2012-05-29

o genuíno gozo



"Aprendi hoje algo de essencial. Quando achava bonita uma flor, o que eu mais desejava era apertá-la contra o peito ou comê-la. Era mais difícil com uma bonita paisagem, mas o sentimento era o mesmo. Eu era sensual demais, demasiado "possessiva". Tudo o que me parecia bonito queria-o de forma exageradamente física, queria possuí-lo. Por isso tinha sempre uma dolorosa sensação de desejo que nunca podia ser satisfeita, uma nostálgica aspiração a qualquer coisa que me parecia inacessível, a que eu chamava "instinto criador" (...) De repente, tudo mudou (...) Verifiquei com alegria que o mundo que Deus criou continua belo (...) Como sempre, esta paisagem silenciosa, tão misteriosa à hora do crepúsculo, deu-me sentimentos tão fortes como dantes, mas vi-a, digamos assim, "objectivamente". Já não a queria "possuir", já não me sentia incitada ao onanismo".



Etty Hillesum in Diário

6 comentários:

  1. sim, o genuíno gozo, é olhar, apreciar e saborear...

    beijinhos Maria C.

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  2. Maria, não sei se era este 'o genuíno gozo', o sentir que ia iluminar a minha costela, se sim, agradeço-te a intenção, mas um pecador, dificilmente se deixa alumiar por uma candeia de azeite, precisa de luzes mais fortes, daquelas que drogam o espírito em vez de o redimir...
    Peço-te desculpa de ter sido penetra neste teu jardim de luz, não chateio mais, deixo-te como recordação da minha passagem por este lugar doce e espiritual, a minha jangada, um meio que vou utilizar para talvez cheirar o sabor de uma ilha de águas mais revoltas, aportar aí num cais, onde acredito tu também te inspiras na adoração do mar.
    Até sempre!
    Um beijo.
    (CM)

    JANGADA!


    Em dunas do pôr do sol,
    Neste crepúsculo do fim,
    Antes da alma nascer,
    Sou uma noite a viver,
    Antes do morrer de mim.

    Numa jangada perdida,
    Em claridade cor de areia,
    Adorava ser o mar,
    Para nas ondas amar,
    O teu corpo de sereia.
    (CM)

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  3. Desde que li o diário de Etty que de certo modo ele nunca mais saiu da minha cabeceira.
    E é uma das coisas que mais gosto nela, essas sucessivas vagas de um entusiasmo irreflectido e de uma capacidade admirável de introspecção. Um espelho tão preciso do que é bom e inquietante no homem.

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  4. e contemplar, respeitar, esperar...

    beijinhos, Luís

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  5. ena, ena...temos poeta. :)

    Alguns reparos:

    nem todos, à semelhança de Paulo, temos a nossa estrada de damasco. Ou melhor...para a maior parte de nós, a estrada de damasco é um caminhar contínuo. E aí, valem as pequenas candeias e os grandes luzeiros.

    Não me parece nada boa ideia drogar o espírito. Isso já fazemos de muitos modos.

    O povo costumava (uso no passado porque agora até já se tem pudor de proferir a palavra)dizer que o amor é cego. Não concordo nada com isso. Só existe amor onde houver gente desperta.

    O amor é o grande milagre, mas aportamos a ele no meio de muitas insignificâncias, e acontecimentos menos claros (e muitas vagas revoltas, pois claro).

    Beijo, ó navegador.

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  6. Silver,

    um testemunho precioso, este diário. uma bela reflexão/vida sobre a fé e o amor.

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