2012-05-01




Eduardo Gajeiro, 1º de maio 1974

8 comentários:

  1. Cara Maria,

    se preferir responder aoq ue escrevi no "Tribo de Jacob" aqui no seu blog, para não estarmos a trocar ideias que - pela minha ignorância - possam chocar outras pessoas, eu virei cá ver.

    Obrigado.

    Fernando d'Costa

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  2. :)

    está bem. pode ser aqui. À sombra das belas mulheres retratadas acima.
    Mas não se minimize. Vai ver que eu não sou tão dura como pareço.

    O Fernando fica cativo dos pormenores. Explico:

    quando citei o artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos, não estava a trazer para primeiro plano a questão de as mulheres terem direito a acederem à ordenação presbiteral. O direito que é inalienável é o da dignidade.

    A hierarquia da Igreja, ao manter vedado o acesso ao sacramento da Ordem a qualquer mulher, está a ferir as mesmas na sua dignidade.

    Isto tem razões históricas, sociais e culturais. No passado, compreende-se que tal acontecesse. Hoje não faz mais sentido.

    Razões teológicas...não consigo vislumbrar, nem até hoje a Igreja as deu irrefutáveis. Veja que a Igreja anglicana ultrapassou, aquilo que nós consideramos obstáculos teológicos.

    Este assunto tem também como base aquilo que o Jorge aludiu como a questão vocacional do sacramento da Ordem. Mudando a visão que a Igreja mantém como sendo a mesma um chamamento de Deus, muda a questão do acesso.

    Eu não estou a dizer que Deus não chama (pelo contrário)estou a pôr em questão a visão que atribui ao chamamento uma acção descendente.

    Fundamos a nossa fé comum em Jesus Cristo. Pergunto: ele foi um sacerdote ordenado pelo templo? Ordenou alguém?

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  3. Cara Maria, grato pelas suas palavras.

    Farei, como psicólogo que sou, de advogado do "diabo" (que está nos pormenores);

    a) Não, Jesus não foi sacerdote ordenado pelo templo, mas não deixou de ser sacerdote em sentido pleno consagrado para esse efeito pelo Pai; E sim e com uma soberana liberdade, consagrou umas pessoas, e não outras, a prolongarem a sua missão sacerdotal;

    b) Como disse, da dignidade comum (que não nego e pela qual me luto, e lutarei, sempre) à ordenação vai um salto sem conexão lógica: temos todos, diante de Deus, a mesma dignidade, mas isso não faz de todos nós aptos a, na sequência das palavras e acções de Jesus, sermos sacerdotes; Serei eu, casado, menos digno do que quem é sacerdote? não, pois a dignidade, em meu entender, não vem do que fazemos, nem do que podemos fazer, mas única e exclusivamente do valor que temos por sermos quem somos, não?

    c) Não creio que seja a Igreja que vede o acesso das mulheres ao sacerdócio. A não ser que entendamos "Igreja" no seu sentido mais pleno: Cristo e nós. Acha que há, por parte da hierarquia, preconceitos, ignorância, misoginia, por detrás de tal "vedar"?

    d) Acha que as razões por tal "vedar" são apenas "históricas, sociais e culturais"? Não acha que as há teológicas? E o controverso documento de João Paulo II, tido para ser infalível, sobre este tema (cujo nome não tenho presente), não é, por si só, uma razão?

    e) Sabe qual o motivo de a Igreja anglicana ter admitido o sacerdócio das mulheres? Acha que foram motivos teológicos positivos? Ou ignora que resultou de um "survey" para ver se com, ou sem, tal medida haveria um maior número de pessoas que se manteriam na Comunhão Anglicana? (nem imaginariam a sangria a que, contra tais expectativas quantitativas, tal medida levou).

    f) Acha mesmo que, mesmo quando as vocações forem "escolhidas" pelas bases (mas na linha de um reconhecimento de um "dom" acolhido do que de uma fabricação de um "querer"), a Igreja abrirá as portas ao sacerdócio feminino? Poderá, na linha a que eu referi, Deus dar um dom a quem, no passado e em Cristo, me parece que manifestou não querer dar?

    Varias perguntas. Não se apresse em responder e acredite que não estou a querer senão esclarecer-me.

    Fernando d'Costa

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  4. Fernando,

    refiro que não tenho problema nenhum com os pormenores. Tento é ter uma visão abrangente.
    Estamos a dialogar partindo de interpretações diferentes (e até em alguns pontos divergentes) do tema. Nesta resposta vou apenas responder às suas questões.

    Em relação à alínea "a" o Fernando expõe um Jesus Cristo com uma interpretação eclesial. Não o Jesus de Nazaré narrado nos evangelhos. Neles, o Jesus que nos é apresentado é o homem em sintonia plena (tanto quanto um homem o pode ser), com Deus. A missão temporal de Jesus, foi muito concreta: a cura e a libertação de toda e qualquer opressão. Também lemos nos textos evangélicos que homens e mulheres se predispuseram a segui-lo. E depois dos "encontros" com o Ressuscitado entregaram-se a participar da mesma missão.
    Não se vêem nos textos definições claras de consagração destes em detrimento daqueles.

    b) Se não nos faz aptos também não nos faz inaptos.

    c) Reposta: não acho, tenho a certeza. E, sem truques, falemos de lógica. O Magistério tem poder para determinar que é só a homens que deve ser administrado o sacramento da ordem. Homens solteiros, com determinados requisitos para serem admitidos, e não o tem para o tornar acessível às mulheres? Não há aqui uma falta de lógica?

    d) Deixo o link para duas cartas apostólicas do Papa João Paulo II, sobre este tema.

    http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_letters/documents/hf_jp-ii_apl_22051994_ordinatio-sacerdotalis_po.html

    http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_letters/documents/hf_jp-ii_apl_15081988_mulieris-dignitatem_po.html

    São cartas apostólicas. Não se lhes aplica a infalibilidade.

    e) Sou pragmática q.b. para pensar que neste ou noutro qualquer tema, só se aplicam motivos positivos. A vida faz-se de escolhas. Cada escolha que fazemos (pessoalmente ou em grupo) é passível de acertos e de erros (mas parece que neste assunto está muito mais habilitado do que eu), nunca teremos a garantia de que aquele é que era "o caminho". Este tema, em discussão, não foge a essa regra.

    f) Percorrendo os diferentes livros que compõe a Bíblia, não podemos dizer em verdade, que Deus pré determina a conduta de cada homem ou de um povo (ou comunidade). Deus não se interpõe nas escolhas que cada um faz.

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  5. Vamos, então, tentar avançar mais um pouco.

    Entremos pelo ponto d)

    Obrigado pela referência à "Ordinatio sacerdotalis". Com este nome foi-me mais fácil encontrar o que desejava trazer à colação.

    Na realidade, na altura da sua publicação estava a fazer o meu doutoramento em Louvaina e, como tinha parcos recursos, estava a viver com um padre português que estava por lá a acompanhar os migrantes. Fruto da onda de reacções àquele documento, que muito me interessava para a minha tese, soube da existência de um outro, publicado pouco depois, e chamado "Responsum Ad Dubium" em que, e cito na versão em inglês que poderá ver no link que apresento mais abaixo, se diz:

    «This teaching requires definitive assent, since, founded on the written Word of God, and from the beginning constantly preserved and applied in the Tradition of the Church, it has been set forth infallibly by the ordinary and universal Magisterium (cf. Second Vatican Council, Dogmatic Constitution on the Church Lumen Gentium 25, 2). Thus, in the present circumstances, the Roman Pontiff, exercising his proper office of confirming the brethren (cf. Lk 22:32), has handed on this same teaching by a formal declaration, explicitly stating what is to be held always, everywhere, and by all, as belonging to the deposit of the faith».

    Ou seja, e embora ache que a obediência adulta não é um assentimento insensato mas um em consciência, parece-me que como católico devo dar o meu "sim" à "Ordinatio sacerdotalis". É por aqui que entra a minha grande vontade de perceber de onde vêm os argumentos teológicos positivos ("as mulheres devem ser ordenada por X") que ponham em dúvida a determinação da "Ordinatio sacerdotalis".

    Responsum Ad Dubium

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  6. Avançando.

    ponto b)

    Tem razão: de uma igual dignidade não se pode dizer que há igual aptitude para o sacerdócio nem que ela não há. É por isso que eu creio que não pode ser por aí que devo ir nas minhas discussões sobre este tema. Entre "dignidade" e "aptitude" há, neste assunto, uma salto de categorias que quando misturadas levam a afirmações tão sólidas como dizer que "como todas as cores são cores, então todas elas têm o mesmo cheiro" (e para mim as cores podem ter cheiro)...

    ponto f)

    Estamos, parece-me e se ignorarmos algumas palavras que coloquei na minha última pergunta deste ponto, mais uma vez de acordo. Não sou calvinista (hoje em dia diz-se "evangélico" para se camuflar muita das doutrinas mais horripilantes de Calvino). Mas aqui surge a questão de saber se Deus, tal como acontece com Alá, se contradiz. Ou seja: se ele pode dizer hoje A e amanhã não-A. Pessoalmente creio que não. Mas aqui voltamos ao nosso tema: terá Jesus limitado o sacerdócio aos varões? e se sim, podemos inverter tal sua determinação? É isso que espero que me possa esclarecer com os seus argumentos positivos.

    Fernando d'Costa

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  7. Ok, Fernando.

    Antes dos tais argumentos positivos torna-se relevante ir à questão sobre o que Deus diz.

    Já é tarde e não quero abreviar esse ponto. Continuarei depois.


    Boa noite

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  8. Para determinarmos o que Deus diz, é primordial que nos interroguemos sobre a imagem de Deus.

    O Deus bíblico é um Deus intervencionista que de "fora" do universo e de nós, actua quando as coisas se tornam incontroláveis e distantes do seu plano, (o que se me impõe como um cercear da liberdade humana) ou é, antes, um Deus que permanece agindo "dentro" e continuamente? (Naquela altura Jesus replicou-lhes: «O meu Pai continua a realizar obras até agora, e Eu também continuo!»Jo 5,17)

    Poderá Deus contradizer-se? O Deus da fé dos judeus, cristãos, muçulmanos etc. (porque a minha fé é num Deus único) colocar essa hipótese, afigura-se-me, de algum modo, uma expressão de soberba intelectual. Como é que um ser finito e limitado como é o ser humano, pode pretender encontrar contradição no dizer de Deus? Fica a pergunta.

    As nossas diligências não se devem colocar nas contradições do dizer de Deus, mas na apreensão do que Deus diz. É, faz, diz...expressões humanas que nunca abarcarão a realidade que Deus é e que, em absoluto, nos transcende.

    É neste propósito que coloco a questão da vocação. Qualquer que seja. Deus, em nós, continua a chamar-nos sempre para sermos mais. Continuamente.

    Se recuarmos às primeiras comunidades dos Actos, era-se escolhido para quê? para o anúncio e o serviço aos irmãos. De referir que, sem que se saiba porque, as primeiras testemunhas (e anunciantes) da ressurreição foram do sexo feminino.

    O que pretendo referir é que a história da salvação e a revelação, nunca se fazem à margem da história humana. Não temos dados para distinguir entre iniciativa humana e divina. Como podemos então dizer que a vontade de Deus é que sejam apenas varões, os únicos admitidos ao sacramento da Ordem?

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