2012-06-14



E o jardim tornou-se manifesto, manifesto de uma maneira inteiramente nova.
Desde o início uma subtil profundidade instalara-se nos seus extremos. Era agora uma coisa completamente diferente, um jardim completamente diferente.

A música, sem mais nos abandonar, unira-se a ele, numa união de que eu não fazia ideia, tão íntima que eu me esquecia dela, união particularmente forte com a árvore dominante que lá se encontrava, de uma dupla copa muito frondosa, agitada, constantemente agitada, em movimentos desiguais, por uma brisa que se tornara «apaixonada», quadro inaudito.

E centenas de ramos e de folhas corriam, e era como se passassem aspirações insensatas, que os sons de uma vina invisível tornavam maravilhosamente generosas, naturais, transbordantes.


Henri Michaux in Antologia
Tradução de Margarida de Vale de Gato
Relógio D'Água



2 comentários:

  1. Maria, leio esta prosa de Henri Michaux e não sei por que analogia, o meu espírito transporta-me para um sentido totalmente diferente do procurado neste blog, ou seja uma melhor compreensão da religião, da doutrina católica...
    Em tempos passados li um livro de John Steinbeck, 'a um deus desconhecido', cuja leitura me marcou, escrevi mesmo algo, nessa altura, no meu diário, que vou transcrever:

    "Terminei a leitura dum livro de John Steinbeck, ‘A Um Deus Desconhecido’, livro que já tinha lido há uns anos atrás e que me marcou profundamente.
    É a história duma família de agricultores nos E. U. América, e a conquista das terras do Oeste americano, no vale da Califórnia, no século dezanove.
    É impressionante a paixão desta gente pela terra, especialmente do protagonista da história, um homem que depois de seu pai morrer, passou a adorar uma árvore, num acto de paganismo, nela simbolizando o pai vivo, o seu deus, falando com ele e pedindo conselhos, e mais tarde, depois de tempos de seca, das terras sem água, gado e sementeiras perdidas, achou por bem morrer com a terra que ele tinha desbravado, cultivado e transformado em prósperos campos.
    Os seus últimos suspiros, junto dum ribeiro seco, quando já desfalecido, depois de ter cortado os pulsos e quando de repente começa a chover em torrentes, - «eu sou a chuva, eu sou a terra, a erva brotará de mim dentro em pouco» -, são os murmúrios dum ser que além de tudo na vida, amou a terra.
    Joseph, nome da personagem da história, marca o contraste do homem na cidade e na terra: na cidade semeia luzes, na terra semeia raízes."

    Desculpa, o meu sentir, mas este texto do Henri, fez-me viajar para paragens diametralmente opostas, ao sentido das suas palavras, acredito!

    Um beijo, Maria.

    (CM)

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  2. Olá CM.

    Não te inquietes (nem peças desculpa) do teu sentir. E muito menos se esse sentir vai no sentido oposto aquilo que é o sentido deste blog.

    Vou fazer aqui uma confidência. No outro dia, quando me dirigia de manhã para o trabalho (ando 1Km a pé 4x por dia)ia orientando os pensamentos para a minha "vida interior" e a pensar que ando já há um bom tempo em "auto gestão" e a pensar no que podia fazer para remediar um pouco isso. No imediato, lembrei-me deste espaço e de alguns diálogos que aqui têm surgido ao longo dos bons anos que já leva de vida. Dos diálogos com ateus. De pessoas para quem o divino não é mais que o "eterno silêncio". E perguntei a mim própria:Queres melhor desafio?

    O livro que lerei assim que acabar "a espuma dos dias" será o "A um deus desconhecido". Do autor li apenas "As vinhas da ira".
    Veremos qual o impacto que em mim terá...

    Um forte impacto teve o "O Estrangeiro" de A. Camus. Tenho-o como um dos livros da minha vida. É totalmente o oposto do meu "estar" e sentir, mas tenho aprendido a tomar percepção dessa realidade - que sendo outra da minha - é também a minha. Explicando melhor: para mim, cada vez mais, não há realidades paralelas. Há uma única realidade. Como um diamante, vou apreendendo algumas das suas faces. Elas fundem-se? são estanques? há a resposta do cristianismo: Jesus, homem verdadeiramente identificado com o divino, desceu ao abismo da morte - o grande silêncio - e vive para sempre.

    E eu? eu digo que ando por aqui, também a procurar o meu sentido.

    Beijo, CM

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