2012-05-13

o medo do amor compromete qualquer futuro



Uma das indigências dos nossos dias é a que se refere ao amor. Não porque ele não exista, mas a sua existência não acha lugar, acolhimento na própria mente e mesmo na própria alma de quem é visitado por ele. No ilimitado espaço que, na aparência, a mente de hoje abre sobre a realidade, o amor tropeça com barreiras infinitas. E tem de justificar-se e dar razões sem fim, e tem de resignar-se finalmente a ser confundido com a multidão de sentimentos, ou dos instintos, se não quer esse lugar obscuro da "líbido", ou a ser tratado como uma doença secreta, de que deveríamos libertar-nos. A liberdade, todas as liberdades não parecem ter-lhe servido de nada; a liberdade de consciência menos que nenhuma, pois, à medida que o homem foi acreditando que o seu ser consistia na consciência e nada mais, o amor foi-se encontrando sem espaço vital onde respirar, como um pássaro asfixiado no vazio de uma liberdade negativa.
Pois a liberdade foi adquirindo um sinal negativo, foi-se convertendo - ela também - em negatividade, como se, ao ter feito de uma liberdade a priori da vida, o amor, o primeiro, a tivesse abandonado. E assim ficará o homem com uma liberdade vazia, o oco do seu ser possível. Como se a liberdade não fosse senão essa possibilidade, o ser possível que não pode realizar-se, necessitado do amor que engendra. "No princípio era o verbo", queria dizer também que era o amor, a luz da vida, o futuro a realizar-se. Sob essa luz, a vida humana descobria o espaço infinito de uma liberdade real, a liberdade que o amor concede aos seus escravos.

María Zambrano "A metáfora do coração e outros escritos"
tradução de José Bento
Assírio & Alvim

Sem comentários:

Enviar um comentário