2012-06-20

Abrir o olhar


Perante o Mal há tantas coisas que desconhecemos, para as quais não temos uma explicação, nem ninguém a pode dar. Mas será que para o Bem  temos respostas? Não é ele também um enigma e um enigma ainda maior? Tome-se o Livro de Job. Há aquele momento central em que Deus o manda apertar o cinto e pôr-se de pé, porque vai interrogá-lo. É de facto uma ocasião fantástica: Job está cheio de razões, num protesto aparentemente justíssimo contra Deus e agora ouve: «Cinge os teus rins como um homem; vou interrogar-te e tu me responderás» (Jb 40,7). E Deus diz-lhe uma coisa de todo inesperada: «Vê o hipopótamo que criei como a ti...Os seus ossos são como tubos de bronze, a sua estrutura é semelhante a pranchas de ferro. É a obra prima de Deus.» (Jb 40,15.18-19).

É uma pedagogia que Deus inaugura. Ao mandar Job olhar para o hipopótamo, Deus abre o seu olhar (o nosso olhar), escancara-o a tudo o que é grande e imenso, a tudo o que nos escapa, mostrando-lhe que, se o mal não tem resposta, o Bem menos ainda. A maravilhosa obra do Criador também não tem resposta. O amor e o espanto, o riso e o dia, a alegria e a dança são sem porquê. Porque fazemos então depender tudo de uma reposta para o Mal, se o Bem é igualmente um mistério, e um mistério infinitamente maior?

«Olha de frente  tudo o que é grande» - é o desafio que Deus faz a Job, o repto que nos faz a nós. Perante isto, Job responde ao Senhor: «Falei de maravilhas que superam o meu saber...Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora vêem-te os meus próprios olhos, por isso me retrato» (42, 1-6). Ele tinha ouvido falar de Deus, mas agora viu Deus. Viu o mistério do Criador, fixou o coração na sua grandeza, reparou de frente na imensidão. Há um silêncio que é o princípio da transformação da vida.



José Tolentino Mendonça in "Pai-Nosso que estais na Terra"

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