2012-05-27

o melhor que há em nós

O Deus criador criou o mundo do nada por amor. E tudo o que leva em si uma fibra deste amor descobre algum dia o vazio das coisas e nelas, porque toda a coisa e todo o ser que conhecemos aspira a mais do que realmente é. E o que ama fica preso nesta aspiração, nesta realidade não conseguida, nesta enteléquia que ainda não foi, e ao amá-la, ao arrastá-la desde o não-ser a um género de realidade que parece total e que depois se oculta e mesmo se desvanece.
E assim o amor faz transitar, ir e vir entre zonas antagónicas da realidade, penetra nela e descobre o seu não-ser, os seus infernos. Descobre o ser e o não-ser, porque aspira a ir para lá do ser; de todo o projecto. E desfaz toda a consistência.
Destrói, por isso dá nascimento à consciência, sendo como é a vida plena da alma. Eleva ao obscuro ímpeto da vida; essa avidez que é a vida no seu fundo elementar, leva-a na alma. Mas, ao mostrar a inanidade de tudo aquilo em que se fixa, revela à alma também os seus limites e abre-a à consciência, fá-la dar nascimento à consciência. A consciência aumenta depois de um desengano de amor, como a própria alma se dilatara com o seu engano.
Mas não existe engano algum no amor, que, por o haver, obedece à necessidade da sua essência. Porque, ao descobrir a realidade no duplo sentido do objecto amado e do que ama, a consciência de quem ama não sabe situar essa realidade que a transcende. Se não houvesse engano, não haveria transcendência, porque permaneceríamos sempre encerrados dentro dos mesmos limites.
E o engano é, por outro lado, ilusório, pois aquilo que se amou, o que na verdade se amava, quando se amava, é verdade. É a verdade, embora não esteja completamente realizada e segura; a verdade que espera no futuro.



María Zambrano;
"Metáfora do Coração e Outros Escritos"
Tradução de José Bento
Assírio & Alvim

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