- Não sou ninguém. Deixai-me dormir!
Mas um dia lançaram-me ao abismo,
as águas amargas cercaram-me até à alma,
a ulva enredou-se na minha cabeça,
cheguei até às raízes dos montes,
a terra lançou sobre mim suas fechaduras para sempre...
(Para sempre?)
Quero dizer que estive no inferno...
De lá trago a minha palavra.
e não canto a destruição:
apoio a minha lira na crista mais alta deste símbolo...
Sou Jonas.

León Felipe
(1884-1968)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento.
respiguei daqui:

2012-05-29

o genuíno gozo



"Aprendi hoje algo de essencial. Quando achava bonita uma flor, o que eu mais desejava era apertá-la contra o peito ou comê-la. Era mais difícil com uma bonita paisagem, mas o sentimento era o mesmo. Eu era sensual demais, demasiado "possessiva". Tudo o que me parecia bonito queria-o de forma exageradamente física, queria possuí-lo. Por isso tinha sempre uma dolorosa sensação de desejo que nunca podia ser satisfeita, uma nostálgica aspiração a qualquer coisa que me parecia inacessível, a que eu chamava "instinto criador" (...) De repente, tudo mudou (...) Verifiquei com alegria que o mundo que Deus criou continua belo (...) Como sempre, esta paisagem silenciosa, tão misteriosa à hora do crepúsculo, deu-me sentimentos tão fortes como dantes, mas vi-a, digamos assim, "objectivamente". Já não a queria "possuir", já não me sentia incitada ao onanismo".



Etty Hillesum in Diário

2012-05-28

Johann Johannsson - Theme

a vida em imagens #3

S. Martinho do Porto, Maio 2012

A voz dos regatos que interpretas, pura explicadora, a voz das árvores onde pomos sentido no seu murmúrio - ah, meu amor ignoto, quanto tudo isso e nós e fantasias tudo de cinza que se escoa pelas grades da nossa cela.



O Livro do Desassossego - Fernando Pessoa


São cada vez mais negras as fumaças que nos chegam do Vaticano. Aguardo (sentada) o início da autocrítica que a Cúria, um dia, iniciará.

2012-05-27

porque hoje é domingo

Subitamente, fez-se ouvir, vindo do Céu,
um rumor semelhante a forte rajada de vento,
que encheu toda a casa onde se encontravam.
(Actos 2)

A fé é uma experiência interior. Também sujeita à interpretação. Não se tente, porém, segurar o vento.

o melhor que há em nós

O Deus criador criou o mundo do nada por amor. E tudo o que leva em si uma fibra deste amor descobre algum dia o vazio das coisas e nelas, porque toda a coisa e todo o ser que conhecemos aspira a mais do que realmente é. E o que ama fica preso nesta aspiração, nesta realidade não conseguida, nesta enteléquia que ainda não foi, e ao amá-la, ao arrastá-la desde o não-ser a um género de realidade que parece total e que depois se oculta e mesmo se desvanece.
E assim o amor faz transitar, ir e vir entre zonas antagónicas da realidade, penetra nela e descobre o seu não-ser, os seus infernos. Descobre o ser e o não-ser, porque aspira a ir para lá do ser; de todo o projecto. E desfaz toda a consistência.
Destrói, por isso dá nascimento à consciência, sendo como é a vida plena da alma. Eleva ao obscuro ímpeto da vida; essa avidez que é a vida no seu fundo elementar, leva-a na alma. Mas, ao mostrar a inanidade de tudo aquilo em que se fixa, revela à alma também os seus limites e abre-a à consciência, fá-la dar nascimento à consciência. A consciência aumenta depois de um desengano de amor, como a própria alma se dilatara com o seu engano.
Mas não existe engano algum no amor, que, por o haver, obedece à necessidade da sua essência. Porque, ao descobrir a realidade no duplo sentido do objecto amado e do que ama, a consciência de quem ama não sabe situar essa realidade que a transcende. Se não houvesse engano, não haveria transcendência, porque permaneceríamos sempre encerrados dentro dos mesmos limites.
E o engano é, por outro lado, ilusório, pois aquilo que se amou, o que na verdade se amava, quando se amava, é verdade. É a verdade, embora não esteja completamente realizada e segura; a verdade que espera no futuro.



María Zambrano;
"Metáfora do Coração e Outros Escritos"
Tradução de José Bento
Assírio & Alvim

2012-05-25

graça; divina graça

a vida em imagens #2

Alvorninha, Maio 2012


Na grande claridade do dia o sossego dos sons é de ouro também. Há suavidade no que acontece. Se me dissessem que havia guerra, eu diria que não havia guerra. Num dia assim nada pode haver que pese sobre não haver senão suavidade.



Livro do Desassossego-Fernando Pessoa

2012-05-24

a vida em imagens #1

 (Alvorninha - 2012)

A indiferença que cerca o homem demonstra a sua qualidade de estrangeiro. 

Teixeira de Pascoaes in Aforismos
Selecção de Mário Cesariny 
Assírio & Alvim 

2012-05-23

o que somos e o que podemos ser




O pecado original é uma das conclusões de toda a doutrina da salvação. A doutrina do pecado original é uma visão retrospectiva, ou seja, no centro da fé cristã está a vivência entre nós, da morte, da paixão e da ressurreição de Jesus. A partir da ressurreição como dom do Espírito Santo é que o grupo apostólico começa a poder olhar para trás, pensando que imaginávamos como era a vida e agora podemos encará-la de outra forma. Jesus abriu nossos olhos sobre que tipo de pessoa o ser humano é capaz de ser: um ser humano não fadado à morte, não necessariamente movido pelas violências que estão na base de toda a comunidade humana. A partir desse momento em que se olha retrospectivamente, percebe-se que desde o início da humanidade (e a palavra Adão é uma espécie de atalho para se refletir os começos de toda humanidade) a cultura humana tem sido, de alguma maneira, desenvolvida na morte. Agora estamos entendendo essa cultura como contingente, e não necessária. Não fomos feitos para isso, mas para outra coisa. A doutrina não é a base, mas a visão retrospectiva a partir da ressurreição, e algo necessário. É o sinal de quanta diferença fez Jesus.

Uma fé para além do ressentimento...e mais: aqui

2012-05-22

Dustin O'Halloran — Opus 55

a desejável comunicação

"(...)da relação entre silêncio e palavra: dois momentos da comunicação que se devem equilibrar, alternar e integrar entre si para se obter um diálogo autêntico e uma união profunda entre as pessoas. Quando palavra e silêncio se excluem mutuamente, a comunicação deteriora-se, porque provoca um certo aturdimento ou, no caso contrário, cria um clima de indiferença; quando, porém se integram reciprocamente, a comunicação ganha valor e significado. O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo.”

retirei daqui

2012-05-21

Sé de un lugar

A ausência do amor




A ausência do amor não consiste em que efectivamente não apareça em episódios, em paixões, mas no seu confinamento nesses estreitos limites da paixão individual desacreditada num facto, num raro acontecer. E então chega a suceder que até a paixão individual - pessoal - fica também confinada numa forma trágica, porque fica submetida à justiça. O amor vive e respira, mas submetido  a um processo perante uma justiça que é implacável fatalidade. O amor está a ser julgado por uma consciência onde não há lugar para ele, perante uma razão que se lhe negou. Está como enterrado vivo, vivente, mas sem força criadora.


María Zambrano;
"A Metáfora do coração e Outros escritos"
Tradução de José Bento
Assírio & Alvim

o medo de errar

O momento em que desistimos de nos enganar, o momento em que o medo vence a curiosidade e desistimos do enlevo, do doce, irrepetível entusiasmo de aprender -- prender – cada alguém; o momento em que dizemos “não vale a pena”, “é sempre o mesmo”; o momento em que decretamos o fim da aventura e nos seguramos ao seguro, ao silêncio; o momento em que nos ensimesmamos (que verbo este) e corremos todos os ferrolhos e ligamos o alarme – não vá alguém entrar, passar as barbacãs e os fossos, galgar a última muralha – nesse momento estamos mortos.

surripiado daqui

2012-05-20

a batalha

porque hoje é domingo

 (Alvorninha, 19/5/2012)





6*Estavam todos reunidos, quando lhe perguntaram: «Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Israel?» 7*Respondeu-lhes: «Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a sua autoridade. 8*Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.»


Actos 1, 6-8 

O testemunho dos cristãos não será feito de triunfalismos fáceis, de pessoas que se auto proclamam detentoras de alguma verdade que não foi revelada ao resto da humanidade. A força do Espírito é derramada com a mesma abundância sobre crentes e não crentes. E a única coisa que temos como certa é que o tempo do Espírito escapa aos nossos juízos.



2012-05-19

Maria Bethânia / Fado

Por quem tu te consomes, coração?
E somes nessas águas de arrebentação
Rolando ao sal dos sonhos, vai arrastando dores
Inaugurando mares com teu pranto de amores

Por quem te enclausuras na força das marés
E cantas sem ternura a luz dos cabarés?

Por quem tu te desvelas, coração?
E levanta as velas, vais na ventania
Sabendo do naufrágio que o tempo anuncia
Preferes a procela à paz da calmaria

Que anjo dissoluto põe tua embarcação
Na fúria dessas águas, longe da viração

2012-05-17

na alegria



20Em verdade, em verdade vos digo: haveis de chorar e lamentar-vos, ao passo que o mundo há-de gozar. Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há-de converter-se em alegria! (Jo 16,20)


A alegria cristã não resulta da emoção que se opõe a uma outra de tristeza. Nem vive o cristão na contramão de qualquer outro homem.
Na fé e no amor; vive-se a esperança de que a alegria é possível. É no mais íntimo de cada um que esse desejo se manifesta.

não basta querer

Assinei.
Manifesto e subscrição: aqui

2012-05-16

vida na negação

Nada é mais difícil de decifrar que o que sucede na negação, na sombra e na vacuidade. Vida na negação, é a que se vive na ausência de amor. Quando o amor - inspiração, sopro divino no homem - se retira, não parece perder-se nada de momento, e até parecem emergir com mais força e claridade coisas como os direitos do homem emancipado. Toas as energias que integravam o amor ficam soltas e a vaguear por sua conta. Como sempre que se produz uma desintegração, há uma repentina liberdade, em verdade pseudo-liberdade, que depressa se esgota.
(...)
O humanismo de hoje costuma ser a exaltação de uma certa ideia de homem, que nem sequer se apresenta como ideia, mas como simples realidade: a realidade do homem, sem mais que renúncia à sua ilimitação; a sua aceitação de si mesmo como estrita realidade psicológica-biológica; a sua afirmação em coisa, uma coisa que tem determinadas necessidades justificadas e justificáveis. De novo o homem se acorrentou à necessidade, mais agora por decisão própria e em nome da liberdade. Renunciou ao amor em proveito do exercício de uma função orgânica; trocou as suas paixões por complexos. Porque não quer aceitar a herança divina, acreditando que assim se liberta do sofrimento, da paixão que todo o divino sofre entre nós e em nós.

María Zambrano
"A metáfora do coração e outros escritos"
Tradução de José Bento

exemplar

É bem mais fácil emitir opinião do que dar testemunho.

2012-05-15

Não sei quantas Almas tenho



Os apanhadores de conquilhas

Uma família inteira
a apanhar conquilhas

É o pai é a mãe
é os filhos é as filhas

todos acocorados
na sôfrega função

O gotejar do tempo
é coisa que angustia

se não conduz a nada
se não enche vasilha

por isso esta família
sente que cumpre o dia

se ouvir dentro do plástico
o gluglu da conquilha

E eu que sempre apanhei
conchas mas sem miolo

neste imenso areal
desde os confins da infância

tenho que me render
ao triste desconsolo:

até estas gaivotas
só andam à ganância:

cada vez que mergulham
trazem peixe no bico!

E pensar que cantei
a esbelta liberdade

de suas brancas asas!
Por hoje aqui me fico

sofrendo em solidão
esta crua verdade:

Não há gestos gratuitos
por mais que diga ou faça

famílias ou gaivotas
a cada um seu isco

em serviço ou em férias
nenhum voo é de graça

só entendem o mar
se produzir marisco

Mas e eu que faço eu
a pé por estas ilhas

com ar de quem levou
uma pedrada na asa

senão catar também
umas tristes conquilhas

estas rimas forçadas
que vou levar para casa?!


Teresa Rita Lopes

viagem a tralalá...



Bom, perdi a oportunidade (por uns dias) de dar um abraço à Helena (e de conhecer o Lutz). Mas já estou a ler um exemplar editado pela "Tinta da China". Quanto ao autógrafo da tradutora...será que o consigo lá mais para o Verão?

PS- Pelo comentário da vendedora, percebi que era mais uma seduzida pela dupla encantadora: russo + Helena Araújo.

2012-05-14



Penso em ti e por pensar existes
e num momento pleno como este
justifica que nós árvores de acaso
ergamos nossos troncos sobre a terra
num desafio à morte inevitável
e até indispensável para quem
tanto mais vida teve quanto mais morreu
Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão joguei-o no amor



Ruy Belo:
"O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor"

2012-05-13

o medo do amor compromete qualquer futuro



Uma das indigências dos nossos dias é a que se refere ao amor. Não porque ele não exista, mas a sua existência não acha lugar, acolhimento na própria mente e mesmo na própria alma de quem é visitado por ele. No ilimitado espaço que, na aparência, a mente de hoje abre sobre a realidade, o amor tropeça com barreiras infinitas. E tem de justificar-se e dar razões sem fim, e tem de resignar-se finalmente a ser confundido com a multidão de sentimentos, ou dos instintos, se não quer esse lugar obscuro da "líbido", ou a ser tratado como uma doença secreta, de que deveríamos libertar-nos. A liberdade, todas as liberdades não parecem ter-lhe servido de nada; a liberdade de consciência menos que nenhuma, pois, à medida que o homem foi acreditando que o seu ser consistia na consciência e nada mais, o amor foi-se encontrando sem espaço vital onde respirar, como um pássaro asfixiado no vazio de uma liberdade negativa.
Pois a liberdade foi adquirindo um sinal negativo, foi-se convertendo - ela também - em negatividade, como se, ao ter feito de uma liberdade a priori da vida, o amor, o primeiro, a tivesse abandonado. E assim ficará o homem com uma liberdade vazia, o oco do seu ser possível. Como se a liberdade não fosse senão essa possibilidade, o ser possível que não pode realizar-se, necessitado do amor que engendra. "No princípio era o verbo", queria dizer também que era o amor, a luz da vida, o futuro a realizar-se. Sob essa luz, a vida humana descobria o espaço infinito de uma liberdade real, a liberdade que o amor concede aos seus escravos.

María Zambrano "A metáfora do coração e outros escritos"
tradução de José Bento
Assírio & Alvim

2012-05-11

bom fim de semana




Alvorninha, Maio 2012

recuperar a alegria

Na diversidade de imagens que os homens utilizaram e utilizam para falar de Deus, não tem particular relevo a imagem de Deus que é amor. E, no entanto,  Deus-amor é uma manifestação bíblica. Recuperada e experimentada por tantos homens e mulheres que, ultrapassando a fragilidade da natureza humana, deixaram que a realidade mais profunda do ser humano se manifestasse: Amaram. Amam.
 

"Para que afinal floresça o mais que humano em nós", canta Caetano Veloso. Deixá-lo acontecer, é descobrir a fonte inesgotável da alegria.

2012-05-10

escrever como quem entra na noite



A aurora aqui é cinzenta, diz-lhe ela ainda. Nem sempre foi assim. Não sabemos quem acusar.
Durante a noite, o gado lança grandes gemidos, longos e aflautados para rematar. Temos compaixão, mas que havemos de fazer?
Rodeia-nos o cheiro dos eucaliptos: é uma bênção, serenidade, mas não pode proteger tudo, ou acaso acha que podia realmente proteger tudo?

Henri Michaux - "Escrevo-lhe de um país distante"
Antologia



2012-05-08

bem pode ser a oração diária da Igreja Católica

Bet
2Chora sem cessar pela noite dentro;
as lágrimas correm-lhe pelas faces.
Entre todos os seus amantes
não há um que a console.
Todos os seus aliados a traíram,
tornaram-se seus inimigos.


Lamentações 1,2

2012-05-06

mãe


porque hoje é domingo

18* não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade.19*Por isto conheceremos que somos da verdade e, na sua presença, sentir-se-á tranquilo o nosso coração, 20mesmo quando o coração nos acuse; pois Deus é maior que o nosso coração e conhece tudo. 21*Caríssimos, se o coração não nos acusa, então temos plena confiança diante de Deus, 22e recebemos dele tudo o que pedirmos, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos o que lhe é agradável.23*E este é o seu mandamento: que acreditemos no Nome de seu Filho, Jesus Cristo e que nos amemos uns aos outros, conforme o mandamento que Ele nos deu. 24*Aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele; e é por isto que reconhecemos que Ele permanece em nós: graças ao Espírito que nos deu. 

1ª Jo 3 18-23

2012-05-05

apatia ou permanência?



Por vezes, suspende-se a vida, num lugar que se supõe seguro (ou dá jeito pensar que assim seja). Quando a retomamos (acidentalmente, quase sempre), constata-se, com surpresa, que já não é a mesma - incidentes, que desconhecíamos, tornam-na quase irreconhecível. Mas é a nossa vida.


onde guardar as palavras que sobram?



Preparação do solo

Comprei finalmente
a floreira, agora suspensa

no parapeito da cozinha.
Entre o armário e o balcão,
pode ser que sirva
ainda
de lugar a andorinhas e ervas aromáticas.
O vento há-de trazer-me
tudo isso e também
escapes e monóxido de carbono.

Esgotadas todas as emendas
e todos os outros males,
dediquei-me
com minúcia
e seriedade
(o possível)
a criar na terra as palavras
normais que me sobravam
no fundo dos bolsos.


Margarida Ferra in "Curso Intensivo de Jardinagem"

2012-05-04

Panteísmo e panenteísmo

Uma visão cosmológica radical e coerente afirma que o sujeito último de tudo o que ocorre é o próprio universo. É ele que faz emergir os seres, as complexidades, a biodiversidade, a consciência e os conteúdos desta consciência pois somos parte dele. Assim, antes de estar em nossa cabeça como idéia, a realidade de Deus estava no próprio universo. Porque estava lá, pôde irromper em nós. A partir desta compreensão se entende a imanência de Deus no universo. Deus vem misturado com todos os processos, sem perder-se dentro deles.  Antes, orienta a seta do tempo para a emergência de ordens cada vez mais complexas, dinâmicas (portanto, que se distanciam do equilíbrio para buscar novas adaptações) e carregadas de propósito. Deus comparece, na linguagem das tradições transculturais, como o Espírito criador e ordenador de tudo o que existe. Ela vem misturado com as coisas. Participa de seus desdobramentos, sofre com as extinções em massa, sente-se crucificado nos empobrecidos, rejubila-se com os avanços rumo a diversidades mais convergentes e interrelacionadas, apontando para um ponto Omega  terminal.
Deus está presente no cosmos e o cosmos está presente em Deus. A teologia antiga expressava esta mútua interpenetração pelo conceito “pericórese”, aplicada às relações entre Deus e a criação e depois entre as divinas Pessoas da Trindade. A teologia moderna cunhou outra expressão, o “panenteísmo” ( em grego: pan=tudo; en= em; theos=Deus). Quer dizer: Deus está em tudo e tudo está em Deus. Esta palavra foi proposta evangélico Frederick Krause (l781-1832), fascinado pelo fulgor divino do universo.
O panenteísmo deve ser distinguido claramente do panteísmo. O panteísmo (em grego: pan-tudo; theos=Deus) afirma que tudo é Deus e Deus é tudo. Sustenta que Deus e mundo são idênticos; que o mundo não é criatura de Deus mas o modo necessário de existir de Deus. O panteísmo não aceita nenhuma diferença: o céu é Deus, a Terra é Deus, a pedra é Deus e o ser humano é Deus. Esta falta de diferença leva facilmente à indiferença. Se tudo é Deus e Deus é  tudo, então é indiferente se me ocupo com uma menina estuprada num ônibus no Rio ou com o carnaval, ou com indígenas em extinção ou com uma lei contra a homofobia.  O que é manifestamente um erro, pois diferenças existem e persistem.
Tudo não é Deus. As coisas são o que são: coisas. No entanto, Deus está nas coisas e  as coisas estão em Deus, por causa de seu ato criador. A criatura sempre depende de Deus e sem Ele voltaria ao nada de onde foi tirada. Deus e mundo  são diferentes. Mas não estão separados ou fechados. Estão abertos um ao outro. Se são diferentes, é para possibilitar o encontro e a mútua comunhão.   Por causa dela superem-se as categorias de procedência grega se contrapunham: transcendência e imanência. Imanência é este mundo aqui. Transcendência é o mundo que está para além deste.  O Cristianismo por causa da encarnação de Deus, criou a categoria transparência. Ela é a presença da transcendência (Deus) dentro da imanência(mundo). Quando isso ocorre, Deus e mundo se fazem mutuamente transparentes. Como dizia Jesus: “quem vê a mim, vê o Pai”. Teilhard de Chardin viveu uma comovente espiritualidade da transparência. Bem dizia:” O grande mistério do Cristianismo não é a aparição, mas a transparência de Deus no universo. Não somente o raio que aflora, mas o raio que penetra. Não a Epi-fania mas a Dia-fania” (Le milieu divin 1957, 162).
O universo em cosmogênese nos convida a vivermos a experiência que subjaz ao panenteísmo: em cada mínima manifestação de ser, em cada movimento, em cada expressão de vida estamos às voltas com a presença e a ação de Deus. Abraçando o mundo, estamos abraçando Deus. As pessoas sensíveis ao Sagrado e ao Mistério tiram Deus de seu anonimato e dão-lhe um nome. Celebram-no com hinos, cânticos e ritos mediante os quais expressam sua experiência de Deus. Testemunham o que Paulo disse aos gregos de Atenas:”Em Deus vivemos, nos movemos e existimos”(17, 28).

Leonardo Boff , aqui

2012-05-01




Eduardo Gajeiro, 1º de maio 1974

Artigo 23º

  1.  Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego.
  2. Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual.
  3. Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de protecção social.
  4. Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para a defesa dos seus interesses.