2012-06-30

bom fim de semana






para não dizerem que não falei das flores...

um rosto humano para a Igreja

De uma Igreja que se considerava uma sociedade perfeita passou-se à Igreja como comunidade de crentes. Do mundo como inimigo da alma ao mundo como lugar da vivência da fé. Da condenação da modernidade e das religiões não cristãs ao diálogo multilateral. Da condenação dos direitos humanos ao seu reconhecimento e proclamação. Da condenação da secularização à sua defesa, no sentido do reconhecimento da autonomia das realidades temporais. Da Igreja imutável e imóvel à Igreja que deve estar em constante reforma. Do integrismo católico ao respeito pelas outras crenças. Do autoritarismo centralizado em Roma à colegialidade episcopal. Da Cristandade ao cristianismo. Da pertença à Igreja como condição necessária para a salvação à liberdade religiosa como direito humano fundamental. De uma Igreja europeia a uma Igreja verdadeiramente universal.

Anselmo Borges in DN

2012-06-28

no fingir...é que está o ganho

Não assustes a vida. Anda de leve,
fala brando e baixinho; e se não és feliz,
            finge que o és;
pois, mais que as coisas mesmas e a verdade,
            são as palavras que a perturbam,
            é a aparência que a fere.

            Inventa, pois, sonhos,
            mente-te que és feliz
            cria-te outro e falso,
o que quiseres ser, o que serias,
            mas feliz.

Anda de leve, fala brando,
            não assustes a vida com a verdade
                        e acabarás feliz.


Padre Daniel Lima

2012-06-25

pois

 (Junho 2012)


Sempre fora o meu mal evitar fazer mal



Ruy Belo in "O Tempo das Suaves Raparigas..."

quem não arrisca...

Sem surpresas, a Santa Sé confirma a continuação do celibato obrigatório, para os candidatos ao presbiterado. Reconhece que os números dos candidatos continuam a cair, que o actual presbitério é, maioritariamente, de idade avançada, mas não arrisca em qualquer solução que eventualmente minorasse esses dados.

Não sabemos, caso caísse a obrigação do celibato obrigatório, ou até a abertura às mulheres da possibilidade de ordenação, se os números aumentariam exponencialmente, e ficariam resolvidas as necessidades da Igreja na assistência às comunidades. A mudança implicaria, com certeza, riscos. Mas continuar a teimar na actual posição, tem as consequências que já conhecemos e outras que surgirão.

É desanimador também que a Santa Sé continue a olhar para as propostas de mudança e veja nelas apenas uma contaminação daquilo que diz  ser a "mentalidade secularizada". Como se no âmbito do religioso tudo fosse bom e perfeito, e no "mundo" - de quem a Igreja se sente sempre, incompreensivelmente, separada - nada de bom aconteça. Claramente, a Igreja não está a saber ler a história, e a interpretar os "sinais dos tempos". Mais uma oportunidade perdida.

suavemente

2012-06-24

S. João da Cruz - n. 24/06/1542

Chama de Amor Viva

Canções da alma
na íntima comunicação de união de amor de Deus.

Oh chama de amor viva,
que ternamente feres
da minha alma o mais profundo ponto!,
já que não és esquiva,
acaba já, se queres;
rasga o tecido deste suave encontro.

Oh cautério suave!
Oh deleitosa chaga!
Oh toque delicioso! Oh mão querida,
que à vida eterna sabe,
toda a dívida paga!,
matando, a morte transformaste em vida.

Oh lâmpadas de fogo,
em cujos resplendores
as profundas cavernas do sentido,
escuro e cego, logo
com estranhos primores
calor e luz dão junto ao seu querido!

Quão manso e amoroso
acordas em meu seio,
onde em segredo, solitário, moras;
e em teu aspirar gostoso,
de bem e glória cheio,
quão delicadamente me enamoras!


S. João da Cruz

João Baptista



João Baptista, Leonardo da Vinci

Consultada a Wikipédia sobre a origem do quadro, achei curiosa (e ingénua) a explicação encontrada para descrever o sorriso que o quadro retrata.

voar

2012-06-22



Terra- 24

António, é preciso partir!
o moleiro não fia,
a terra é estéril,
a arca vazia,
o gado minga e se fina!
António, é preciso partir!
A enxada sem uso,
o arado enferruja,
o menino quere o pão; a tua casa é fria!
É preciso emigrar!
O vento anda como doido – levará o azeite;
a chuva desaba noite e dia – inundará tudo;
e o lar vazio,
o gado definhando sem pasto,
a morte e o frio por todo o lado,
só a morte, a fome e o frio por todo o lado, António!
É preciso embarcar!
Badalão! Badalão! – o sino
já entoa a despedida.
Os juros crescem;
o dinheiro e o rico não têm coração.
E as décimas, António?
Ninguém perdoa – que mais para vender?
Foi-se o cordão,
foram-se os brincos,
foi-se tudo!
A fome espia o teu lar.
Para quê lutar com a secura da terra,
com a indiferença do céu,
com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra,
com tudo!
Árida, árida a vida!
António, é preciso partir!
António partiu.
E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio.

 

Fernando Namora, in 'Terra'

2012-06-21

HELENE GRIMAUD - Bach



Ruínas

Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado interreompido.

O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam
e deveria talvez ter começado por aí.

Agora é tarde, do que podia ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha igreja
como quem, ao fim do dia, volta a casa.

Manuel António Pina,
Como se Desenha uma Casa
Assírio e Alvim

onde nos leva o olhar

7*Mas o SENHOR disse a Samuel: «Que te não impressione o seu belo aspecto, nem a sua alta estatura, pois Eu rejeitei-o. O que o homem vê não importa; o homem vê as aparências, mas o SENHOR olha o coração.» 8

1ª Samuel 16 7-8

2012-06-20

Abrir o olhar


Perante o Mal há tantas coisas que desconhecemos, para as quais não temos uma explicação, nem ninguém a pode dar. Mas será que para o Bem  temos respostas? Não é ele também um enigma e um enigma ainda maior? Tome-se o Livro de Job. Há aquele momento central em que Deus o manda apertar o cinto e pôr-se de pé, porque vai interrogá-lo. É de facto uma ocasião fantástica: Job está cheio de razões, num protesto aparentemente justíssimo contra Deus e agora ouve: «Cinge os teus rins como um homem; vou interrogar-te e tu me responderás» (Jb 40,7). E Deus diz-lhe uma coisa de todo inesperada: «Vê o hipopótamo que criei como a ti...Os seus ossos são como tubos de bronze, a sua estrutura é semelhante a pranchas de ferro. É a obra prima de Deus.» (Jb 40,15.18-19).

É uma pedagogia que Deus inaugura. Ao mandar Job olhar para o hipopótamo, Deus abre o seu olhar (o nosso olhar), escancara-o a tudo o que é grande e imenso, a tudo o que nos escapa, mostrando-lhe que, se o mal não tem resposta, o Bem menos ainda. A maravilhosa obra do Criador também não tem resposta. O amor e o espanto, o riso e o dia, a alegria e a dança são sem porquê. Porque fazemos então depender tudo de uma reposta para o Mal, se o Bem é igualmente um mistério, e um mistério infinitamente maior?

«Olha de frente  tudo o que é grande» - é o desafio que Deus faz a Job, o repto que nos faz a nós. Perante isto, Job responde ao Senhor: «Falei de maravilhas que superam o meu saber...Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora vêem-te os meus próprios olhos, por isso me retrato» (42, 1-6). Ele tinha ouvido falar de Deus, mas agora viu Deus. Viu o mistério do Criador, fixou o coração na sua grandeza, reparou de frente na imensidão. Há um silêncio que é o princípio da transformação da vida.



José Tolentino Mendonça in "Pai-Nosso que estais na Terra"

John Foxx The Garden

2012-06-19

existe, pois

Sem carácter e sem estilo quando se entrava e se passava diante dele, esse jardim medíocre parecera-me tão pouco promissor, mas então achou-se alterado num ápice, tornado jardim paradisíaco...e eu alguns passos defronte, e tão naturalmente que já não sabia há quanto tempo lá estava, no Jardim dos Jardins, aquele em que não se pensa em mais nada, que nos enche inteiramente e que, por nada deste mundo, nem sequer pelo tempo, pode ser ultrapassado, um verdadeiro jardim do paraíso.


Com que então era possível, e sem maçã, nem serpente nem Deus castigador, apenas o paraíso inesperado. E sem necessidade de me mexer, diante da árvores que era o seu centro, de uma imensa copa, de folhas carnudas e amareladas, anunciadoras douradas do Outono próximo.


Henri Michaux in Antologia
Tradução Margarida Vale de Gato,
Relógio D'Agua

a vida em imagens #6

Alvorninha, 2012


Olhos bem abertos - e recuperam-se alguns sonhos de infância. Não têm idade, esses verdes corredores.

2012-06-17

o sabor da laranja

porque hoje é domingo


Eis o que diz o Senhor Deus:
«Do cimo do cedro frondoso, dos seus ramos mais altos,
Eu próprio arrancarei um ramo novo
e vou plantá-lo num monte muito alto.
Na excelsa montanha de Israel o plantarei
e ele lançará ramos e dará frutos
e tornar-se-á um cedro majestoso.
Nele farão ninho todas as aves,
toda a espécie de pássaros habitará à sombra dos seus ramos.
E todas as árvores do campo hão-de saber
que Eu sou o Senhor;
humilho a árvore elevada e elevo a árvore modesta,
faço secar a árvore verde e reverdeço a árvore seca.
Eu, o Senhor, digo e faço».

do Livro de Ezequiel


Na vida temos de estabelecer metas e objectivos. Mas a dinâmica da fé, não é mais do que um treino de paciência, para sabermos aguardar os frutos que hão-se chegar. Inesperadamente, sempre.

com a Grécia, hoje

2012-06-16

VIVIANE - "Deixei a janela entreaberta"

bom fim de semana

esta manhã, jasmim à janela

viver de modo responsável

Escolher ser livre, não significa que se seja auto-suficiente. É impossível viver de modo saudável, se não sabemos e sentimos que podemos contar com alguém.
Alguém a quem se recorre em momentos de crise, com quem se compartilham alegrias e esperanças, mas também quem aceite desafiar e pôr em causa o que já somos.

Nunca chegaremos a descobrir o melhor de nós mesmos, ou até onde vão as nossas capacidades, se nos instalamos numa rotina relacional - eventualmente até adversa -, porque tememos reconhecer e responsabilizarmo-nos pela própria vida.

Esta semana, várias e diferentes notícias referenciaram crimes de violência sobre as mulheres. Violência até à morte, executada por companheiros ou ex-companheiros. Não me detive nos pormenores. Pormenores escutei em confidências de duas mulheres, que tinham decidido agir, e apesar das chantagens e dificuldades (uma está a cuidar dos dois filhos do casal e sem emprego), terminaram com a relação.

Não é meu objectivo atribuir culpas. Sendo que a violência, física ou psicológica, não tem desculpas que a possam minimizar. O meu sentido é na responsabilização que cada um haverá de ter sobre a própria vida.

2012-06-14

"o novo chegou"



E o jardim tornou-se manifesto, manifesto de uma maneira inteiramente nova.
Desde o início uma subtil profundidade instalara-se nos seus extremos. Era agora uma coisa completamente diferente, um jardim completamente diferente.

A música, sem mais nos abandonar, unira-se a ele, numa união de que eu não fazia ideia, tão íntima que eu me esquecia dela, união particularmente forte com a árvore dominante que lá se encontrava, de uma dupla copa muito frondosa, agitada, constantemente agitada, em movimentos desiguais, por uma brisa que se tornara «apaixonada», quadro inaudito.

E centenas de ramos e de folhas corriam, e era como se passassem aspirações insensatas, que os sons de uma vina invisível tornavam maravilhosamente generosas, naturais, transbordantes.


Henri Michaux in Antologia
Tradução de Margarida de Vale de Gato
Relógio D'Água



2012-06-13

valha-me Santo António

Através do Ouriquense, cheguei a esta croniqueta. O Picoito pode saber muito de vinhos. E também saberá,  ou não, as circunstâncias do seu casamento. Mas eu dispenso-lhe as lições beatas.

e o perdão, sendo um dos elementos do amor, nem sequer nos pertence

(...)No final do Encontro Mundial das Famílias em Milão, o Papa Bento XVI afirmou o apoio, seu e da Igreja, à dor dos divorciados recasados, encorajando-os a manterem-se unidos às suas comunidades e convidando as dioceses a acolherem-nos com “a proximidade adequada”. Não é um tema fácil, nem de uma resposta imediata, mas imagino que parábola nos contaria Jesus, para que a verdade e a justiça do amor triunfassem. Que narrativa nos apresentaria, talvez com as histórias de muitos irmãos e irmãs, talvez pródigos (como na mais bela das parábolas que Lucas nos oferece!), com imagens da natureza ou da vida em que, tantas vezes, ficamos meio-mortos à beira do caminho?! Acredito que não ficaria em silêncio, nem deixaria a indiferença apagar as chamas de fé e de amor verdadeiros que vivem em tantos casais nesta situação! E não se trata simplesmente de “estar dentro” ou “estar fora”: que mudanças de autenticidade e conversão implicam este acolhimento, que festa exigiria realizarmos? Seria fragilidade e perda de poder? Também as parábolas não deixavam ninguém na mesma!


P. Vítor Gonçalves, aquihttp://www.ecclesia.pt/cgi-bin/comentario.pl?id=605

Fernando Pessoa n-13/06/1888


Meu pensamento é um rio subterrâneo

Meu pensamento é um rio subterrâneo.
Para que terras vai e donde vem?
Não sei… na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um rio subitâneo

De origens no Mistério extraviadas
De eu compreendê-las… misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados…

De vez em quando luze em minha mágoa,
Como um farol num mar desconhecido,
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água…

E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,

E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói-me no meu desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.

Escuto-o… Ao longe, no meu vago tacto
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a ideia de (um) rio certo e abstracto…

E p’ra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi-lo? A que caverna(s) desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?

Não sei… Eu perco-o… E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e actual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa…

5 - 11 - 1914


In Poesia 1902-1917  Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

2012-06-11

nem no pecado


É espiritualmente desastrosa a ideia que se espalhou na visão corrente da existência cristã, segundo a qual, quando pecamos, Deus se afasta de nós. Que acontece como que um eclipse de Deus. Pode lá ser! Pelo contrário: é preciso dizer, que quando pecamos Deus agarra-se ao nosso pescoço. Deus não nos deixa; Deus aumenta o seu amor por nós. Deus derrama a sua ternura, Deus acena, Deus suplica que abramos os olhos, que caiamos em nós e nos recordemos daquilo que somos, recobrando as forças...E é exactamente porque Deus se agarra ao nosso pescoço, como alguém que nos ama absolutamente, alguém que - di-lo a parábola - nos «cobre de beijos» (Lc 15,20), que podemos voltar ao abraço paterno.


José Tolentino Mendonça -
"Pai-Nosso que estais na terra"
Explicatio

O gesto mais simples,
capaz de ordenar tudo,
foi o que não fizemos.


José Mário Silva in "Luz Indecisa"

2012-06-10

Maria Keil 1914 - 2012


Morreu a artista que nos ilumina o olhar, quando viajamos de metro em Lisboa.

o que penso:


actualização da discussão que decorre aqui



Por masturbação entende-se a excitação voluntária dos orgãos genitais, para daí retirar prazer venéreo. (...) O prazer sexual é ali procurado fora da «relação sexual requerida pela ordem moral, que é aquela que realiza, no contexto dum amor verdadeiro, o sentido integral da doação mútua e da procriação humana».
Para formar um juízo justo sobre a responsabilidade moral dos sujeitos, e para orientar a acção pastoral, deverá ter-se em contam a imaturidade afectiva, a força dos hábitos contraídos, o estado de angústia e outros factores psíquicos ou sociais, que atenuam, ou até reduzem ao mínimo, a culpabilidade moral.

Catecismo da Igreja Católica, Nº2352

Sem, deliberadamente, descartar a doutrina católica sobre a sexualidade humana, não me retraio em lançar-lhe um olhar crítico. No que concerne à masturbação, que não deve ser isolada da totalidade da sexualidade, a mesma assume na doutrina católica um sentido reducionista bem explícito nesta entrada do CATIC.
Começa na forma: excitação voluntária dos orgãos genitais. A masturbação não se restringe à excitação dos orgãos sexuais. Bom, a menos que se entendam por sujeitos activos do acto de se masturbar apenas os sujeitos do sexo masculino...e mesmo assim, o corpo humano, tanto o feminino como o masculino, possui muito mais zonas erógenas do que as dos orgãos genitais.

Depois, sim, eu sei que a Igreja considera a masturbação um acto desordenado, e, como tal, apenas o enquadra no campo do juízo, não como fazendo parte do desenvolvimento integral da pessoa. Por isso, apela a atenuantes para o sujeito que se masturba. Caracterizando-o como imaturo, incapaz de auto domínio, angustiado etc.

Acredito que Deus nos criou como consequência daquilo que é: Amor. Como tal, criou-nos porque quer que vivamos. E vivamos da melhor forma possível. O uso que fazemos do nosso corpo pode ajudar ao nosso desenvolvimento integral ou não. Isso acontece na masturbação como em todas as outras funções do corpo. A masturbação, por si, não quer significar fechamento e desamor ao outro. A masturbação pode ser um meio para vivermos de de modo mais equilibrado e livre.

2012-06-09

"A tua presença"

autonomia/dependência

Por feitio e por educação, somos mais autónomos ou mais submissos. Não é fácil gerir uma consequente autonomia; dependemos dos genes, somos continuamente empurrados para enfileirar no pensar comum, ou de algumas maiorias, e a autonomia implica assumir as consequências das nossas decisões.

Balançamos sempre entre dois pólos: proximidade e autonomia. Precisamos cultivar a autonomia, porque a extrema dependência impede-nos de ser e que os outros sejam. Mas também teremos de saber ser próximos, pois o nosso egocentrismo pode levar-nos por caminhos de isolamento e desespero.

Autónomos ou submissos, o desafio é sempre o de sair das  zonas de conforto.

bom fim-de-semana

 Alvorninha, Maio 2012


Amo o Caminho que Estendes  

Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.

 


Daniel Faria, in "Dos Líquidos"

2012-06-06

Vida Tão Estranha



São de veludo as palavras
Daquele que finge que ama
Ao desengano levo a vida
A sorte a mim já não me chama

Vida tão só
Vida tão estranha
Meu coração tão maltratado
Já nem chorar
Me traz consolo
Resta-me só um triste fado

A gente vive na mentira
Já não dá conta do que sente
Antes sozinha toda a vida
Que ter um coração que mente

2012-06-05

as barreiras que erguemos para nos protegermos do novo

[...] temos necessidade de macroconceitos. Assim como um átomo é uma constelação de partículas, que o sistema solar é uma constelação à volta de um astro, assim temos necessidade de pensar por constelação e solidariedade de conceitos.
Por outro lado, devemos saber que nas coisas mais importantes, os conceitos não de definem nunca pelas suas fronteiras, mas a partir do seu núcleo. [...]

Consideremos o amor e a amizade. Pode reconhecer-se nitidamente no seu núcleo o amor e a amizade, mas há também amizade amorosa, amores amigáveis. Há pois situações intermediárias, mistas entre o amor e a amizade; não há uma fronteira nítida. Nunca se deve procurar definir as coisas importantes por fronteiras. As fronteiras são sempre vagas, são sempre interferentes. É preciso pois procurar definir o coração, e esta definição exige frequentemente macro-conceitos.


Edgar Morin in "Introdução ao Pensamento Complexo"

2012-06-04

maluquice é pouco...paranóia mesmo.

delírios



O homem tem dois tipos de delírio. Um evidentemente é muito visível, é o da incoerência absoluta, das onomatopeias, das palavras pronunciadas ao acaso. O outro é muito menos visível, é o delírio da coerência absoluta. Contra este segundo delírio, o refúgio está na racionalidade autocrítica e no recurso à expe-riência. (Egar Morin-Introdução ao Pensamento Complexo)


E do homem passamos às instituições. O delírio da Igreja Católica em relação à vida sexual das pessoas, é o absolutizar de uma pretensa coerência que não faz sentido para o homem de qualquer tempo. E muito menos para estes tempos que são os nossos. Continuar a emitir juízos condenatórios sobre a masturbação, a homossexualidade ou novas relações após um divórcio, é um perfeito delírio.


O sol é subterrâneo, aquele a que eu
me quero hoje estender é o do 
meu espírito, é preciso 
cavar bem fundo até o fazer surgir.

luís miguel nava
poesia completa (1979-1994)
publicações D. Quixote

2012-06-03

viver disposto para o voo

porque hoje é domingo

Alvorninha, Junho 2012


Ide, pois...E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos. (Mt 28, 19-20)

Ide: não vos instaleis nas dores e nas alegrias que vos calharam em sorte. Ide: sabendo que é no caminhar que é possível o encontro. Ide: sem esquecer nunca que o mistério que vos habita, está igualmente presente no outro que ides encontrar.



2012-06-02

conflito



no jardim um grilo estoura  em delírio
dentro da noite o que procuro  é o esquecimento


Fio da vida

Será a Cúria reformável?

O cancro da Igreja é mesmo a Cúria Romana. Sem a sua reforma urgente e radical (mas ela será reformável?), que tem de começar pela transparência económico-financeira, a Igreja Católica assistirá a uma descredibilização crescente. Quando, no meio de uma crise global e sem fim à vista, seria mais necessária do que nunca uma palavra moral limpa por parte da Igreja, ela afunda-se em escândalos. "Os javalis entraram na vinha do Senhor", queixa-se, com razão, o Papa Bento XVI. Chegou--se a este paradoxo: a última monarquia absoluta do Ocidente parece sentir-se impotente para pôr ordem na sua casa.

Não. Não é. O enunciado evangélico de que "não se deite vinho novo em odres velhos" (Mc 2,22) tem aqui a sua máxima aplicação.


Os escândalos não são novidade na Igreja, percorrendo, mesmo ao de leve, a sua história de dois milénios, são muitos e inequívocos os acontecimentos que entraram em conflito, mesmo com a sociedade do tempo em que aconteceram. Tanto assim foi que, em cada época, surgiram vozes e testemunhos de vida que rompiam com a ordem vigente.


A Cúria sofre dos mesmos mesmo males de todos os poderes que se assumem como absolutos. Mantém a estrutura descendente, mas as bases já não a sustentam nem apoiam.



2012-06-01

Paulo e a justiça de Deus

Que havemos de dizer de Abraão, nosso antepassado segundo a carne? Que obteve ele afinal? É que, se Abraão foi justificado por causa das obras, tem um motivo para se poder gloriar, mas não diante de Deus. Que diz, de facto, a Escritura? Que Abraão acreditou em Deus e isso foi-lhe atribuído à conta de justiça. Ora bem, àquele que realiza obras, o salário não lhe é atribuído como oferta, mas como dívida. Aquele, porém, que não realiza qualquer obra, mas acredita naquele que justifica o ímpio, a esse a sua fé é-lhe atribuída como justiça. 


Rom 4, 1-5